OS LEGAIS NO BRAZUCA 2005

Não deixe de visitar o site do Curupira Rock Clube para mais detalhes sobre o evento e fotos das outras bandas que tocaram no festival!!!! Muito obrigado a todos que nos mandaram fotos!!!!

...Gurcius...

Osni (Oscarademarte) estreando como percussionista e Alejandro Gutierrez com sua musa inspiradora sempre em mente.

Finalmente vou conferir esse festival, já em sua terceira edição e pelo julgar da quantidade de público um sucesso. Imagine, ainda atrações de peso nacional como Replicantes, Autoramas e Dance of Days, sem falar das bandas regionais que mantinham todo um enfoque nas cores locais sem perder a competência e, sem falar que o Curupira sedia mais uma vez um evento importante marcando o nome nos shows no sul do Brasil, como já é esperado.
A quantidade aterradora de bandas no segundo dia, sábado, fez-me atrasar propositalmente à chegada ao lugar. 23h e uma quantidade crescente de carros estacionada fora das dependências do clube, já na rua de acesso. A coisa estava pegando fogo! Fora o incômodo de atravessar o caminho enlameado que leva ao acesso do Curupira, a visão de uma massa sólida de pessoas na “antecâmara” do espaço do show corava qualquer um.

Cartaz do festival: Onde diabos estão os nomes das outras bandas????????


Muita gente, bastante de fato, diziam que no dia anterior, no show do Replicantes a casa tinha lotado e fora necessário proteger o palco da platéia com um cordão de isolamento(!), tamanha a voracidade da platéia. A banquinha do Sr. Gurcius, responsável pelo merchandise dos Legais, estava literalmente esmagada dentro do enorme contingente de pessoas. Muitas pessoas bonitas, como diria o Cacau, é verdade, muitas meninas e garotas bonitas, gente de bom nível entre outros não agraciados pela mesma sorte, uma coisa linda, entende? Ah se no meu tempo fosse assim...


Enquanto a massa que ignorava a banda que tocava no momento me chamava mais a atenção me convidando a não compartilhar banda também, tentei me utilizar da tática de avaliar a banda estando no lado de fora. A noite privilegiava bandas mais alternativas, indie rockers, e o som quase lúgubre mas Pop da banda em questão afugentava o efetivo espectador engrossando as fileiras do efetivo consumidor. E dá-lhe Radiohead!


A próxima banda mudava a ressonância do lugar, com batidas “hereges” e um pouco mais “colonial” digamos, hum, agora sim era hora de verificar o que se passava. Era o Al Diaz, em casa, fazendo misérias com seus fãs, sim, já posso escrever isso. Aquele misto de Smashing Pumpkins, Chavez com a presença de um DJ e vocais bravos e emocionantes criava uma sintonia com a platéia: coros repetidos no lado complementar ao palco, garotas em sua viagem particular enquanto dançavam. Isso me fez lembrar em como a dança funciona como ritual de acasalamento entre os bichos e principalmente entre os animais homens. E dá-lhe aqueles clichês de garota dançando com os braços pra cima como se ninguém as estivessem olhando, e rebolados sensuais, e caras e bocas profanas, e decotes e barriguinhas lânguidas e,... Mesmo com o atraso na programação e as guitarras mais leves as compensações estavam se iniciando agora.


Mantendo a lógica, o Fly-X não desapontou e só continuou a festa da banda anterior. Não tem jeito, eles não conseguem se desvencilhar da sombra do Nirvana, ainda mais pelo vocal com o timbre muito semelhante ao de Kurt Cobain. Tudo bem, música é também diversão, lembre-se disso, e já que o fantasma do grunge felizmente morreu e deixou de ser moda, o Fly-X consegue se destacar por esse mesmo motivo e claro, porque fazem bem. Muita empolgação e guitarras distorcidas, fazendo a comparação da banda de Seattle cair abaixo apenas quando tocaram covers de outras bandas, como Smashing Pumpkins por exemplo. E sem perder o entusiasmo da platéia.


Complexo trabalho de percussão.


Só faltavam mais três bandas para encerrar a noite e quem era agora, quem, quem? O Madeixas! Êba! A mágica estava no ar mais uma vez, definitivamente após tanto tempo juntos a banda passeava seus hits para um público cada vez mais entregue ao seu talento. A banda é o Sandy e Jr. do bem! Ou do mal (e isso é bom), como preferir. Ah se eles tivessem pais famosos, mas não, eles já escreveram a história por eles mesmos, sem precisar de ajuda de ninguém mais a não ser da competência deles. E quem sabe no futuro seja realizado um filme sobre a vida deles como “Os Dois Filhos de Francisco”? Por que não? Ou quem sabe como no filme do Daft Punk, eles sejam como o Crescendolls? Por que não? Aparentemente eles não tinham músicas novas na ocasião, o repertório foi quase o mesmo do show no Cais 90 em Joinville no ano passado, mas o sexto elemento no sampler estava lá, quietinho, sossegado, sentado ao lado da bateria. Quase nem dava para notar nas intervenções dele, eram as guitarras que falavam mais alto, porém mais do que isso, as melodias que ganhavam todo o enfoque na banda. O contraste dos dois vocais masculino e feminino reforçava esse dinamismo na afluência do som da banda. Para deleite dos antigos fãs, as músicas da fase em inglês não foram esquecidas, ficando a lamentar apenas, o tempo curto de seu repertório. Curto não, enxuto, o evento passara muito mais da hora prevista e era um festival, não um show em particular. De qualquer maneira o Madeixas deixou sua marca peculiar e uma sugestão para quem sabe, outros shows pela região. Por que não?


Dia amanhecendo, mas quem se importa???


A meia noite já era coisa do passado, bem distante, e era a vez do Autoramas tocar. Contudo, nem a banda estava cabisbaixa e muito menos a platéia. Power trio de surf garage music! Sem a baixista original mas com uma substituta a altura, quer dizer, ela era um pouco mais baixa... ela se encaixou perfeitamente na vibração e despojamento do Autoramas. É ótimo ver uma banda cujo maior hit não é música de um videoclipe, aliás, foram uma coleção de hits, músicas que desde o primeiro disco se sobressaíam na calada da noite. A guitarra de Gabriel com efeitos quase espaciais embasbacava a audiência, chegava quase a chacoalhar as caixas de som, e a presença de palco com coreografias entre a dupla de frente, baixo e guitarra, copiando movimentos um ao outro, fazia sentir algo como robótico, mas no melhor sentido, de que tudo era tão perfeito que só podia ter sido idealizado em computadores.

Nada da frieza moderna porém, era calor que exalava do palco que se propagava e era amplificado no público, um retorno às raízes sonoras com uma embalagem pós contemporânea. Eram as máquinas dominando o planeta e ensinando aos humanos como é ser humano outra vez. E no final descobrir que as máquinas na realidade eram humanas também, nós que fomos desvirtuados de nosso objetivo principal, de prover assistência às então “máquinas”. Nosso conceito de vida era frio, mecânico, em uma inércia. O que julgávamos como quente era destituído de calor, entretanto. Estávamos errados o tempo inteiro e as “máquinas” nos ensinaram a viver de verdade. Não como outrora, mas de uma maneira certa, pela primeira vez exatamente. Pena que esse contato com a realidade não foi prolongado, surpreendentemente para uma atração principal a banda terminara seu repertório em tempo até curto.


Por que se importar com a próxima banda: era a última banda e eram Os Legais. Para que se incomodar? Talvez fosse mais uma resposta para nos elucidar da consciência do verdadeiro calor, da felicidade real. Transcendentalismo.
O que esperar d’Os Legais? Isopor pelo menos. Vamos adiante meu caro. O público já se evadia do local mas persistiam alguns bravos, minto, muitas unidades de alguns, talvez até dezenas de alguns, para comprovar se tudo aquilo que ouviam dizer da banda, digo, do bando, era verdade. Uma faixa enorme na frente do palco tinha o nome do bando escrita nela. Era para ocultar o que se passava nos preparativos da apresentação do bando. E como demoraram esses preparativos, para variar. Muitos minutos depois, a faixa era gentilmente erguida para dar a luz ao bando para em seguida, uma vez iniciado o périplo da desgraça, ser destroçada impiedosamente frente aos canibais transformados pelo toque sonoro encantador e desvirtuador do bando.

Já não se pode mais chamar Os Legais de trio apenas, Gurcius, Marcius e Iuguru não estão mais sozinhos em suas vestimentas de jornal, papelão e badulaques afins, sempre contando com participações por mais que especiais, entre elas Edson no papel de homem latinhas de cerveja (seu figurino ostentava dezenas de latas de cerveja cuidadosamente alfinetas na camisa e na calça), Alejandro Gutierrez, figura constante nas participações especiais, de homem revista de mulher pelada tocando bateria, PC, o homem carrinho de supermercado, fazendo percussão em um carrinho de compras, e um outro ilustre que não foi me divulgado corretamente, na segunda guitarra (ou seria baixo?). Tudo ainda estava muito calmo até a segunda música. Era hora da distribuição de isopor aos mais carentes. Que festa! Todos esses miseráveis sem isopor se digladiavam por um pedaço de tão importante material necessário para a vida comum. Pareciam zumbis disputando cérebros. Mais outra música, mais isopor pra galera. Infelizmente havia mais músicas e muito mais isopor no estoque para a gentalha. Chico Science deveria reescrever suas palavras, como ele está morto eu faço isso por ele, “do caos ao isopor, do isopor ao caos”.

De repente o chão do Curupira ficou branco, era um amontoado de dejetos industrializados por todo o lado. O fusuê do embate por um pedaço ainda íntegro de isopor mascarava toda a seriedade do trabalho musical da banda. Poucos puderam compreender a complexidade de riffs de uma guitarra desafinada com distorção aliada (ou seria melhor, brigada?) da bateria desconexa mais vocais lamuriosos ou gritados. The Residents, The Shaggs e Anal Cunt ficariam muito felizes!

Sobrou até uma homenagem à extinta banda Alpha Asian Malária, com o cantor Zé dividindo as vozes em “As meninas que só querem Ficar”, exaltando toda sua emoção ao abaixar suas calças e ficar de cuecas ao final da música. Que momento inesquecível. A nova fase com maior penetração de Igor mostra uma banda mais Hardcore do que nunca, como não se encantar e iniciar uma roda de pogo com os magnânimos versos de “Ideologia”: “ideologia/ é coisa para quem não tem nada p’ra fazer”. Simplesmente lindo. Pena que não tocaram “entra seco e sai com milho e sangrando”, ou será que tocaram?


O grande Edson Luís executando seus vários instrumentos com maestria.

Os críticos não conseguem entender nada porque ficam hipnotizados com o espetáculo da descentralização do isopor realizada não pelo governador do Estado, e sim pel’Os Legais. São na verdade marionetes do poder público, querem apenas mais recursos para comprar seu próprio isopor. O que eles não entendem é que o isopor é uma metáfora da ciência, em como ela pode reverter o creacionismo, justificar a vida e ainda ser espiritual e religiosa. Deus não criou o isopor, foi o homem, mas o homem precisou antes se evoluir para poder criar isopor. O fogo já existia antes,e qualquer um, faz, até escoteiros.

Vivemos na Era do Isopor. O isopor e não o fogo constitui sim a verdadeira espada de Escalibur presa na rocha que distingue os homens dos animais. O conhecimento do isopor e sua manipulação torna um pedaço de carne qualquer em uma entidade distinta, um ser confiante de seus instintos, de sua habilidade, de sua inteligência... um homem! Ou uma mulher, dependendo do gênero.


Edson Luís e Zé cantando "As garotas que só querem ficar" do maravilhoso Alpha asian Malaria.

Se algo tão sublime como o isopor pode existir então sim existe Deus e, portanto o caminho para Deus envolve necessariamente o isopor. E isso arregimenta prazeres mais simples como a alegria pura e básica, vislumbrada em todos os presentes que foram iluminados pela audaciosa e reveladora proposta do bando. Mais do que isso, após o término forçado do show (um herege comandava a mesa de som desligando as caixas) munidos de uma caixa clara estrategicamente colada ao abdômen de Marcius, uma procissão foi guiada junto ao ritmo marcado pelo surdo que Edson portava para fora do recinto, marchando religiosamente até a área de camping do Curupira. O sol já despontava. Celestial! Infame! Sublime! Sacrilégio! Um orgasmo pagão que se unia à universalização da inconsciência divina. Felicidade.
Sim, seis horas da manhã, tudo claro, estava tudo claro, sim, mais um sinal de Deus, Ele respondia em alto e bom tom que tudo estava claro! Os Legais estão certos!
Melhor final de show mais apoteótico que já presenciei em toda a minha vida.
E é só, porque tudo está claro agora.
É preciso mais?


...Texto de Aristeu Rudnick...

 

..................................................

Considerações Finais

Sim!!! O show foi clássico, não é sempre que conseguimos tocar com a formação mais do que completa, instrumentos interessantes como o carrinho de compras e ainda dividir o palco com Pc, Edson Luís e Zé!!! Além do fato do Curupira ser o lugar mais belo e maravilhoso de se tocar em todo o mundo!!! Mas deixo registrado nosso repúdio ao gordo mal humorado, seborrento e técnico de som que cortou nosso microfone bem antes da metade do show e ao pessoal da organização que não fez nada pra fazer o microfone voltar.

Não que isso realmente importe muito, já que somos especialistas em instrumentais complexos e a falta de microfone não vai nos impedir de tocar por 8 horas se preciso, mas foi triste ver o Zé cantando a clássica “As meninas que só querem ficar”, do Alpha Asian sem ouvir sua fantástica voz de veludo. Ao menos ele cantou com todo o poder do coração e estava de cueca, nem notou a falta do microfone. Mas como todos os males dirigidos a nós se transformam em bem, depois de uma conversa séria entre os irmãos de alma Gurcius e Marcius, decidimos transformar Os Legais em uma banda de Fanfarra (e falamos muito sério).

O que significa: que o primeiro instrumento a entrar no palco depois de nosso lixo imundo será o megafone (que esquecemos de levar ao palco desta vez, maldita correria) e os instrumentos de percussão e sopro, armas que não dependem da tomada para fazer barulho. É claro que continuaremos usando instrumentos plugados, mas não seremos dependentes desses aparelhos sem vida própria para espalhar nossas lindas músicas!!!! Malditos sejam os instrumentos dependentes de tomada e a ignóbil supremacia da energia elétrica!!!! Somos lindas andorinhas de isopor e barulho, livres apodrecendo ao vento!!!!! É obvio que não aprenderemos a tocar para fazer fanfarra, aulas de musica são para os perdedores, e dentro de 15 anos estaremos todos gordos (e bem humorados) com barbas e cabelos compridos espalhando nossas musicas desplumadas e barulhentas pelas montanhas e destroços de guerra do leste europeu!!!!!!


..........Gurcius...........


O site do Curupira realizou na semana seguinte ao festival uma enquete sobre as bandas participantes do 3º Brazuca Noise Festival. A pergunta foi "Qual banda você mais gostou no 3º Brazuca Noise Festival?". A enquete durou 10 dias (de 11 de outubro a 21 de outubro) e recebemos 305 votos. Eis o resultado abaixo com o número de votos e o percentual obtido por cada banda:

104 votos - (34,1%) - Os Legais
62 votos - (20,3%) - Dead Heads
42 votos - (13,8%) - Bondage
35 votos - (11,5%) - Al Diaz
15 votos - (4,9%) - Os Replicantes
12 votos - (3,9%) - Autoramas
10 votos - (3,3%) - Dance Of Days
8 votos - (2,6%) - Fly-X
6 votos - (2,0%) - Repulsores
3 votos - (1,0%) - Blasé
3 votos - (1,0%) - Soda Café
2 votos - (0,7%) - Madeixas
1 voto - (0,3%) - Eugenia
1 voto - (0,3%) - Calvin
1 voto - (0,3%) - Dubbio
nenhum voto - (0,0%) - Stuart
nenhum voto - (0,0%) - Adversor
nenhum voto - (0,0%) - The Book Keepers
nenhum voto - (0,0%) - Liss

É importante citar que esta enquete não teve a intenção de criar qualquer tipo de competição, ou, muito menos comparar o trabalho de cada banda conforme o resultado obtido por ela. Sabemos muito bem que muitas bandas (e consequentemente seu público) nem ficaram sabendo da enquete. Foi somente uma maneira de fazer os visitantes do site expressarem sua opinião. Desde já agradecemos às pessoas que visitaram o site e que votaram na enquete. Esperamos vê-los mais vezes por aqui. Visite : http://www.curupirarockclub.com/


...Por Edson Luís...