Bulhorgia 0015 - A CURTIÇÃO DO AVACALHO - DVD


“O tempo dos camponeses rezarem Ave Maria está de volta !”


“Canibais em pleno século XXI ?”.
É o que se pergunta padre Carcass (Elio Coppini), cercado por galinhas, logo no início de A Curtição do Avacalho, nova obra do videasta catarinense Petter Baiestorf. Este vídeo é um libelo que ataca – de maneira direta, cínica e certeira – Igreja, Estado e desatentos emburrecidos de plantão. Em A Curtição do avacalho, vemos pecadores de uma comunidade rural tendo suas carnes derretidas como expiação à suas ofensas cristãs, um exército revolucionário – de duas pessoas – digladiando-se com hordas de zumbis putrefatos e um cientista filósofo ensandecido – como não poderia deixar de ser – que constrói uma múmia de Cristo para controlar o mundo.
Qual é o resultado de tanta disparidade reunida ? Uma possível resposta à pergunta – e também ao questionamento do padre Carcass – pode remeter à resistência da Canibal Produções, que conta mais de dez anos de atividades, realizando obras cult e transgressoras no circuito underground. A Curtição do avacalho, antes de ser entretenimento para os fãs de terror e escatologia – elementos que não faltam nesta produção – é um vídeo questionador que pode mexer com os brios dos puritanos – se é que estes realmente existem em vez de serem alucinações consensuais ...


“Quem faz cinema sem dinheiro tem mais que ir pra puta que pariu mesmo.”

Não espere de A Curtição do avacalho um vídeo trash nos moldes dos trabalhos anteriores de Baiestorf. Aqui, ele usa e abusa da metalinguagem, característica observada nos filmes de Alejandro Jodorowksy, uma das suas várias influências. Embora assuma a inspiração, Petter Baiestorf vocifera que A Curtição do avacalho está voltado mais para o cinema nacional de realizadores como Júlio Bressane e Rogério Sganzerla. Por várias vezes, o foco de desloca da cena principal e vai atingir toda a equipe de produção, que não mostra papas na língua na hora de questionar valores morais, sociais e – por que não ? – profissionais.
O espectador – este pobre coitado ! – que tire suas próprias conclusões, ao ver cenas como a que o personagem Juanito, também conhecido como Santeria (César Souza), agoniza após levar um tiro na barriga; ferido mortalmente, ele despeja, no lugar das tripas, rolos e mais rolos de VHS.

Outra cena de destaque é aquela em que o próprio Baiestorf mastiga DVDs de filmes blockbusters, enquanto Souza recita o poema 2005 foi outro ano ruim:


Se masturbando com inocência virginal,
Ejaculando pensando em arte experimental,
Em promessas quebradas pela industria artesanal
transformada em jorros de merda industrial.

Cuspir palavras ao vento
Pelo simples prazer de cuspi-las.
Juras de amor à arte
Ditas sem a importância da sinceridade.

E proibiram a criatividade!!!
E aniquilaram a ousadia!!!
Não pensar para melhor consumir!!!

Salve salve os produtos descartáveis!!!
salve salve os produtos descartáveis!!!
salve salve os produtos descartáveis!!!
Salve salve os produtos descartáveis!!!

 

As intervenções metalingüísticas não param por aqui. Pontuando todo o vídeo, estas dão novos contornos à narrativa, abordando a morte do cinema, a dificuldade de se pensar artisticamente em terra brasilis e até mesmo avacalhando com o espectador. A Curtição do avacalho é uma piada que deu certo; ria junto com Baiestorf e sua trupe, mesmo que seja um risinho amarelado.
Ou você prefere ter sua carne derretida ?

...por JORGE ROCHA...

A Curtição Do Avacalho: A Nova Piada De Petter Baiestorf!

Tudo o que já foi dito sobre a "Canibal Filmes" e Petter Baiestorf é verdade! Todas as mais de 100 produções totalmente artesanais e undergrounds em conceito, conteúdo e forma, existem! O livro "Manifesto Canibal" também existe, esse que é o verdadeiro grito de revolta dos videastas experimentais tupiniquins! O espírito do faça você mesmo ainda existe, o punk no cinema, ou melhor: os canibais continuam fazendo "Sinema", sim sim sim ... KANIBARU SINEMA!

Antes de se aventurar à assistir este novo capítulo na saga do vídeo udigrudi "Made In Palmitos" eu preciso te alertar, esqueça "O Monstro Legume do Espaço", "Eles Comem Sua Carne", "Raiva" ou "Zombio"! O que se esperava do tal "remake" do clássico absoluto do cinema (de bom gosto) anos 70 de fantástico, gore, trash (ou seja lá o que for) "The Incredible Melting Man/O Incrível Homem Que Derreteu", foi totalmente derretido aqui! Ai é que reside todo o barato, após anos vendo e re-vendo todos os filmes possíveis da Canibal, eu esperava algo totalmente direcionado ao gore vagabundo e divertido mas quebrei a cara!

Petter Baiestorf passou por uma verdadeira metamorfose (ou metástase, se preferir) desde seu primeiro fanzine "Arghhh" e seu inacreditavelmente tôsco e primitivo "Criaturas Hediondas" (1993)! Tudo o que era proposto desde o início se encontra em "A Curtição do Avacalho" sim ... mas o problema é exatamente esse, afinal de contas o que foi proposto no início?????????? NADA !!! TUDO !!! E principalmente, fazer o que for possível, com a equipe existente e com todo o (pouquíssimo) dinheiro disponível! Junte amigos, cervejas e muita (boa) vontade e disposição pra se fazer filminhos em vhs podrão, é isso que é a "Canibal Filmes"!

No início as influências de "mestres" como Ed. Wood Jr. eram gritantes! Os filminhos classe "Z" anos 50 estavam ali (elevados à milésima potência), com suas calotas de automóveis como discos voadores, penduradas em fios de linha de anzol! Existia o espírito quase que "inocente" e puramente juvenil! Mas a falta de satisfação com o sistema estava presente, nem que apenas no epílogo, mas estava lá, pra justificar tudo!

Bem, como a cada dia que passamos vamos mudando como pessoas e nossa visão de mundo vai se modificando também, eis que uma virada acontece! Ai o discurso anarquista toma conta de "O Monstro Legume do Espaço" (1995)! Somente os mais relapsos e desapercebidos não param pra refletir nas muitas vezes sábias palavras do vegetal alienígena! Como esperar maior senso de racionalidade de alguém??? Mas ai é que reside o problema, quanto mais se sabe menos se acredita, e o tal do monstro se vê obrigado à exterminar tudo e todos, é ai que o festival de gore debochado e absurdo toma conta do filme!

Seguem-se os anos, muito sangue e tripas (falsos), deboche (verdadeiro) e rock puramente underground e de garagem! Entra e sai de "astros" e uma nova fase chega, é a tal fase dos "sexploitaitions kanibarus", filmes como "Bondage" (1996/97), "S.B.A.F" (1998) e "G.G.G" (1998) fazem qualquer mortal torcer o nariz ou vibrar de euforia! É amar ou odiar!

Mas como todos precisam pagar suas contas, uma "retomada" ao velho espírito juvenil se revela em "Zombio" (1990), "Raiva" (2001) e até mesmo em "Cerveja Atômica" (2003), apesar de que NENHUM destes filmes (ou de qualquer outro) ter dado retorno algum! Talvez daqui uns 30 anos os garotos de 2036 estejam estudando os filmes do Baiestorf em universidades pois é típico do ser humano esse tipo de atitude!

Mas qual o motivo de você estar tendo de ler tudo isso pois afinal todos já sabem esta história de cor né verdade??? Muito simples!!! Se você não conhecer e entender esta história toda você vai ficar completamente perdido no meio de "A Curtição do Avacalho" (2005/2006), o filme mais "baiestorfiano" de Petter Baistorf!

O filme começa mesmo como uma versão primitiva do "Melting Man", mas esqueça isso! Já era ... ! O que se vê aqui esta mais fácil de ser encontrado em "Super Chacrinha", "Vai Tomá No Orifício Pomposo", "Não Há Encenação Hoje", "Frade Fraude vs O Olho Da Razão" e por ai vai ... misture todo o lado debochado, cínico, marginal e experimental destas produções e todo o discurso do "Manifesto Canibal" que chegamos nesse "A Curtição do Avacalho"!

Aqui não existe estética, não existe linearidade (coisa que praticamente nenhum filme do Petter tem)! O que existe é muita provocação à tua consciência de ser humano, brasileiro, "Séc. XXI onista" cara! Afinal de contas, se você pensa você precisa discutir com o mundo as tuas idéias! Se você tem algo à dizer diga! Se em meio à 100 pessoas UMA te escutar e entender a tua mensagem a revolução já esta começando! Mas que revolução é essa? Não é essa merda de pegar armas e sair às ruas matando gente, a verdadeira revolução é a revolução do pensamento, a quebra dos velhos conceitos e julgamentos! Como é dito no filme: "para que o ser humano possa ser realmente livre precisamos começar destruindo todos os relógios e queimando todos os calendários" ... claro que isso é uma metáfora, mas há muita profundidade nisso! Zumbis estão presentes por todos os 73 minutos do filme, mas NÃO são os zumbis do "Zombio", são os "zumbis-povo", zumbis que sentam à mesa, que pegam a roupa no varal, ou seja, zumbis como eu e você, zumbis como eu e você somos e vamos continuar sendo se não pararmos para repensar nossas vidas!

A parte técnica "sofreu" uma melhora considerável (ponto pro Gurcius Gewdner, que fez a bela, artesanal e caseira edição em computador do filme)! Após anos de espera a Canibal estréia no formato digital, com direito até aos tais extras! Sim, você vai poder ver esta tralha em seu aparelho de DVD, e quem sabe assim você o empreste ao teu visinho no meio de seus dvds da Hammer quando ele te pedir algum filme de terror emprestado?!?!?!

As "participações" são as mesmas de sempre, Coffin Souza, Elio Copini, Ivan Pohl, Everson Schutz, C.B. Rot e o próprio Baiestorf (os seis canibais que estão mantendo a produtora ainda viva após treze anos)! Temos também a presença mais que bem vinda de "Kika"! Pra quem viu ela no "Cerveja Atômica" e já tinha se encantado pela moça, espera só até ver a participação dela neste aqui! Em relação às songs, particularmente eu curti muito o som de Johnny Cash, The 5,6,7,8's e The Animals, mas a trilha está bem eclética desta vez, tem sons pra todo tipo de gosto roqueiro (hehehehe)!

Bom, acho q já falei demais! Então resumindo, é a mesma piada outra vez, contada de forma diferente, digitalmente e com mais calos nos fotogramas do velho vhs podrão! Mas você precisa ver isso, nem que seja pra chegar na última cena e entender o que realmente pretendia ser dito com esse filme ... a cena final diz tanto quanto os outros 73 minutos anteriores! Veja logo, pegue em DVD (o endereço está aqui no site), empreste ao teu vizinho e tente conhecer outros tipos de filmes! Continue alugando filmes na locadora do bairro, mas também tente ver filmes feitos em épocas, lugares e estilos diferentes (não fique somente na seção dos lançamentos)! O cinema não é só Spielberg e Hollywood! O cinema é a magia de se "guardar imagens em movimento" ... o resto, bem, o resto é apenas uma questão de gosto pessoal!

Longa vida ao Kanibaru Sinema!

...por JONAS COSTA...

Sinema Canibal: Entrevistamos Petter Baiestorf, o guru do cinema underground nacional .


Entrevista originalmente publicada no site Open Head

Sim, existe cinema underground no Brasil e, acredite se quiser, ele está em franca expansão com o aparecimento de novas produtoras independentes que realizam filmes inovadores com baixíssimo orçamento.

Um dos grandes responsáveis pela propagação desse cinema marginal e subversivo é o catarinense Petter Baiestorf, que em seu currículo tem mais de cem produções em catorze anos de carreira. Sua produtora, a Canibal Filmes, é pioneira na arte dos filmes gore e está em atividade desde 1992, tendo no catálogo clássicos alternativos nacionais, como O Monstro Legume Do Espaço, Vai tomar no Orifício Pomposo I e 2, entre outros.

Baiestorf também é responsável pelo livro Manifesto Canibal, um guia para novatos que desejem se arriscar no underground cinematográfico e prepara-se para lançar mais um longa-metragem intitulado A Curtição do Avacalho que tem previsão para sair ainda esse ano.

Em entrevista ao Portal Open Head, Baiestorf falou sobre seus novos projetos, o cenário do cinema alternativo hoje no país, entre outras coisas. O espírito do faça você mesmo ainda existe, o punk no cinema, ou melhor: os canibais continuam fazendo Sinema, Kanibaru Sinema!


Para muitos você é considerado o guru do “Gore” nacional, tendo na carreira produções lendárias como “Gore Gore Gays”, o polêmico "Deus (O Matador de Sementinhas)" e “Raiva”. Quando começou a se interessar por esse gênero?

Desde sempre. Sempre gostei apenas de horror ou ficção cientifica com sangue denso, com pedaços de tripas e melecas carregadas no deboche. Suspense do tipo católico ou espírita eu nunca tive saco para agüentar. Estou me referindo as porcarias como “O Exorcista” e essas drogas recentes do tipo “O Chamado” versão “japa” ou americana. Mas isso é um gosto pessoal, quem curtir essas drogas deve assisti-las e se sentir feliz com os clichês e ponto final. Mas deixo bem claro que filmes inteligentes são o que me atraem. Hitchcock, por exemplo, sempre realizou suspenses maravilhosos. Apesar que gosto sempre de deixar bem claro que me interesso mesmo é por cinema/vídeo feito com poucos ou nenhum recurso.

Conte um pouco sobre a história da Canibal Filmes. Como surgiu essa produtora pioneira do cinema underground nacional?

Surgiu porque era hora de surgir, alguém tinha que ser o primeiro e, acho, foi a gente... Mas como eu já estou de saco cheio de contar essa história, quem realmente quiser saber como tudo começou, deve ler essa matéria escrita pelo Roberto Caresia que entende muito dos nossos filmes. Me desculpem, mas cada ano que passa tenho menos vontade de falar, eu quero é filmar.

Como é produzir cinema “lado b” no Brasil? Há ainda muitas idéias pré-concebidas contra esse tipo de produção feita com baixíssimo orçamento?

Não sinto mais preconceito nenhum contra meus filmes, parei de me preocupar com isso. Sigo uma máxima: Quem quer assistir que assista, eu mesmo não encho mais o saco de ninguém... Filme é tudo bobagem mesmo (risos).

 

A verba para os filmes sai do seu próprio bolso? Quanto você gasta em média para fazer um filme?

Sim, a grana toda investida na produção dos meus filmes sai do meu próprio bolso, a vida é muito curta para ficar a maior parte do tempo explicando pros outros o que tu quer fazer, então eu simplesmente faço. Meus dois últimos filmes, “Palhaço Triste” e “A Curtição Do Avacalho”, foram editados com os equipamentos da Bulhorgia Produções o que ajudou a baratear ainda mais as produções já que eu e o Gurcius nos tornamos uma espécie de sócios informais. Tenho como editar no meu computador, mas como o Gurcius é muito melhor editor do que eu. Deixo isso na mão dele. Meus orçamentos geralmente são em torno de zero, poucas vezes gastei mais de 2 mil reais num longa. É claro que eu gostaria de produzir um filme com mais grana, mas isso só vai acontecer quando eu tiver grana para isso, até lá vai continuar sendo essas porcarias sem dinheiro algum. Sou punk demais para aceitar caridade.

Nos últimos três anos tem ocorrido um crescimento da cultura underground no país, com o surgimento de novas bandas, busca por um estilo de vida alternativo, etc. Você acha que isso se repercute na divulgação do cinema dito “trash”? Seus filmes têm sido mais procurados?

Meus filmes sempre venderam bem e olha que eu sempre fui meu próprio distribuidor. Na real eu não gosto de ninguém dando idéias nas minhas coisas e o risco disso talvez seja o de ficar à margem de tudo sempre, mas quem se importa? Os produtores brasileiros estarão com uma produção grande e mais bem acabada daqui mais uns dez anos, independente de qualquer política do governo brasileiro, a gente é muito mais forte do que qualquer governo porque somos livres. Por enquanto tudo ainda está se estruturando.

"Lixo Cerebral Vindo de Outro Espaço", seu primeiro filme, ficou inacabado. Você não tem vontade de terminá-lo?

Na verdade ele foi acabado em 1993 e se chama “Criaturas Hediondas”, é um longa com um ritmo irregular, lá por 2008 vou lançá-lo em DVD com material extra e outras coisas. Foi bom realizá-lo na época, serviu para aprender que se eu quero algo eu tenho que me virar, as coisas não aparecem na tua frente de graça.

Até sete anos atrás poucos eram os que se arriscavam em produções independentes no Brasil. Faltava interesse e informação. Qual o panorama do cinema underground no país hoje?

Hoje em dia só não faz um filme quem não quer. É barato e os equipamentos são de fácil acesso, não tem desculpa não. Mas lógico, como diria Maurice Blanchot, “A técnica é, pois, a penúria do ser tornada poder do homem, signo decisivo da cultura ocidental”. E digo eu: “Sua mensagem é o que importa, qualidade é coisa de cara reprimido!”. Vai ter cada vez mais guri produzindo seus filmes e cada filminho que sai dos quintais brasileiros é uma “peidada” na cara desses “putinhos” que fazem cinema de milhões no Brasil.

Seu livro “Manifesto Canibal” tem encorajado outras pessoas a se aventurarem pelo cinema alternativo?

Felizmente muitos caras que leram o livro entenderam ele e se sentiram inspirados. O livro vende bem, é uma leitura divertida e, como falo numa parte dele, não pretendemos ser a voz de ninguém, aquilo escrito lá não deve ser seguido como guia, deve ser interpretado e transformado de acordo com sua própria realidade e que façam filmes, escrevam livrinhos, produzam fanzines, poesias, novas bandas, tudo serve de canal para atacar esses sistema cultural, político e religioso sonolento aqui da Terra Brasilis. O resto é discussão “pra” boi intelectual dormir.

 

Qual dos seus mais de 100 filmes lançados foi o maior “sucesso de vendas” pela Canibal?

Meus filmes vendem bem e se pagam. Os longas “O Monstro Legume do Espaço” (1995), “Eles Comem Sua Carne” (1996), “Blerghhh!!!” (1996), “Zombio” (1999) e “Raiva” (2001) venderam bem demais, todos esses renderam umas cinco vezes mais o orçamento gasto na produção. E isso só em VHS já que todos estes títulos aí continuam inéditos em DVD, vou lançá-los no formato DVD daqui a alguns meses apenas. Estou com uma parceria com a Bulhorgia Produções para lançar 20 DVDs com toda minha filmografia, serão todos DVDs com extras e mais de 90 minutos de filmes. Acabamos de lançar o “A Curtição do Avacalho” neste esquema e já está tendo ótimas vendas, bem acima do que a gente esperava.

Você já disse certa vez que não aprecia filmes lineares. Qual o tipo de cinema que te atrai?

Eu gosto de filme bom, gosto de cinema que tenha algo à dizer. Vou citar exemplos, mas gostaria que as pessoas que estão lendo essa entrevista não ficassem presas a estes títulos. Todos do Jodorowsky, todos do Fernando Arrabal, quase todos do Dusan Makavejev, os antigos do John Waters, as experiências visuais do Shuji Terayama, para citar alguns diretores que considero comerciais. Sim, sou radical ao extremo. Mas me divirto mesmo é vendo os filmes do George Kuchar, Mike Kuchar, Tony Conrad, Tohjiro, Ted V. Mikels, Ken Jacobs, Ron Rice, Breer, Brakhage, Jack Smith, Stan Vanderbeek, Kurt Kren, Otto Muehl, Shozin Fukui, Koji Wakamatsu, Robbe-Grillet, Guy Maddin, entre outros mais obscuros.

Que autores influenciam seu trabalho?

Sou influenciado pelos trabalhos iniciais do John Waters. “Mondo Trasho” é uma grande inspiração para mim. George Kuchar e Jack Smith eu descobri depois e sempre foram influencias inconscientes. Jesus Franco, Joe D’Amato, Lloyd Kaufman são outros cineastas que me influenciavam no início. Otto Muehl fez vários filmes que eu gostaria de ter feito, mas agora é tarde, eles já foram feitos. Ivan Cardoso também teve influencia no início. Wakamatsu idem. Jean Rollin. Ozualdo Candeias. Mas acho que a influencia mesmo fica na trindade bebuns debochados: Jack Smith, George Kuchar e Waters (dos curtas até o “desperate Living”).

Mostras como o CineEsquemaNovo e o Sinema Transgressor e Experimental em Debate colaboram para a divulgação do cinema independente no país ou ficam restritas apenas para quem já é do meio?

Essas mostras não atraem um público muito grande. Fica muito restrito ao pessoal que já é do meio. Cine Esquema Novo tem público toda noite, mas é composto quase que exclusivamente de pessoal já ligado ao cinema e o Sinema Transgressor sempre foi um fracasso completo de público. Vou dizer uma coisa, quer divulgar teu filminho vagabundo direito? Então arma uma mostra independente num boteco com bandas undergrounds tocando e enche a cara do pessoal que vai assistir, mesmo porque é “pra” eles comprar os filmes e verem em casa prestando atenção, entende? Sempre que fiz isso coloquei mais de 400 a 500 pessoas assistindo, um número bem superior ao que estes festivais conseguem reunir. Mas é importante continuar existindo esses festivais, eles são importantes, principalmente por serem bastante abertos a todo tipo de filmes feitos aqui no Brasil.

Você está com algum projeto em andamento?

Agora estou divulgando meus dois últimos filmes e filmando um novo longa, “O Monstro Legume do Espaço 2”). Este ano vou filmar 4 longas, pelo menos é o plano. Um eu já lancei, que é o “A Curtição do Avacalho”. Vamos re-lançar meus filmes, um título a cada três meses. O próximo deve ser “O Monstro Legume do Espaço” (1995) para ganhar grana com a segunda parte, entende? Também deve sair a quadrinização do primeiro “Monstro Legume” que todo mundo pede. A marca “Monstro Legume” vende bem e isso 11 anos depois de ter sido criado. Agora resolvi explora-lo comercialmente de uma maneira mais lúcida. A grana que eu conseguir com a marca “Monstro Legume” vira filme experimental ou filme de putaria. Depois devo dirigir uns dois ou três clips para bandas gore grind e punks, ainda não sei certo como será isso já que tudo está sendo acertado com o Gurcius. E mais pro final do ano, eu e Gurcius, vamos sair em turnê por varias cidades brasileiras exibindo “A Curtição do Avacalho” e o “Dia de Ano”, curta do Gurcius Gewdner. Vai ser uma festa.




...por Ronzi Zacchi....

 

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