Finalmente
vou conferir esse festival, já em sua terceira edição
e pelo julgar da quantidade de público um sucesso. Imagine,
ainda atrações de peso nacional como Replicantes,
Autoramas e Dance of Days, sem falar das bandas regionais que
mantinham todo um enfoque nas cores locais sem perder a competência
e, sem falar que o Curupira sedia mais uma vez um evento importante
marcando o nome nos shows no sul do Brasil, como já é
esperado.
A quantidade aterradora de bandas no segundo dia, sábado,
fez-me atrasar propositalmente à chegada ao lugar. 23h
e uma quantidade crescente de carros estacionada fora das dependências
do clube, já na rua de acesso. A coisa estava pegando
fogo! Fora o incômodo de atravessar o caminho enlameado
que leva ao acesso do Curupira, a visão de uma massa
sólida de pessoas na “antecâmara” do
espaço do show corava qualquer um.

Cartaz
do festival: Onde diabos estão os nomes das outras
bandas????????
Muita gente, bastante de fato, diziam que no dia anterior, no
show do Replicantes a casa tinha lotado e fora
necessário proteger o palco da platéia com um
cordão de isolamento(!), tamanha a voracidade da platéia.
A banquinha do Sr. Gurcius, responsável
pelo merchandise dos Legais, estava literalmente
esmagada dentro do enorme contingente de pessoas. Muitas pessoas
bonitas, como diria o Cacau, é verdade, muitas meninas
e garotas bonitas, gente de bom nível entre outros não
agraciados pela mesma sorte, uma coisa linda, entende? Ah se
no meu tempo fosse assim...
Enquanto a massa que ignorava a banda que tocava no momento
me chamava mais a atenção me convidando a não
compartilhar banda também, tentei me utilizar da tática
de avaliar a banda estando no lado de fora. A noite privilegiava
bandas mais alternativas, indie rockers, e o som quase lúgubre
mas Pop da banda em questão afugentava o efetivo espectador
engrossando as fileiras do efetivo consumidor. E dá-lhe
Radiohead!

A próxima banda mudava a ressonância do lugar,
com batidas “hereges” e um pouco mais “colonial”
digamos, hum, agora sim era hora de verificar o que se passava.
Era o Al Diaz, em casa, fazendo misérias
com seus fãs, sim, já posso escrever isso. Aquele
misto de Smashing Pumpkins, Chavez com a presença de
um DJ e vocais bravos e emocionantes criava uma sintonia com
a platéia: coros repetidos no lado complementar ao palco,
garotas em sua viagem particular enquanto dançavam. Isso
me fez lembrar em como a dança funciona como ritual de
acasalamento entre os bichos e principalmente entre os animais
homens. E dá-lhe aqueles clichês de garota dançando
com os braços pra cima como se ninguém as estivessem
olhando, e rebolados sensuais, e caras e bocas profanas, e decotes
e barriguinhas lânguidas e,... Mesmo com o atraso na programação
e as guitarras mais leves as compensações estavam
se iniciando agora.

Mantendo a lógica, o Fly-X não
desapontou e só continuou a festa da banda anterior.
Não tem jeito, eles não conseguem se desvencilhar
da sombra do Nirvana, ainda mais pelo vocal com o timbre muito
semelhante ao de Kurt Cobain. Tudo bem, música é
também diversão, lembre-se disso, e já
que o fantasma do grunge felizmente morreu e deixou de ser moda,
o Fly-X consegue se destacar por esse mesmo motivo e claro,
porque fazem bem. Muita empolgação e guitarras
distorcidas, fazendo a comparação da banda de
Seattle cair abaixo apenas quando tocaram covers de outras bandas,
como Smashing Pumpkins por exemplo. E sem perder o entusiasmo
da platéia.
Complexo
trabalho de percussão.
Só faltavam mais três bandas para encerrar a noite
e quem era agora, quem, quem? O Madeixas! Êba!
A mágica estava no ar mais uma vez, definitivamente após
tanto tempo juntos a banda passeava seus hits para um público
cada vez mais entregue ao seu talento. A banda é o Sandy
e Jr. do bem! Ou do mal (e isso é bom), como preferir.
Ah se eles tivessem pais famosos, mas não, eles já
escreveram a história por eles mesmos, sem precisar de
ajuda de ninguém mais a não ser da competência
deles. E quem sabe no futuro seja realizado um filme sobre a
vida deles como “Os Dois Filhos de Francisco”? Por
que não? Ou quem sabe como no filme do Daft Punk, eles
sejam como o Crescendolls? Por que não? Aparentemente
eles não tinham músicas novas na ocasião,
o repertório foi quase o mesmo do show no Cais 90 em
Joinville no ano passado, mas o sexto elemento no sampler estava
lá, quietinho, sossegado, sentado ao lado da bateria.
Quase nem dava para notar nas intervenções dele,
eram as guitarras que falavam mais alto, porém mais do
que isso, as melodias que ganhavam todo o enfoque na banda.
O contraste dos dois vocais masculino e feminino reforçava
esse dinamismo na afluência do som da banda. Para deleite
dos antigos fãs, as músicas da fase em inglês
não foram esquecidas, ficando a lamentar apenas, o tempo
curto de seu repertório. Curto não, enxuto, o
evento passara muito mais da hora prevista e era um festival,
não um show em particular. De qualquer maneira o Madeixas
deixou sua marca peculiar e uma sugestão para quem sabe,
outros shows pela região. Por que não?

Dia amanhecendo, mas quem se importa???
A meia noite já era coisa do passado, bem distante, e
era a vez do Autoramas tocar. Contudo, nem
a banda estava cabisbaixa e muito menos a platéia. Power
trio de surf garage music! Sem a baixista original mas com uma
substituta a altura, quer dizer, ela era um pouco mais baixa...
ela se encaixou perfeitamente na vibração e despojamento
do Autoramas. É ótimo ver uma banda cujo maior
hit não é música de um videoclipe, aliás,
foram uma coleção de hits, músicas que
desde o primeiro disco se sobressaíam na calada da noite.
A guitarra de Gabriel com efeitos quase espaciais embasbacava
a audiência, chegava quase a chacoalhar as caixas de som,
e a presença de palco com coreografias entre a dupla
de frente, baixo e guitarra, copiando movimentos um ao outro,
fazia sentir algo como robótico, mas no melhor sentido,
de que tudo era tão perfeito que só podia ter
sido idealizado em computadores.
Nada
da frieza moderna porém, era calor que exalava do palco
que se propagava e era amplificado no público, um retorno
às raízes sonoras com uma embalagem pós
contemporânea. Eram as máquinas dominando o planeta
e ensinando aos humanos como é ser humano outra vez.
E no final descobrir que as máquinas na realidade eram
humanas também, nós que fomos desvirtuados de
nosso objetivo principal, de prover assistência às
então “máquinas”. Nosso conceito de
vida era frio, mecânico, em uma inércia. O que
julgávamos como quente era destituído de calor,
entretanto. Estávamos errados o tempo inteiro e as “máquinas”
nos ensinaram a viver de verdade. Não como outrora, mas
de uma maneira certa, pela primeira vez exatamente. Pena que
esse contato com a realidade não foi prolongado, surpreendentemente
para uma atração principal a banda terminara seu
repertório em tempo até curto.

Por que se importar com a próxima banda: era a última
banda e eram Os Legais. Para que se incomodar?
Talvez fosse mais uma resposta para nos elucidar da consciência
do verdadeiro calor, da felicidade real. Transcendentalismo.
O que esperar d’Os Legais? Isopor pelo menos. Vamos adiante
meu caro. O público já se evadia do local mas
persistiam alguns bravos, minto, muitas unidades de alguns,
talvez até dezenas de alguns, para comprovar se tudo
aquilo que ouviam dizer da banda, digo, do bando, era verdade.
Uma faixa enorme na frente do palco tinha o nome do bando escrita
nela. Era para ocultar o que se passava nos preparativos da
apresentação do bando. E como demoraram esses
preparativos, para variar. Muitos minutos depois, a faixa era
gentilmente erguida para dar a luz ao bando para em seguida,
uma vez iniciado o périplo da desgraça, ser destroçada
impiedosamente frente aos canibais transformados pelo toque
sonoro encantador e desvirtuador do bando.
Já
não se pode mais chamar Os Legais de
trio apenas, Gurcius, Marcius
e Iuguru não estão mais sozinhos
em suas vestimentas de jornal, papelão e badulaques afins,
sempre contando com participações por mais que
especiais, entre elas Edson no papel de homem
latinhas de cerveja (seu figurino ostentava dezenas de latas
de cerveja cuidadosamente alfinetas na camisa e na calça),
Alejandro Gutierrez, figura constante nas participações
especiais, de homem revista de mulher pelada tocando bateria,
PC, o homem carrinho de supermercado, fazendo
percussão em um carrinho de compras, e um outro ilustre
que não foi me divulgado corretamente, na segunda guitarra
(ou seria baixo?). Tudo ainda estava muito calmo até
a segunda música. Era hora da distribuição
de isopor aos mais carentes. Que festa! Todos esses miseráveis
sem isopor se digladiavam por um pedaço de tão
importante material necessário para a vida comum. Pareciam
zumbis disputando cérebros. Mais outra música,
mais isopor pra galera. Infelizmente havia mais músicas
e muito mais isopor no estoque para a gentalha. Chico Science
deveria reescrever suas palavras, como ele está morto
eu faço isso por ele, “do caos ao isopor, do isopor
ao caos”.
De
repente o chão do Curupira ficou branco, era um amontoado
de dejetos industrializados por todo o lado. O fusuê do
embate por um pedaço ainda íntegro de isopor mascarava
toda a seriedade do trabalho musical da banda. Poucos puderam
compreender a complexidade de riffs de uma guitarra desafinada
com distorção aliada (ou seria melhor, brigada?)
da bateria desconexa mais vocais lamuriosos ou gritados. The
Residents, The Shaggs e Anal
Cunt ficariam muito felizes!

Sobrou
até uma homenagem à extinta banda Alpha
Asian Malária, com o cantor Zé
dividindo as vozes em “As meninas que só querem
Ficar”, exaltando toda sua emoção ao abaixar
suas calças e ficar de cuecas ao final da música.
Que momento inesquecível. A nova fase com maior penetração
de Igor mostra uma banda mais Hardcore do que nunca, como não
se encantar e iniciar uma roda de pogo com os magnânimos
versos de “Ideologia”: “ideologia/ é
coisa para quem não tem nada p’ra fazer”.
Simplesmente lindo. Pena que não tocaram “entra
seco e sai com milho e sangrando”, ou será que
tocaram?
O
grande Edson Luís executando seus vários instrumentos
com maestria.
Os
críticos não conseguem entender nada porque ficam
hipnotizados com o espetáculo da descentralização
do isopor realizada não pelo governador do Estado, e
sim pel’Os Legais. São na verdade marionetes do
poder público, querem apenas mais recursos para comprar
seu próprio isopor. O que eles não entendem é
que o isopor é uma metáfora da ciência,
em como ela pode reverter o creacionismo, justificar a vida
e ainda ser espiritual e religiosa. Deus não criou o
isopor, foi o homem, mas o homem precisou antes se evoluir para
poder criar isopor. O fogo já existia antes,e qualquer
um, faz, até escoteiros.
Vivemos
na Era do Isopor. O isopor e não o fogo constitui sim
a verdadeira espada de Escalibur presa na rocha que distingue
os homens dos animais. O conhecimento do isopor e sua manipulação
torna um pedaço de carne qualquer em uma entidade distinta,
um ser confiante de seus instintos, de sua habilidade, de sua
inteligência... um homem! Ou uma mulher, dependendo do
gênero.
Edson
Luís e Zé cantando "As garotas que só
querem ficar" do maravilhoso Alpha asian Malaria.
Se
algo tão sublime como o isopor pode existir então
sim existe Deus e, portanto o caminho para Deus envolve necessariamente
o isopor. E isso arregimenta prazeres mais simples como a alegria
pura e básica, vislumbrada em todos os presentes que
foram iluminados pela audaciosa e reveladora proposta do bando.
Mais do que isso, após o término forçado
do show (um herege comandava a mesa de som desligando as caixas)
munidos de uma caixa clara estrategicamente colada ao abdômen
de Marcius, uma procissão foi guiada junto ao ritmo marcado
pelo surdo que Edson portava para fora do recinto, marchando
religiosamente até a área de camping do Curupira.
O sol já despontava. Celestial! Infame! Sublime! Sacrilégio!
Um orgasmo pagão que se unia à universalização
da inconsciência divina. Felicidade.
Sim, seis horas da manhã, tudo claro, estava tudo claro,
sim, mais um sinal de Deus, Ele respondia em alto e bom tom
que tudo estava claro! Os Legais estão certos!
Melhor final de show mais apoteótico que já presenciei
em toda a minha vida.
E é só, porque tudo está claro agora.
É preciso mais?
...Texto de Aristeu Rudnick...