OS LEGAIS no Fórum Social Mundial 2005 - 29 de janeiro de 2005

Todo tipo de boatos e falácias tem sido publicadas pela internet acerca da tão esperada apresentação de os legais no Fórum Social Mundial. Uma grande parte do público afirma que o show nunca aconteceu, outros dizem ter visto a banda no palco duas vezes, muitos falam sobre a apresentação no centro do acampamento ao lado das outras bandas que organizaram o show...
Mas o que realmente aconteceu????
Os legais realmente fizeram sua parte por um mundo melhor??
Baseado e impulsionado pelos absurdos, ofensas e mentiras espalhados por todos os cantos do país acerca do show, resolvi publicar este diário descritivo sobre a jornada de os legais na capital da Hipocrisia Social Mundial. Para esclarecer e iluminar a existência daqueles que nem podem contar sua versão, porque simplesmente não estavam lá...

Dezembro de 2004 – Prólogo de esperança.

Para iniciar este drama é necessário voltarmos aos últimos momentos do ano de 2004, onde depois de uma bem sucedida apresentação em tributo ao Um ano sem dez anos sem GG Allin ao lado de Muzzarelas e Evil idols e uma turnê pelo interior do Rio Grande do Sul, tudo que Gurcius Gewdner e Os Legais queriam era paz e meditação para continuar e concluir o ano de forma saudável, quando surge a proposta de uma apresentação comemorativa na área central do maior encontro de pessoas socialmente preocupadas da face da terra.
Nunca hesitantes em nossa missão suprema de domínio mundial, prontamente aceitamos o convite dos organizadores. A proposta era a seguinte: montar a aparelhagem na área central do acampamento e colocar a banda do organizador, se necessário mais uma banda que cedesse aparelhagem e Os Legais para encerrar espalhando isopor e boa música por um mundo melhor na cara de todos os revolucionários revoltos. Trato feito e duas semanas antes da virada do ano os cartazes estavam prontos e se espalhando como praga por todos os cantos do país.

Primórdios de Janeiro – Crise no sistema de isopor.

Com os detalhes acerca da data e aparelhagem teoricamente certos, comecei os preparativos para nossa apresentação em si: precisava ter a certeza de fazer um set-list especialmente moldado para o público do fórum, que eu tinha a certeza de que seria perfeito com nosso mais novo sucesso “Ideologia”, como carro chefe.
Devido as retaliações de grupos revolucionários adolescentes sem ter o que fazer, ocasionadas pelo processo de filmagem de meu filme “Mamilos em chamas” (que inclusive verá a luz do dia em 2005, o que significa que talvez eu tenha que me mudar de novo) me vi obrigado a me mudar de Joinville para encontrar paz novamente.
Joinville é o pólo mundial do isopor. Triste descoberta que só tive o desprazer de descobrir na pele. Ao longo dos anos carreguei e espalhei isopor por todo e qualquer buraco onde fossemos ou não chamados e sempre me diziam: “vocês são retardados, porque ao invés de carregar pilhas e pilhas de isopor de Jlle até aqui vocês não catam na cidade do show????” pela primeira vez resolvi seguir este conselho e catar isopor em Florianópolis mesmo, e talvez até conseguir um pouco em Porto Alegre por conta dos organizadores. Momentos de dor e desespero se seguiram, quando descobri o verdadeiro sabor da verdade: Florianópolis não tem isopor, Joinville é o paraíso. Não haveria jeito de nascermos em qualquer outra cidade que não fosse Joinville, terra abençoada do sagrado isopor. Descobri isto tarde demais e me vi obrigado a procurar isopor na rua. Como satisfazer 160 mil hippies com a quantidade exata de isopor para todos? E o pior ainda, como satisfazer meu ego inflamado com a quantidade certa de isopor catando eles na rua?????
Este é um dos motivos pela qual nunca confiei em organizadores de show para conseguirem meu tão amado material, preciso de isopor suficiente para o tamanho do meu ego, quantidades enormes e infindáveis de isopor pulsante. O que é suficiente para eles é apenas o início para mim, o apocalipse não se constrói apenas com fogo, é preciso determinação e sede de sangue. É preciso abrir a carne para o sacrifício supremo. Durante dias e dias catei tudo que podia encontrar para espalhar em Porto Alegre, na certeza de um mundo melhor. Tentei negociar com fabricantes de isopor e tudo que posso dizer é que apodrecer no inferno queimando em isopor derretido é pouco pra eles, nenhum teve coração para me ceder um pouco de seu valioso e intocável estoque. Uma coisa que pude perceber é que a febre por isopor atende todas as faixas etárias, classes e localidades do planeta com uma onda cada vez mais crescente, quase beirando a obsessão em torno do amor por isopor. Minha salvação foram os depósitos de lojas, onde pude conseguir quantidades modestas. A essa altura eu já sofria de breves ondas de depressão ultrapassando meu corpo, o que só foi piorando ao sentir certa má fé por parte dos organizadores em Poá: ao perguntar sobre como andavam as coisas nenhuma resposta certa e satisfatória me era dada, eu apenas ouvia que estava tudo certo. Ok.

24/01/2005 – Fórum Individual Mundial

O Fórum também é conhecido por ser um dos grandes pontos de encontro de universitários com desejo de salvar o mundo e foi justamente em uma reunião de universitários comunistas preocupados com o mundo e para conseguir ônibus de graça, que senti todo o espírito de solidariedade que me acompanharia durante toda a semana. Muita discussão e desespero na sala de reuniões para conseguir lugar nos ônibus grátis, até que um jovem (provavelmente desinformado sobre o que é solidariedade para os ativistas do fórum) propõe cada um dar 15 reais (ida e volta para Porto Alegre, barbada!!!) para o aluguel de um novo ônibus e desta forma possibilitar a ida de todos. Silencio mortal. Ninguém se mexe, até que um barbudo com camisa do Che Guevara diz: “Bem pessoal, ta na hora de começarmos o sorteio pra ver quem fica com as vagas que ainda restam...” Cada sorteado era agraciado com uma salva de palmas. Fórum Social é o meu rabo...

25/01/2005 – Portas da esperança.

Último dia para caçar isopor: isopor pra carregar geladeira causa volume, mas não quantidade. Infelizmente foi minha única arma. 5 pacotes pretos recheados de isopor de geladeira, com a cara de nosso amado mascote Lepra’s Man estampada em todos os pacotes. Algumas surpresinhas não tão fofas devidamente escondidas nos pacotes também esperavam a oportunidade de se banhar nas águas límpidas do Guaíba. Revolucionários a postos, malas a postos lotando o ônibus e o bagageiro. Enquanto colocamos nosso material dividido nos bagageiros de três ônibus, sou atingido por um dos grandes males que desde a infância me aflige: Isopor-paranóia. Tenho a certeza que alguém roubou um dos meus pacotes e logo começo a acusar amigos e inimigos de ter escondido meu pacote. Esse dilema só seria resolvido no dia seguinte já em PoA quando vi que todos os pacotes estavam nos bagageiros.
Antes de finalmente pegarmos à estrada, mais uma desgraça acontece. Assustado com a possibilidade do motorista não aceitar todos meus pacotes, resolvi colocar um pacote escondido no ônibus vizinho (que levaria nosso membro e colaborador de longa data: Hans Konesky). Ao tentar colocar discretamente o pacotão em um bagageiro do outro lado do ônibus, acabo quebrando a porta e nem sequer consigo fechar o bagageiro direito, mesmo à força. Afasto-me e percebo que toda a bagagem está sendo etiquetada, além de haver espaço para meu pacote, resolvo voltar lá e tirar meu pacote antes que alguém perceba meu erro. Na hora de tirar, sem querer termino de destruir a porta de vez, quase tirando ela do lugar e quebrando as alavancas dos dois lados, histericamente tento fechar a porta e termino a cagada de vez. Como se não tivesse acontecido nada, entrego minha bagagem pro Hans, que acaba absorvendo ódio de mais de 45 pessoas que acompanhariam ele na viagem. A desgraça do motorista sabia que o dono do isopor havia quebrado as portas e acusou Hans impiedosamente na frente de todos, além de atrasar a viagem em mais de uma hora, tendo chiliques afetados, ligando pra central aos gritos e tentando amarrar a porta com cordas pra bagagem não voar no caminho. Enquanto isso, Hans era humilhado e agredido pelos revolucionários de plantão indignados. Já na madrugada, finalmente pegamos a estrada com isopor e retardados a bordo.

26/01/2005 – Sarau de humilhação.

Dormir em chão duro com trinta hippies batendo tambor ao lado da barraca não é que se pode chamar exatamente de ideal de conforto, por isso, a noite de viagem até o fórum seria o momento perfeito para o último descanso. Decidimos exercitar nossos dotes poéticos antes de dormir e rapidamente organizamos um sarau entre os presentes. Começamos humilhando Nietzsche Star que parecia o mais apto para o escarnecimento naquele momento, depois humilhamos em conjunto nosso grande colaborador Sandoval de Abreu das Luzes, passando por mim, fazendo pequenas alternâncias para quem aparecesse na frente e finalmente voltando pro Nietzsche. Por volta das sete da manhã, Star perde o senso de bom gosto poético e distribui bordoada em todo mundo. Começamos a dormir e quinze minutos depois somos acordados com Mamonas Assassinas a todo volume pelo motorista. O sol brilha, os pássaros cantam e nosso bom humor estava apodrecendo no espaço. Malditos passarinhos nojentos, vomitando seus barulhinhos repugnantes aos sete mares como se alguém quisesse ouvir seus horrendos ruídos seguidos de fornicação. É nojento... Um vento fresco aliado a um forte sabor de suor e incenso percorre toda Porto Alegre e neste momento no deparamos com o início de uma dura peregrinação(que inocentemente, achei que seria a única): encontrar local para alojar o precioso isopor.

Isopor ao sol

Enquanto um exército de trouxas se dirigia ao guichê do Fórum com a intenção de pagar 12 reais para acampar em uma área simplesmente impossível de ser controlada, pensávamos na melhor forma de transportar o isopor e na possibilidade de uma vaga com sombra. Após momentos de angústia e espera por Hans Konesky, que ainda permanecia no inferno, resolvemos nós mesmos ambientalizar nosso próprio inferno carregando 4 pacotes ao sol escaldante das 11 da manhã do verão de Porto Alegre.
Quem sofreu ao meu lado desta vez foi Sandoval de Abreu das Luzes que arduamente carregou o fardo entre barracas, hippies, fezes humanas e ambulantes, chegando a sofrer acusações junto comigo de sermos ativistas ambientais (os pacotes de isopor eram pretos, o que fez os passantes confundir o conteúdo com lixo). “Porra, mas o pessoal esse ano tá engajado hein???” Diziam os passantes...
Com ajuda de um mendigo, montamos a barraca em um local péssimo, simplesmente porque não agüentávamos mais carregar os pacotes. Três horas depois, após encontrarmos Hans Konesky, estávamos carregando nosso material para outro endereço, desta vez, com a tão sonhada sombra, próximo à tenda do Hip Hop. Mesmo depois de descobrir que todos os pacotes estavam no ônibus e não haviam sido roubados, eu continuava com isopor-paranóia e tinha a certeza de que seriam roubados a qualquer momento. Vendo meu desespero e ao mesmo tempo analisando o estado decrépito de sua barraca, Sandoval resolve doar sua barraca para hospedagem do isopor e passa a morar em minha barraca. Posso dizer com toda certeza do mundo de que a barraca do isopor era a barraca mais mal montada que já vi em toda a minha vida. Neste momento de união também descobrimos que nossos vizinhos eram chave de cadeia, das mais brutais e rapidamente fazemos um trato com eles pra evitar assaltos em nossas barracas.

27/01/2005 – Pseudo-Capitalismo vs Pseudo-Socialismo na terra dos
Pseudo-Preocupados.

Desde o momento em que pisamos em terra firme, todo tipo de imagem tórrida nos rodeava: pessoas correndo peladas, cagando e fornicando ao ar livre, rodas de hippies trocando socos, garrafadas e tocando violão, grupos revolucionários fazendo protesto por um mundo melhor e ameaçando agredir quem não fosse do grupo deles, vegetarianos ambientalistas comprando comida vegetariana e derrubando pequenas mudas de arvore pra montar suas barracas e todo tipo de imagem que realmente provam a veracidade de se fazer um evento como esse. Se existia um lugar no mundo onde boa intenção era o sentimento predominante, este lugar com certeza era Porto Alegre.
No momento de encontrar os organizadores de nosso show, para finalmente conhecer onde seria o local de nossa apresentação, descubro o óbvio: com mais de um mês para organizar e agilizar todos os detalhes referentes às apresentações, nem uma palha havia sido movida por parte dos organizadores. Começo a ficar preocupado e a lembrar dos milhares de histórias envolvendo bandas que viajaram centenas de quilômetros pra se meter em roubada. Mas, mantive a minha calma transcendental e em menos de dois dias antes do show é que começavam os preparativos para o show, comigo fazendo pressão em cima, é obvio.... Em menos de três horas já estavam afixados cartazes por todos os cantos obscuros do acampamento e região. Já a jornada de encontrar local para a apresentação (que teria sido muito mais fácil se posta em prática um mês antes, como combinado), durou mais de dois dias de procura incessante.
Uma vez instalados e sem certeza de realmente fazermos nosso show, era hora de nos preocuparmos com as necessidades básicas do ser humano: Beber, cagar e comer. Para a obtenção de comida, a única opção viável era consumir nos pontos de venda capitalistas localizados longe do Fórum, já que as barracas socialistas vendiam qualquer coisa pelo dobro do preço. Exemplo: enquanto que no supermercado do Shopping a lata de Antártica custava 0,98 centavos, em qualquer lugar do Fórum SOCIAL a mesma lata custava de dois a três reais. Ao menos os banheiros eram realmente socialistas, com a merda sociabilizando em todas as partes das cabines: paredes, chão e transbordando da privada. Tais circunstâncias nos obrigaram a manter a rotina diária de peregrinação ao shopping, para abastecimento de cerveja e cagalhão diário. O principal problema era manter a concentração se o chamado retal atingisse o corpo no momento errado.


28/01/2005 – Cagada Social Mundial.

Durante dois dias fui até o shopping e nada abandonava meu corpo, a chamada prisão de ventre por distância de casa, até que por volta das duas da manhã entre o dia 27 e 28, sofri o golpe: forças de poder incalculável forçavam a saída, o que me obrigou a manter a maior jornada de mantra e indução mental que já fui capaz de manter em toda minha vida. Se você acha que segurar um orgasmo por dez minutos é grande coisa, experimente segurar seu cocô por 8 horas. Bravamente segurei o marinheiro até dez da manhã do dia seguinte, quando desesperadamente conseguimos chegar ao shopping, onde consegui me libertar da opressão de meu sistema intestinal, cagando por meu mundo melhor.
Logo após, continuamos em nossa jornada para conseguir um local para a realização do show: tentamos na tenda do movimento gay, nos diversos palcos espalhados em volta do acampamento com horrorosas bandas cover e principalmente tentamos encontrar o palco-lenda que se dizia que era só chegar e tocar (novamente é sempre bom lembrar que seria tudo muito mais fácil se organizadores tivessem feito essa correria um mês antes, como combinado). Finalmente enxergamos o local perfeito: uma área vazia, várias tomadas, com teto e localizada exatamente na área central do acampamento. Bem no meio da área onde estavam os movimentos sociais, o campo de batalha hippie, os anarco-pankis, ambientalistas universitários e todo o público alvo de Os Legais, esperando ansiosamente pelo apocalipse.
Nesse momento, descubro que os organizadores não tinham aparelhagem também (última vez que me vejo obrigado a lembrar a diferença entre 30 horas e trinta dias para se organizar alguma coisa e não meter quem vem de longe na roubada). Essa tragédia me obrigou a ir até São Leopoldo, cidade nos arredores de PoA, para implorar por aparelhagem. Nesse meio tempo, ainda pude presenciar algumas palestras falando sobre como salvar o mundo e uma particularmente interessante, ensinando as melhores formas de se roubar comida do supermercado.
Outra agradável surpresa foi encontrar o retardado Christian Verardi, que é diretor do clássico do horror nacional “Soul Crusher: O Homem Coisa 2”. Além de ser ótimo cartão postal da beleza masculina de Porto Alegre, Verardi é minha ponte para finalmente assistir Rio Babilônia, filme que sei de cor, mas nunca vi. E finalmente poder assistir o documentário “Petter Baiestorf: filmes de sangueira e mulher pelada”, dirigido por Christian Caselli (que entre outras diversas façanhas, é diretor de vários clips do Zumbi do Mato). Assistir esse filme acabou sendo um dos melhores momentos da viagem, com uma amostra breve de como são feitos os filmes e qual a trajetória de Petter Baiestorf, grande colaborador de Os Legais (nosso tocador de bongô oficial) e sempre incansável na tarefa de produzir filmes com o coração. O curta vem causando reações fortes nas platéias, que amam ou odeiam todo o repertório de demência destilados nas imagens de produções da Canibal e entrevistas espalhadas durante o filme, especialmente os momentos dedicados ao Glauber Rocha que andam provocando homorroídas e pesadelos nos cineastas intelectuais de plantão....
Enfim, estamos em São Leopoldo: cidade de patos e universitários, na triste missão de conseguir aparelhagem para um show que eu já não acreditava mais acontecer. Com o passar da tarde é que percebo qual o verdadeiro entrave para a realização do espetáculo: o organizador e imbatível (por trás das teclas) Daniel Macedusss estava com MEDO de fazer o show. Durante toda a tarde tive que me esforçar em um patético jogo psicológico para convencê-lo de que ele não iria morrer e que daria tudo certo: “Ah, mas e se chover amanhã??? Daí não vai dar pra fazer o show...” Dizia ele, debaixo de uma das maiores secas que a região de Porto Alegre já enfrentou, semanas e semanas sem chover. Depois de ficar anos plantando provocações por trás das teclas do CMI, enfrentar a platéia de frente pareceu demais para o jovem, que preferiu se esconder debaixo da cama ao invés de cumprir o anunciado nos cartazes. Meu isopor não deve, e nem merece, ficar escondido.
Último tiro: depois de muita insistência, incerteza e choradeira, nos encontramos com o rapaz responsável por emprestar a aparelhagem (que apesar de ter eu sido avisado um mês antes que ele emprestaria a aparelhagem, parece que ele só ficou sabendo na hora), que após horas e horas descrevendo façanhas e peripécias do mundo roqueiro, nos tranqüilizou dizendo “nada vai nos impedir de fazer esse show amanhã, nem que a bateria seja composta de tambores”.... Promessas reafirmadas, consigo dormir levemente perturbado com a certeza de que o dia seguinte seria longo e provavelmente irritante.

29/01/2005 – Peregrinação rumo ao centro.

Rumo ao centro do acampamento???? É obvio que não... Logo de manhã cedo, após uma conturbada noite de sono em São Leopoldo, pego o rumo da estrada com a intenção de me encontrar com Alejandro Gutierrez, membro veterano de Os Legais e uma das peças chave da Bulhorgia Produções. Gutierrez é um dos membros mais apaixonados por palco e estava na cidade especialmente para tocar. Já com a certeza de que os organizadores iriam passar o dia escondidos debaixo da coberta e que dependendo deles não iria rolar porra nenhuma de show, resolvo marcar um café da manhã com Alejandro e discutir uma forma de fazer o show por nós mesmos.
Ao chegar ao quarteirão da casa da vó dele, poucos metros do orelhão, um forte e inexplicável impulso ataca meu corpo e antes que eu pudesse fazer qualquer mantra ou corrente mental, a tragédia estava consumada. Em questão de menos de trinta segundos minha cueca se tornou o inferno na terra...
Liguei pro Ale e ele me manda subir, entro na casa e a vó dele me abraça cagado, simplesmente não consigo disfarçar a sensação de desconforto e desespero. Ela pergunta se eu quero sentar, educadamente respondo que não e pergunto se posso ir ao banheiro. Dentro do banheiro a situação ficou feia, primeiro termino de liberar tudo q ainda estava pra sair já calculando como eu faria pra me livrar da cueca: a janela ao lado da privada parece ser o ideal. No momento de tirar a calça para cuidadosamente me livrar da cueca, uma avalanche de moedas abandona meu bolso, se espalhando pelo banheiro inteiro. “Já fazem mais de dez minutos que estou aqui dentro”, pensei, “ela deve achar que estou roubando algo”. Na hora que tiro a cueca vejo que tem meu nome escrito nela! Desgraça, minha mãe vive fazendo isso! Não dá pra jogar pela janela! Impossível de limpar minha bunda de maneira decente, o chuveiro olha pra mim de maneira tentadora, mas mal conheço a vó dele, não posso fazer isso... Enrolo a cueca em papel higiênico e enfio no fundo do lixeiro, rapidamente junto todas as moedas e saio do banheiro com o pior sorriso amarelo que já dei em minha vida. Logo começamos a comer frutas e a decidir o que seria feito para conseguirmos tocar, a vó dele sempre muito educada e prestativa me faz companhia enquanto Gutierrez se prepara pra sair. Por mais que eu tentasse evitar, a sensação de cagado não me abandonou até o dia seguinte. Depressão aguda, crescendo do meu rabo até o centro do meu cérebro.

29/01/2005 - Peregrinação rumo ao centro parte II.

Esqueça o centro do acampamento. Era o momento de nos encontrarmos com Marcius e nosso advogado Frederich München, que estava no Fórum trabalhando de empresário para a banda de anarco-trash Estoque, de Curitiba. Depois de confraternizações e almoço, já é chegado o momento de ligar aos organizadores para receber a resposta óbvia: não haveria show no centro do acampamento, como indicavam os cartazes. Sou convidado a ir até lá para ouvir uma centena de desculpas esfarrapadas e prometo estar lá em quinze minutos: tempo suficiente para pegar o isopor e os outros membros de Os Legais e ir rumo ao centro de Porto Alegre. O acampamento pode lamber minha cueca matinal.
Sol infernal e isopor nas costas, nada mais lindo do que isso. O que inicialmente deveria ser apenas uma jornada de peregrinação para sessão de fotos, acabou sendo a salvação da viagem. Na verdade, mais uma vez, Frederich München foi a salvação da viagem. Além de meu assessor jurídico e colaborador de LONGA data, Frederich é praticamente o responsável por grande parte de minha formação moral e filosófica, sendo a criatura abençoada que me mostrou o clássico supremo “The Toxic Avenger”, quando eu tinha apenas 9 anos de idade. Aquele momento marcou o início de uma nova vida para mim e tudo que eu precisava saber sobre meu futuro e missão no planeta Terra, estavam ali. O dia estava especialmente quente e insuportável, o ar era poeira pura e tinha gente pra todo lado pra ficar desviando. Os ânimos do grupo estavam cada vez mais baixos quando em questão de duas ligações Frederich consegue um caminhão e um palco para Os Legais.

29/01/2005 – Pânico no Compay Segundo.

Conversando com a organização do palco onde tocaria o Estoque, Frederich consegue uma brecha na passagem de som. Com atrações de todas as partes do mundo, Os Legais seria o escolhido para regular a aparelhagem. Maravilha! O trânsito de entrada e saída no Fórum era incessante, tornando fácil conseguir transporte ao menos para metade do caminho. Colocando o isopor na parte traseira de um caminhão de verduras e comigo na frente, em cerca de 45 minutos estávamos em frente ao palco semi-nus nos preparando pro show. Infelizmente, todo o público que aguardava fervorosamente pelo show em PoA não estava lá e sim zanzando pelo acampamento procurando nosso show, o que significava que tocaríamos para uma platéia totalmente desconhecida e sem noção da importância do isopor para o ecossistema mental e psicológico do ser humano. Muitos turistas tirando fotos e uma platéia desconfiada se aproximando aos poucos da praça da prefeitura, algumas bandeiras do PSTU, verdureiros, anarco punks, donas de casa e hippies começavam a colorir o ambiente.
Um trecho de sinfonia do Penderecki misturado ao som de marchas militares é colocado a todo volume e um número cada vez maior de gente começa a se aproximar do palco. Entramos em cena e colocamos os pacotes na beira do palco, ao mesmo tempo em que ligamos a aparelhagem e conectamos os cabos. Cada um que liga seu instrumento automaticamente passa a acompanhar o Penderecki, a curiosidade dos passantes aumenta cada vez mais e começamos a tocar. Aos primeiros segundos do sucesso “Leão morto” e a parte da frente do palco já está absolutamente lotada. Frederich vai tirando algumas fotos, mas a situação já começa a ficar complicada. Enquanto isso os técnicos de som vão regulando a aparelhagem, o som da guitarra some, a bateria fica uma merda, de repente tudo melhora, piora de novo.
Começa a segunda música: “Ideologia” e Gutierrez atira o primeiro pacote: é impressionante como as pessoas entendem rapidamente pra que servem os pacotes e logo a praça fica infestada de imundície, entra “Eu Caí da Ponte” e logo temos uma legião de mendigos chutando isopor pra tudo que é lado. Logo a confusão atinge aqueles que não gostam de neve e pela primeira vez desde que ouvi falar do Fórum Mundial consigo enxergar claramente que um novo mundo é possível...
Deve ter sido a primeira vez que os movimentos sociais, ambientais, grupos anarco punks, hippies, vegetarianos verdureiros, sambistas e ativistas revolucionários das mais variadas vertentes se uniram todos juntos em prol de único ideal: acabar com o show dos legais e espancar os mendigos que estavam chutando o isopor! Tarefa que a organização prontamente colaborou transformando a frente do palco num campo de batalha, distribuindo chutes e tapas em todo mundo que gostava de isopor. A agressão sobrou até pro München que teve sua câmera arrancada por um brutamonte da organização. Mal tivemos tempo de começar “A Fim de Voltar” do Tim Maia, quando fomos expulsos do palco aos empurrões, com um segurança filho da puta quase arrancando meu braço fora e desligando a aparelhagem. Estávamos dando o fora quando a polícia montada chega pra animar a festa em um Grand finalle que dificilmente irei esquecer. Já tinha visto diversas demonstrações de ignorância, no próprio Fórum e na minha vida no geral por parte da polícia, mas o que eu vi em frente ao palco com certeza superou todos os limites de grosseria. O lado bom foi que sobrou pra todo mundo que estava por ali, e não apenas para os mendigos.
Apenas um pacote foi usado, saímos do palco, catamos nossas coisas, o isopor restante e demos o fora. A polícia viu e não fez nada, o que me faz crer que o que fez eles intervirem não foi a sujeira e sim o tumulto causado por aqueles que não gostaram do isopor. A fita da filmagem ficou com os babacas da organização que a essa hora devem estar se masturbando com ela no meio do rabo hipócrita social mundial deles. E a TVE não transmitiu porra nenhuma. Desgraça.
Depois fiquei sabendo que Frederich conseguiu se livrar de qualquer problema pro lado dele (diplomacia e diálogo firme fazem milagres), conseguindo a câmera fotográfica de volta sem problemas e realizando a apresentação do Estoque sem problemas também. Quanto a nós, não sabíamos ainda o que pensar enquanto carregávamos os incômodos pacotes de volta ao acampamento, todo esse esforço pra poder usar apenas um pacote não me pareceu o suficiente, além do fato de termos perdido a fita e quase minha câmera junto. Odeio quando não consigo filmar os shows. Durante a confusão acabamos fazendo um amigo: Maikon, um mendigo de Candelária/RS (cidade maravilhosa que já tive o prazer de conhecer) que nos ajudou a carregar o isopor sem pedir nada em troca. Carregar na volta foi mais difícil do que na ida já que não conseguimos carona e nosso corpo se esvaía em decadência. Tudo tranqüilo na caminho do acampamento, até paramos pra ver um show do Replicantes no caminho, enquanto o Maikon cuidava do isopor lá fora.

30/01/2005 – Epílogo de vingança.

Domingo. Porcaria de depressão. Este seria o dia mais místico e espiritual de toda a viagem, meu momento de peregrinação solitária rumo ao deserto de sofrimento de São Leopoldo. Uma jornada de vingança necessitava ser realizada. Uma jornada árdua e solitária. Abandonado pelos outros membros de Os Legais, era minha sagrada missão carregar 4 pacotes de isopor até São Leopoldo: não vou repetir aqui o quanto é importante organizar um show com bandas de fora com um mínimo de responsabilidade e consideração. Não fomos os primeiros a se meter em roubada e não seremos os últimos, você com certeza já viu algum texto de alguma banda reclamando de uma roubada com irresponsáveis e picaretas na puta que pariu. Pois bem, este é mais um exemplar do típico texto de roubada seguida de vingança. Charles Bronson não morreu em vão.
Antes de colocar os pacotes nas costas, vejo que a barraca de Sandoval foi roubada: INTEIRA! O isopor jogado pra fora antes... Fico sabendo também, que mais de trinta punks foram presos com material explosivo e que houve dezenas de casos de estupro: ninguém me estuprou e os punks que estavam no show pelo visto não tinham bombas, ao menos isso. Esse raciocínio me fez iniciar minha viagem mais facilmente e é claro que a ajuda de Daniel Villa Verde (Scream Noise, Ornitorrincos, Facão Três Listras e poderoso agitador cultural) e Gustavo Insekto (escritor, desenhista, músico ao lado do Villa e diretor do documentário “Isopor experimental vindo do espaço” que trata de um mítico fim de semana em Santo Antonio da Patrulha, que entre outras coisas aportou Os Legais pela primeira vez no Rio Grande do Sul) para carregar os pacotes até o metrô, foi de extremo valor também. No metrô, a caminho de São Leopoldo refleti sobre minha infância, o futuro da humanidade e como seria mais fácil carregar isopor se eu fosse milionário. Isso voltaria a minha cabeça várias enquanto eu arrastava os enormes pacotes cidade adentro por São Leopoldo, eu precisava concentrar minhas forças e me transformar em apenas um, eu e os pacotes: de preferência com rodinhas também.
Não aconteceu...
Não era nem metade do caminho, quando me debruço transbordando lágrimas em cima deles e grito: “Não vou conseguir!!! Inferno!!! Maldito isopor!!!” No momento exato de meu choramingar desesperado, um conjunto de vozes extremamente desafinadas invade o ar cantando: “Tudo na vida é possíveeeel” “Nada no mundo é impossíveeeeel”. Percebo que estou na frente de uma igreja evangélica, ainda passaria por mais duas até chegar a meu destino. Domingo, fim de tarde, momento das igrejas distribuírem música desafinada e horrível aos quatro ventos, ultrapassando montanhas, assim como meu isopor da vingança. Era o incentivo que eu precisava, decidi continuar e largar um dos pacotes no caminho: minha ligação com eles neste momento já era mais do que paternal e largar um deles no meio do caminho sem ter sido usado pra propósito nenhum era demais pro meu coração, foi um momento de muita dor...
Escolho o maior deles e atiro no primeiro jardim que encontro, toda cruzada possui suas vítimas inocentes, não posso evitar, é em nome de um bem maior. Na verdade, me arrependi um pouco segundos depois, já que tive que correr uns dois quarteirões com os 3 pacotes restantes.

Quando já estava no quarteirão da casa do organizador, resolvo sentar um pouco pra refletir. Nesse momento, duas crianças param na minha frente e começam a fazer perguntas. “Quem é você?” “Pra quê esses pacotes?” “O que tem dentro?” “Tu já andou de bicicleta?” Uma pergunta atrás da outra. É impressionante como as crianças são tranqüilas em relação à vida, eu poderia ser um demente criminoso totalmente louco e lá estavam elas querendo fazer amizade. O problema é que meu estado emocional não estava dos melhores e eu realmente não queria fazer amigos naquele momento, várias famílias cantavam hinos religiosos e lavando seus jardins em volta de nós, o que também ajudou a me tornar apreensivo.
Minha missão era mais importante, resolvi fugir no momento em que o casal de irmãos foi em casa buscar algo pra me mostrar. Já senti todo tipo de sensação angustiante na minha vida: saudade, dor, arrependimento, amor, fome, humilhação, mas nada se comparava a sensação de correr ao sol do fim de tarde com aquele isopor para me afastar das crianças. Achei que ia morrer. Mas também compreendi a maior lição que o isopor pode ensinar a uma pessoa na vida.
O isopor nos ensina que tudo na vida é possível. O valor da persistência e do triunfo da vontade. Se com meus braços caquéticos consigo carregar estes pacotes de sabedoria para qualquer lugar do país (e quando digo qualquer, é qualquer mesmo, do Bangu no RJ a subúrbio de Campinas/SP, de Pirabeiraba em SC à Santo Antônio da Patrulha no RG), qualquer pessoa consegue qualquer coisa. Quem não desiste, consegue o mundo.
Já se completam anos e mais anos em que somos criticados por grupos de invejosos sem talento, por não seguirmos a ridícula supremacia das sete notas. Dizem que Os Legais não é uma banda de verdade porque não segue a tabuada das patéticas sete notas. Dizem que não somos músicos: músicos não o são vocês, invejosos, que precisam de aula para tocar seu instrumento. Nós não precisamos de nada, eu sou meu próprio instrumento. Os Legais é a verdade, a luz e a vida. Limitados são os seus dedos, porque meus dedos não têm limites. Acordes e outras convenções patéticas não vão me fazer parar. E a inveja de perdedores, invejosos e moralistas é combustível para minha sede. Convido aqueles que pensam que é fácil tocar em Os Legais a passar 30 minutos ao meu lado carregando guitarras e pacotes de isopor debaixo de sol escaldante. Ensaiar a mesma música sempre, e sempre tocar ela de maneira igual é ridículo de fácil. Não somos cover de nós mesmos, toda vez que tocamos uma música, recriamos e melhoramos sua qualidade e vivacidade. Cada ruído e gotículas de isopor espalhados e criados por nós tem ligação direta com os anais da eternidade...
O primeiro pacote voou bem no meio do jardim. O segundo prendeu no portão e tive que dar uns pulos e socos pra fazê-lo ultrapassar. A cada segundo a quantidade de cachorros latindo era maior. O terceiro pacote voou e bateu no telhado, acertando em cheio uma moita logo abaixo. Na volta, sozinho, triste e perdido em Porto Alegre, resolvo me juntar aos Hare-krishna: me tornei membro devoto por mais de uma hora, correndo, batendo tambor e cantando. Até o momento que senti vontade de tomar uma cerveja.

Só o isopor constrói...

Fim.

...Gurcius Gewdner...
Fotos de Frederick München.