
Todo tipo de boatos e falácias
tem sido publicadas pela internet acerca da tão esperada
apresentação de os legais no Fórum Social
Mundial. Uma grande parte do público afirma que o show
nunca aconteceu, outros dizem ter visto a banda no palco duas
vezes, muitos falam sobre a apresentação no centro
do acampamento ao lado das outras bandas que organizaram o show...
Mas o que realmente aconteceu????
Os legais realmente fizeram sua parte por um mundo melhor??
Baseado e impulsionado pelos absurdos, ofensas e mentiras espalhados
por todos os cantos do país acerca do show, resolvi publicar
este diário descritivo sobre a jornada de os legais na
capital da Hipocrisia Social Mundial. Para esclarecer e iluminar
a existência daqueles que nem podem contar sua versão,
porque simplesmente não estavam lá...
Dezembro de 2004 –
Prólogo de esperança.
Para iniciar este drama é necessário
voltarmos aos últimos momentos do ano de 2004, onde depois
de uma bem sucedida apresentação em tributo ao Um
ano sem dez anos sem GG Allin ao lado de Muzzarelas e Evil idols
e uma turnê pelo interior do Rio Grande do Sul, tudo que
Gurcius Gewdner e Os Legais queriam era paz e meditação
para continuar e concluir o ano de forma saudável, quando
surge a proposta de uma apresentação comemorativa
na área central do maior encontro de pessoas socialmente
preocupadas da face da terra.
Nunca hesitantes em nossa missão suprema de domínio
mundial, prontamente aceitamos o convite dos organizadores. A
proposta era a seguinte: montar a aparelhagem na área central
do acampamento e colocar a banda do organizador, se necessário
mais uma banda que cedesse aparelhagem e Os Legais para encerrar
espalhando isopor e boa música por um mundo melhor na cara
de todos os revolucionários revoltos. Trato feito e duas
semanas antes da virada do ano os cartazes estavam prontos e se
espalhando como praga por todos os cantos do país.
Primórdios de Janeiro
– Crise no sistema de isopor.
Com os detalhes acerca da data e aparelhagem teoricamente
certos, comecei os preparativos para nossa apresentação
em si: precisava ter a certeza de fazer um set-list especialmente
moldado para o público do fórum, que eu tinha a
certeza de que seria perfeito com nosso mais novo sucesso “Ideologia”,
como carro chefe.
Devido as retaliações de grupos revolucionários
adolescentes sem ter o que fazer, ocasionadas pelo processo de
filmagem de meu filme “Mamilos em chamas” (que inclusive
verá a luz do dia em 2005, o que significa que talvez eu
tenha que me mudar de novo) me vi obrigado a me mudar de Joinville
para encontrar paz novamente.
Joinville é o pólo mundial do isopor. Triste descoberta
que só tive o desprazer de descobrir na pele. Ao longo
dos anos carreguei e espalhei isopor por todo e qualquer buraco
onde fossemos ou não chamados e sempre me diziam: “vocês
são retardados, porque ao invés de carregar pilhas
e pilhas de isopor de Jlle até aqui vocês não
catam na cidade do show????” pela primeira vez resolvi seguir
este conselho e catar isopor em Florianópolis mesmo, e
talvez até conseguir um pouco em Porto Alegre por conta
dos organizadores. Momentos de dor e desespero se seguiram, quando
descobri o verdadeiro sabor da verdade: Florianópolis
não tem isopor, Joinville é o paraíso. Não
haveria jeito de nascermos em qualquer outra cidade que não
fosse Joinville, terra abençoada do sagrado isopor. Descobri
isto tarde demais e me vi obrigado a procurar isopor na rua. Como
satisfazer 160 mil hippies com a quantidade exata de isopor para
todos? E o pior ainda, como satisfazer meu ego inflamado com a
quantidade certa de isopor catando eles na rua?????
Este é um dos motivos pela qual nunca confiei em organizadores
de show para conseguirem meu tão amado material, preciso
de isopor suficiente para o tamanho do meu ego, quantidades enormes
e infindáveis de isopor pulsante. O que é suficiente
para eles é apenas o início para mim, o apocalipse
não se constrói apenas com fogo, é preciso
determinação e sede de sangue. É preciso
abrir a carne para o sacrifício supremo. Durante dias e
dias catei tudo que podia encontrar para espalhar em Porto Alegre,
na certeza de um mundo melhor. Tentei negociar com fabricantes
de isopor e tudo que posso dizer é que apodrecer no inferno
queimando em isopor derretido é pouco pra eles, nenhum
teve coração para me ceder um pouco de seu valioso
e intocável estoque. Uma coisa que pude perceber é
que a febre por isopor atende todas as faixas etárias,
classes e localidades do planeta com uma onda cada vez mais crescente,
quase beirando a obsessão em torno do amor por isopor.
Minha salvação foram os depósitos de lojas,
onde pude conseguir quantidades modestas. A essa altura eu já
sofria de breves ondas de depressão ultrapassando meu corpo,
o que só foi piorando ao sentir certa má fé
por parte dos organizadores em Poá: ao perguntar sobre
como andavam as coisas nenhuma resposta certa e satisfatória
me era dada, eu apenas ouvia que estava tudo certo. Ok.
24/01/2005 – Fórum
Individual Mundial
O Fórum também é conhecido
por ser um dos grandes pontos de encontro de universitários
com desejo de salvar o mundo e foi justamente em uma reunião
de universitários comunistas preocupados com o mundo e
para conseguir ônibus de graça, que senti todo o
espírito de solidariedade que me acompanharia durante toda
a semana. Muita discussão e desespero na sala de reuniões
para conseguir lugar nos ônibus grátis, até
que um jovem (provavelmente desinformado sobre o que é
solidariedade para os ativistas do fórum) propõe
cada um dar 15 reais (ida e volta para Porto Alegre, barbada!!!)
para o aluguel de um novo ônibus e desta forma possibilitar
a ida de todos. Silencio mortal. Ninguém se mexe, até
que um barbudo com camisa do Che Guevara diz: “Bem pessoal,
ta na hora de começarmos o sorteio pra ver quem fica com
as vagas que ainda restam...” Cada sorteado era agraciado
com uma salva de palmas. Fórum Social é
o meu rabo...

25/01/2005 – Portas
da esperança.
Último dia para caçar isopor: isopor
pra carregar geladeira causa volume, mas não quantidade.
Infelizmente foi minha única arma. 5 pacotes pretos recheados
de isopor de geladeira, com a cara de nosso amado mascote Lepra’s
Man estampada em todos os pacotes. Algumas surpresinhas não
tão fofas devidamente escondidas nos pacotes também
esperavam a oportunidade de se banhar nas águas límpidas
do Guaíba. Revolucionários a postos, malas a postos
lotando o ônibus e o bagageiro. Enquanto colocamos nosso
material dividido nos bagageiros de três ônibus, sou
atingido por um dos grandes males que desde a infância me
aflige: Isopor-paranóia. Tenho a certeza
que alguém roubou um dos meus pacotes e logo começo
a acusar amigos e inimigos de ter escondido meu pacote. Esse dilema
só seria resolvido no dia seguinte já em PoA quando
vi que todos os pacotes estavam nos bagageiros.
Antes de finalmente pegarmos à estrada, mais uma desgraça
acontece. Assustado com a possibilidade do motorista não
aceitar todos meus pacotes, resolvi colocar um pacote escondido
no ônibus vizinho (que levaria nosso membro e colaborador
de longa data: Hans Konesky). Ao tentar colocar discretamente
o pacotão em um bagageiro do outro lado do ônibus,
acabo quebrando a porta e nem sequer consigo fechar o bagageiro
direito, mesmo à força. Afasto-me e percebo que
toda a bagagem está sendo etiquetada, além de haver
espaço para meu pacote, resolvo voltar lá e tirar
meu pacote antes que alguém perceba meu erro. Na hora de
tirar, sem querer termino de destruir a porta de vez, quase tirando
ela do lugar e quebrando as alavancas dos dois lados, histericamente
tento fechar a porta e termino a cagada de vez. Como se não
tivesse acontecido nada, entrego minha bagagem pro Hans, que acaba
absorvendo ódio de mais de 45 pessoas que acompanhariam
ele na viagem. A desgraça do motorista sabia que o dono
do isopor havia quebrado as portas e acusou Hans impiedosamente
na frente de todos, além de atrasar a viagem em mais de
uma hora, tendo chiliques afetados, ligando pra central aos gritos
e tentando amarrar a porta com cordas pra bagagem não voar
no caminho. Enquanto isso, Hans era humilhado e agredido pelos
revolucionários de plantão indignados. Já
na madrugada, finalmente pegamos a estrada com isopor e retardados
a bordo.
26/01/2005 – Sarau
de humilhação.
Dormir em chão duro com trinta hippies
batendo tambor ao lado da barraca não é que se pode
chamar exatamente de ideal de conforto, por isso, a noite de viagem
até o fórum seria o momento perfeito para o último
descanso. Decidimos exercitar nossos dotes poéticos antes
de dormir e rapidamente organizamos um sarau entre os presentes.
Começamos humilhando Nietzsche Star que parecia o mais
apto para o escarnecimento naquele momento, depois humilhamos
em conjunto nosso grande colaborador Sandoval de Abreu das Luzes,
passando por mim, fazendo pequenas alternâncias para quem
aparecesse na frente e finalmente voltando pro Nietzsche. Por
volta das sete da manhã, Star perde o senso de bom gosto
poético e distribui bordoada em todo mundo. Começamos
a dormir e quinze minutos depois somos acordados com Mamonas Assassinas
a todo volume pelo motorista. O sol brilha, os pássaros
cantam e nosso bom humor estava apodrecendo no espaço.
Malditos passarinhos nojentos, vomitando seus barulhinhos repugnantes
aos sete mares como se alguém quisesse ouvir seus horrendos
ruídos seguidos de fornicação. É nojento...
Um vento fresco aliado a um forte sabor de suor e incenso percorre
toda Porto Alegre e neste momento no deparamos com o início
de uma dura peregrinação(que inocentemente, achei
que seria a única): encontrar local para alojar o precioso
isopor.

Isopor ao sol
Enquanto um exército de trouxas se dirigia
ao guichê do Fórum com a intenção de
pagar 12 reais para acampar em uma área simplesmente impossível
de ser controlada, pensávamos na melhor forma de transportar
o isopor e na possibilidade de uma vaga com sombra. Após
momentos de angústia e espera por Hans Konesky, que ainda
permanecia no inferno, resolvemos nós mesmos ambientalizar
nosso próprio inferno carregando 4 pacotes ao sol escaldante
das 11 da manhã do verão de Porto Alegre.
Quem sofreu ao meu lado desta vez foi Sandoval de Abreu das Luzes
que arduamente carregou o fardo entre barracas, hippies, fezes
humanas e ambulantes, chegando a sofrer acusações
junto comigo de sermos ativistas ambientais (os pacotes de isopor
eram pretos, o que fez os passantes confundir o conteúdo
com lixo). “Porra, mas o pessoal esse ano tá engajado
hein???” Diziam os passantes...
Com ajuda de um mendigo, montamos a barraca em um local péssimo,
simplesmente porque não agüentávamos mais carregar
os pacotes. Três horas depois, após encontrarmos
Hans Konesky, estávamos carregando nosso material para
outro endereço, desta vez, com a tão sonhada sombra,
próximo à tenda do Hip Hop. Mesmo depois de descobrir
que todos os pacotes estavam no ônibus e não haviam
sido roubados, eu continuava com isopor-paranóia e tinha
a certeza de que seriam roubados a qualquer momento. Vendo meu
desespero e ao mesmo tempo analisando o estado decrépito
de sua barraca, Sandoval resolve doar sua barraca para hospedagem
do isopor e passa a morar em minha barraca. Posso dizer com toda
certeza do mundo de que a barraca do isopor era a barraca mais
mal montada que já vi em toda a minha vida. Neste momento
de união também descobrimos que nossos vizinhos
eram chave de cadeia, das mais brutais e rapidamente fazemos um
trato com eles pra evitar assaltos em nossas barracas.
27/01/2005 – Pseudo-Capitalismo
vs Pseudo-Socialismo na terra dos
Pseudo-Preocupados.
Desde o momento em que pisamos em terra firme,
todo tipo de imagem tórrida nos rodeava: pessoas
correndo peladas, cagando e fornicando ao ar livre, rodas
de hippies trocando socos, garrafadas e tocando violão,
grupos revolucionários fazendo protesto por um mundo melhor
e ameaçando agredir quem não fosse do grupo deles,
vegetarianos ambientalistas comprando comida vegetariana e derrubando
pequenas mudas de arvore pra montar suas barracas e todo tipo
de imagem que realmente provam a veracidade de se fazer um evento
como esse. Se existia um lugar no mundo onde boa intenção
era o sentimento predominante, este lugar com certeza era Porto
Alegre.
No momento de encontrar os organizadores de nosso show, para finalmente
conhecer onde seria o local de nossa apresentação,
descubro o óbvio: com mais de um mês para organizar
e agilizar todos os detalhe
s
referentes às apresentações, nem uma palha
havia sido movida por parte dos organizadores. Começo
a ficar preocupado e a lembrar dos milhares de histórias
envolvendo bandas que viajaram centenas de quilômetros pra
se meter em roubada. Mas, mantive a minha calma transcendental
e em menos de dois dias antes do show é que começavam
os preparativos para o show, comigo fazendo pressão em
cima, é obvio.... Em menos de três horas já
estavam afixados cartazes por todos os cantos obscuros do acampamento
e região. Já a jornada de encontrar local para a
apresentação (que teria sido muito mais fácil
se posta em prática um mês antes, como combinado),
durou mais de dois dias de procura incessante.
Uma vez instalados e sem certeza de realmente fazermos nosso show,
era hora de nos preocuparmos com as necessidades básicas
do ser humano: Beber, cagar e comer. Para a obtenção
de comida, a única opção viável era
consumir nos pontos de venda capitalistas localizados longe do
Fórum, já que as barracas socialistas vendiam qualquer
coisa pelo dobro do preço. Exemplo: enquanto que no supermercado
do Shopping a lata de Antártica custava 0,98 centavos,
em qualquer lugar do Fórum SOCIAL a mesma lata custava
de dois a três reais. Ao menos os banheiros eram realmente
socialistas, com a merda sociabilizando em todas as partes das
cabines: paredes, chão e transbordando da privada. Tais
circunstâncias nos obrigaram a manter a rotina diária
de peregrinação ao shopping, para abastecimento
de cerveja e cagalhão diário. O principal problema
era manter a concentração se o chamado retal atingisse
o corpo no momento errado.

28/01/2005 – Cagada Social Mundial.
Durante dois dias fui até o shopping e
nada abandonava meu corpo, a chamada prisão de ventre por
distância de casa, até que por volta das duas da
manhã entre o dia 27 e 28, sofri o golpe: forças
de poder incalculável forçavam a saída, o
que me obrigou a manter a maior jornada de mantra e indução
mental que já fui capaz de manter em toda minha vida. Se
você acha que segurar um orgasmo por dez minutos é
grande coisa, experimente segurar seu cocô por 8 horas.
Bravamente segurei o marinheiro até dez da manhã
do dia seguinte, quando desesperadamente conseguimos chegar ao
shopping, onde consegui me libertar da opressão de meu
sistema intestinal, cagando por meu mundo melhor.
Logo após, continuamos em nossa jornada para conseguir
um local para a realização do show: tentamos na
tenda do movimento gay, nos diversos palcos espalhados em volta
do acampamento com horrorosas bandas cover e principalmente tentamos
encontrar o palco-lenda que se dizia que era só chegar
e tocar (novamente é sempre bom lembrar que seria tudo
muito mais fácil se organizadores tivessem feito essa correria
um mês antes, como combinado). Finalmente enxergamos o local
perfeito: uma área vazia, várias tomadas, com teto
e localizada exatamente na área central do acampamento.
Bem no meio da área onde estavam os movimentos sociais,
o campo de batalha hippie, os anarco-pankis, ambientalistas universitários
e todo o público alvo de Os Legais, esperando ansiosamente
pelo apocalipse.
Nesse momento, descubro que os organizadores não tinham
aparelhagem também (última vez que me vejo obrigado
a lembrar a diferença entre 30 horas e trinta dias para
se organizar alguma coisa e não meter quem vem de longe
na roubada). Essa tragédia me obrigou a ir até São
Leopoldo, cidade nos arredores de PoA, para implorar por aparelhagem.
Nesse meio tempo, ainda pude presenciar algumas palestras falando
sobre como salvar o mundo e uma particularmente interessante,
ensinando as melhores formas de se roubar comida do supermercado.
Outra agradável surpresa foi encontrar o retardado Christian
Verardi, que é diretor do clássico do horror
nacional “Soul Crusher: O Homem Coisa 2”. Além
de ser ótimo cartão postal da beleza masculina de
Porto Alegre, Verardi é minha ponte para finalmente assistir
Rio Babilônia, filme que sei de cor, mas nunca vi. E finalmente
poder assistir o documentário “Petter Baiestorf:
filmes de sangueira e mulher pelada”, dirigido por Christian
Caselli (que entre outras diversas façanhas, é
diretor de vários clips do Zumbi do Mato).
Assistir esse filme acabou sendo um dos melhores momentos da viagem,
com uma amostra breve de como são feitos os filmes e qual
a trajetória de Petter Baiestorf, grande colaborador de
Os Legais (nosso tocador de bongô oficial) e sempre incansável
na tarefa de produzir filmes com o coração. O curta
vem causando reações fortes nas platéias,
que amam ou odeiam todo o repertório de demência
destilados nas imagens de produções da Canibal e
entrevistas espalhadas durante o filme, especialmente os momentos
dedicados ao Glauber Rocha que andam provocando homorroídas
e pesadelos nos cineastas intelectuais de plantão....
Enfim, estamos em São Leopoldo: cidade de patos e universitários,
na triste missão de conseguir aparelhagem para um show
que eu já não acreditava mais acontecer. Com o passar
da tarde é que percebo qual o verdadeiro entrave para a
realização do espetáculo: o organizador e
imbatível (por trás das teclas) Daniel Macedusss
estava com MEDO de fazer o show. Durante toda a tarde tive que
me esforçar em um patético jogo psicológico
para convencê-lo de que ele não iria morrer e que
daria tudo certo: “Ah, mas e se chover amanhã???
Daí não vai dar pra fazer o show...” Dizia
ele, debaixo de uma das maiores secas que a região de Porto
Alegre já enfrentou, semanas e semanas sem chover. Depois
de ficar anos plantando provocações por trás
das teclas do CMI, enfrentar a platéia de frente pareceu
demais para o jovem, que preferiu se esconder debaixo da cama
ao invés de cumprir o anunciado nos cartazes. Meu
isopor não deve, e nem merece, ficar escondido.
Último tiro: depois de muita insistência, incerteza
e choradeira, nos encontramos com o rapaz responsável por
emprestar a aparelhagem (que apesar de ter eu sido avisado um
mês antes que ele emprestaria a aparelhagem, parece que
ele só ficou sabendo na hora), que após horas e
horas descrevendo façanhas e peripécias do mundo
roqueiro, nos tranqüilizou dizendo “nada vai nos impedir
de fazer esse show amanhã, nem que a bateria seja composta
de tambores”.... Promessas reafirmadas, consigo dormir levemente
perturbado com a certeza de que o dia seguinte seria longo e provavelmente
irritante.
29/01/2005 – Peregrinação
rumo ao centro.
Rumo ao centro do acampamento???? É obvio
que não... Logo de manhã cedo, após uma conturbada
noite de sono em São Leopoldo, pego o rumo da estrada com
a intenção de me encontrar com Alejandro
Gutierrez, membro veterano de Os Legais e uma das peças
chave da Bulhorgia Produções. Gutierrez é
um dos membros mais apaixonados por palco e estava na cidade especialmente
para tocar. Já com a certeza de que os organizadores iriam
passar o dia escondidos debaixo da coberta e que dependendo deles
não iria rolar porra nenhuma de show, resolvo marcar um
café da manhã com Alejandro e discutir uma forma
de fazer o show por nós mesmos.
Ao
chegar ao quarteirão da casa da vó dele, poucos
metros do orelhão, um forte e inexplicável impulso
ataca meu corpo e antes que eu pudesse fazer qualquer mantra ou
corrente mental, a tragédia estava consumada. Em questão
de menos de trinta segundos minha cueca se tornou o inferno
na terra...
Liguei pro Ale e ele me manda subir, entro na casa e a vó
dele me abraça cagado, simplesmente não consigo
disfarçar a sensação de desconforto e desespero.
Ela pergunta se eu quero sentar, educadamente respondo que não
e pergunto se posso ir ao banheiro. Dentro do banheiro a situação
ficou feia, primeiro termino de liberar tudo q ainda estava pra
sair já calculando como eu faria pra me livrar da cueca:
a janela ao lado da privada parece ser o ideal. No momento de
tirar a calça para cuidadosamente me livrar da cueca, uma
avalanche de moedas abandona meu bolso, se espalhando pelo banheiro
inteiro. “Já fazem mais de dez minutos que estou
aqui dentro”, pensei, “ela deve achar que estou roubando
algo”. Na hora que tiro a cueca vejo que tem meu nome escrito
nela! Desgraça, minha mãe vive fazendo isso! Não
dá pra jogar pela janela! Impossível de limpar minha
bunda de maneira decente, o chuveiro olha pra mim de maneira tentadora,
mas mal conheço a vó dele, não posso fazer
isso... Enrolo a cueca em papel higiênico e enfio no fundo
do lixeiro, rapidamente junto todas as moedas e saio do banheiro
com o pior sorriso amarelo que já dei em minha vida. Logo
começamos a comer frutas e a decidir o que seria feito
para conseguirmos tocar, a vó dele sempre muito educada
e prestativa me faz companhia enquanto Gutierrez se prepara pra
sair. Por mais que eu tentasse evitar, a sensação
de cagado não me abandonou até o dia seguinte. Depressão
aguda, crescendo do meu rabo até o centro do meu cérebro.
29/01/2005 - Peregrinação
rumo ao centro parte II.
Esqueça o centro do acampamento. Era o
momento de nos encontrarmos com Marcius e nosso
advogado Frederich München, que estava no
Fórum trabalhando de empresário para a banda de
anarco-trash Estoque, de Curitiba. Depois de confraternizações
e almoço, já é chegado o momento de ligar
aos organizadores para receber a resposta óbvia: não
haveria show no centro do acampamento, como indicavam os cartazes.
Sou convidado a ir até lá para ouvir uma centena
de desculpas esfarrapadas e prometo estar lá em quinze
minutos: tempo suficiente para pegar o isopor e os outros membros
de Os Legais e ir rumo ao centro de Porto Alegre. O acampamento
pode lamber minha cueca matinal.
Sol infernal e isopor nas costas, nada mais lindo do que isso.
O que inicialmente deveria ser apenas uma jornada de peregrinação
para sessão de fotos, acabou sendo a salvação
da viagem. Na verdade, mais uma vez, Frederich München foi
a salvação da viagem. Além de meu assessor
jurídico e colaborador de LONGA data, Frederich é
praticamente o responsável por grande parte de minha formação
moral e filosófica, sendo a criatura abençoada que
me mostrou o clássico supremo “The Toxic Avenger”,
quando eu tinha apenas 9 anos de idade. Aquele momento marcou
o início de uma nova vida para mim e tudo que eu precisava
saber sobre meu futuro e missão no planeta Terra, estavam
ali. O dia estava especialmente quente e insuportável,
o ar era poeira pura e tinha gente pra todo lado pra ficar desviando.
Os ânimos do grupo estavam cada vez mais baixos quando em
questão de duas ligações Frederich consegue
um caminhão e um palco para Os Legais.

29/01/2005 – Pânico
no Compay Segundo.
Conversando com a organização do
palco onde tocaria o Estoque, Frederich consegue
uma brecha na passagem de som. Com atrações de todas
as partes do mundo, Os Legais seria o escolhido para regular a
aparelhagem. Maravilha! O trânsito de entrada e saída
no Fórum era incessante, tornando fácil conseguir
transporte ao menos para metade do caminho. Colocando o isopor
na parte traseira de um caminhão de verduras e comigo na
frente, em cerca de 45 minutos estávamos em frente ao palco
semi-nus nos preparando pro show. Infelizmente, todo o público
que aguardava fervorosamente pelo show em PoA não estava
lá e sim zanzando pelo acampamento procurando nosso show,
o que significava que tocaríamos para uma platéia
totalmente desconhecida e sem noção da importância
do isopor para o ecossistema mental e psicológico do ser
humano. Muitos turistas tirando fotos e uma platéia desconfiada
se aproximando aos poucos da praça da prefeitura, algumas
bandeiras do PSTU, verdureiros, anarco punks, donas de casa e
hippies começavam a colorir o ambiente.
Um trecho de sinfonia do Penderecki misturado ao som de marchas
militares é colocado a todo volume e um número cada
vez maior de gente começa a se aproximar do palco. Entramos
em cena e colocamos os pacotes na beira do palco, ao mesmo tempo
em que ligamos a aparelhagem e conectamos os cabos. Cada um que
liga seu instrumento automaticamente passa a acompanhar o Penderecki,
a curiosidade dos passantes aumenta cada vez mais e começamos
a tocar. Aos primeiros segundos do sucesso “Leão
morto” e a parte da frente do palco já está
absolutamente lotada. Frederich vai tirando algumas fotos, mas
a situação já começa a ficar complicada.
Enquanto isso os técnicos de som vão regulando a
aparelhagem, o som da guitarra some, a bateria fica uma merda,
de repente tudo melhora, piora de novo.
Começa a segunda música: “Ideologia”
e Gutierrez atira o primeiro pacote: é impressionante como
as pessoas entendem rapidamente pra que servem os pacotes e logo
a praça fica infestada de imundície, entra “Eu
Caí da Ponte” e logo temos uma legião
de mendigos chutando isopor pra tudo que é lado. Logo a
confusão atinge aqueles que não gostam de neve e
pela primeira vez desde que ouvi falar do Fórum Mundial
consigo enxergar claramente que um novo mundo é possível...
Deve ter sido a primeira vez que os movimentos sociais, ambientais,
grupos anarco punks, hippies, vegetarianos verdureiros, sambistas
e ativistas revolucionários das mais variadas vertentes
se uniram todos juntos em prol de único ideal: acabar com
o show dos legais e espancar os mendigos que estavam chutando
o isopor! Tarefa que a organização prontamente colaborou
transformando a frente do palco num campo de batalha, distribuindo
chutes e tapas em todo mundo que gostava de isopor. A agressão
sobrou até pro München que teve sua câmera arrancada
por um brutamonte da organização. Mal tivemos tempo
de começar “A Fim de Voltar” do Tim
Maia, quando fomos expulsos do palco aos empurrões,
com um segurança filho da puta quase arrancando meu braço
fora e desligando a aparelhagem. Estávamos dando o fora
quando a polícia montada chega pra animar a festa em um
Grand finalle que dificilmente irei esquecer.
Já
tinha visto diversas demonstrações de ignorância,
no próprio Fórum e na minha vida no geral por parte
da polícia, mas o que eu vi em frente ao palco com certeza
superou todos os limites de grosseria. O lado bom foi que sobrou
pra todo mundo que estava por ali, e não apenas para os
mendigos.
Apenas um pacote foi usado, saímos do palco, catamos nossas
coisas, o isopor restante e demos o fora. A polícia viu
e não fez nada, o que me faz crer que o que fez eles intervirem
não foi a sujeira e sim o tumulto causado por aqueles que
não gostaram do isopor. A fita da filmagem ficou com os
babacas da organização que a essa hora devem estar
se masturbando com ela no meio do rabo hipócrita social
mundial deles. E a TVE não transmitiu porra nenhuma. Desgraça.
Depois fiquei sabendo que Frederich conseguiu se livrar de qualquer
problema pro lado dele (diplomacia e diálogo firme fazem
milagres), conseguindo a câmera fotográfica de volta
sem problemas e realizando a apresentação do Estoque
sem problemas também. Quanto a nós, não sabíamos
ainda o que pensar enquanto carregávamos os incômodos
pacotes de volta ao acampamento, todo esse esforço
pra poder usar apenas um pacote não me pareceu o suficiente,
além do fato de termos perdido a fita e quase minha câmera
junto. Odeio quando não consigo filmar os shows. Durante
a confusão acabamos fazendo um amigo: Maikon, um mendigo
de Candelária/RS (cidade maravilhosa que
já tive o prazer de conhecer) que nos ajudou a carregar
o isopor sem pedir nada em troca. Carregar na volta foi mais difícil
do que na ida já que não conseguimos carona e nosso
corpo se esvaía em decadência. Tudo tranqüilo
na caminho do acampamento, até paramos pra ver um show
do Replicantes no caminho, enquanto o Maikon cuidava do isopor
lá fora.

30/01/2005 – Epílogo
de vingança.
Domingo. Porcaria de depressão.
Este seria o dia mais místico e espiritual de toda a viagem,
meu momento de peregrinação solitária rumo
ao deserto de sofrimento de São Leopoldo. Uma jornada de
vingança necessitava ser realizada. Uma jornada árdua
e solitária. Abandonado pelos outros membros de Os Legais,
era minha sagrada missão carregar 4 pacotes de isopor até
São Leopoldo: não vou repetir aqui o quanto é
importante organizar um show com bandas de fora com um mínimo
de responsabilidade e consideração. Não fomos
os primeiros a se meter em roubada e não seremos os últimos,
você com certeza já viu algum texto de alguma banda
reclamando de uma roubada com irresponsáveis e picaretas
na puta que pariu. Pois bem, este é mais um exemplar do
típico texto de roubada seguida de vingança. Charles
Bronson não morreu em vão.
Antes de colocar os pacotes nas costas, vejo que a barraca de
Sandoval foi roubada: INTEIRA! O isopor jogado pra fora antes...
Fico sabendo também, que mais de trinta punks foram presos
com material explosivo e que houve dezenas de casos de estupro:
ninguém me estuprou e os punks que estavam no show pelo
visto não tinham bombas, ao menos isso. Esse raciocínio
me fez iniciar minha viagem mais facilmente e é claro que
a ajuda de Daniel Villa Verde (Scream Noise,
Ornitorrincos, Facão Três Listras e poderoso agitador
cultural) e Gustavo Insekto (escritor, desenhista,
músico ao lado do Villa e diretor do documentário
“Isopor experimental vindo do espaço” que trata
de um mítico fim de semana em Santo Antonio da Patrulha,
que entre outras coisas aportou Os Legais pela primeira vez no
Rio Grande do Sul) para carregar os pacotes até o metrô,
foi de extremo valor também. No metrô, a caminho
de São Leopoldo refleti sobre minha infância, o futuro
da humanidade e como seria mais fácil carregar isopor se
eu fosse milionário. Isso voltaria a minha cabeça
várias enquanto eu arrastava os enormes pacotes cidade
adentro por São Leopoldo, eu precisava concentrar minhas
forças e me transformar em apenas um, eu e os pacotes:
de preferência com rodinhas também.
Não aconteceu...
Não era nem metade do caminho, quando me debruço
transbordando lágrimas em cima deles e grito: “Não
vou conseguir!!! Inferno!!! Maldito isopor!!!”
No momento exato de meu choramingar desesperado, um conjunto de
vozes extremamente desafinadas invade o ar cantando: “Tudo
na vida é possíveeeel” “Nada no mundo
é impossíveeeeel”. Percebo que estou na frente
de uma igreja evangélica, ainda passaria por mais duas
até chegar a meu destino. Domingo, fim de tarde, momento
das igrejas distribuírem música desafinada e horrível
aos quatro ventos, ultrapassando montanhas, assim como meu isopor
da vingança. Era o incentivo que eu precisava, decidi continuar
e largar um dos pacotes no caminho: minha ligação
com eles neste momento já era mais do que paternal e largar
um deles no meio do caminho sem ter sido usado pra propósito
nenhum era demais pro meu coração, foi um momento
de muita dor...
Escolho o maior deles e atiro no primeiro jardim que encontro,
toda cruzada possui suas vítimas inocentes, não
posso evitar, é em nome de um bem maior. Na verdade, me
arrependi um pouco segundos depois, já que tive que correr
uns dois quarteirões com os 3 pacotes restantes.

Quando já estava no quarteirão
da casa do organizador, resolvo sentar um pouco pra refletir.
Nesse momento, duas crianças param na minha frente e começam
a fazer perguntas. “Quem é você?” “Pra
quê esses pacotes?” “O que tem dentro?”
“Tu já andou de bicicleta?” Uma pergunta atrás
da outra. É impressionante como as crianças são
tranqüilas em relação à vida, eu poderia
ser um demente criminoso totalmente louco e lá estavam
elas querendo fazer amizade. O problema é que meu estado
emocional não estava dos melhores e eu realmente não
queria fazer amigos naquele momento, várias famílias
cantavam hinos religiosos e lavando seus jardins em volta de nós,
o que também ajudou a me tornar apreensivo.
Minha missão era mais importante, resolvi fugir no momento
em que o casal de irmãos foi em casa buscar algo pra me
mostrar. Já senti todo tipo de sensação angustiante
na minha vida: saudade, dor, arrependimento, amor, fome, humilhação,
mas nada se comparava a sensação de correr ao sol
do fim de tarde com aquele isopor para me afastar das crianças.
Achei que ia morrer. Mas também compreendi a maior lição
que o isopor pode ensinar a uma pessoa na vida.
O
isopor nos ensina que tudo na vida é possível.
O valor da persistência e do triunfo da vontade. Se com
meus braços caquéticos consigo carregar estes pacotes
de sabedoria para qualquer lugar do país (e quando digo
qualquer, é qualquer mesmo, do Bangu no RJ a subúrbio
de Campinas/SP, de Pirabeiraba em SC à Santo Antônio
da Patrulha no RG), qualquer pessoa consegue qualquer coisa. Quem
não desiste, consegue o mundo.
Já se completam anos e mais anos em que somos criticados
por grupos de invejosos sem talento, por não seguirmos
a ridícula supremacia das sete notas. Dizem que Os Legais
não é uma banda de verdade porque não segue
a tabuada das patéticas sete notas. Dizem que não
somos músicos: músicos não o são vocês,
invejosos, que precisam de aula para tocar seu instrumento. Nós
não precisamos de nada, eu sou meu próprio instrumento.
Os Legais é a verdade, a luz e a vida. Limitados são
os seus dedos, porque meus dedos não têm limites.
Acordes e outras convenções patéticas não
vão me fazer parar. E a inveja de perdedores, invejosos
e moralistas é combustível para minha sede. Convido
aqueles que pensam que é fácil tocar em Os Legais
a passar 30 minutos ao meu lado carregando guitarras e pacotes
de isopor debaixo de sol escaldante. Ensaiar a mesma música
sempre, e sempre tocar ela de maneira igual é ridículo
de fácil. Não somos cover de nós mesmos,
toda vez que tocamos uma música, recriamos e melhoramos
sua qualidade e vivacidade. Cada ruído e gotículas
de isopor espalhados e criados por nós tem ligação
direta com os anais da eternidade...
O primeiro pacote voou bem no meio do jardim. O segundo prendeu
no portão e tive que dar uns pulos e socos pra fazê-lo
ultrapassar. A cada segundo a quantidade de cachorros
latindo era maior. O terceiro pacote voou e bateu no
telhado, acertando em cheio uma moita logo abaixo. Na volta, sozinho,
triste e perdido em Porto Alegre, resolvo me juntar aos Hare-krishna:
me tornei membro devoto por mais de uma hora, correndo, batendo
tambor e cantando. Até o momento que senti vontade de tomar
uma cerveja.

Só o isopor constrói...
Fim.
...Gurcius
Gewdner...
Fotos de Frederick
München.