|
“O tempo dos camponeses rezarem Ave Maria está
de volta !”

“Canibais em pleno século
XXI ?”.
É o que se pergunta padre Carcass (Elio Coppini),
cercado por galinhas, logo no início de A
Curtição do Avacalho, nova
obra do videasta catarinense Petter Baiestorf. Este
vídeo é um libelo que ataca –
de maneira direta, cínica e certeira –
Igreja, Estado e desatentos emburrecidos de plantão.
Em A Curtição do avacalho, vemos pecadores
de uma comunidade rural tendo suas carnes derretidas
como expiação à suas ofensas
cristãs, um exército revolucionário
– de duas pessoas – digladiando-se com
hordas de zumbis putrefatos e um cientista filósofo
ensandecido – como não poderia deixar
de ser – que constrói uma múmia
de Cristo para controlar o mundo.
Qual é o resultado de tanta disparidade reunida
? Uma possível resposta à pergunta –
e também ao questionamento do padre Carcass
– pode remeter à resistência da
Canibal Produções, que conta mais de
dez anos de atividades, realizando obras cult e transgressoras
no circuito underground. A Curtição
do avacalho, antes de ser entretenimento para os fãs
de terror e escatologia – elementos que não
faltam nesta produção – é
um vídeo questionador que pode mexer com os
brios dos puritanos – se é que estes
realmente existem em vez de serem alucinações
consensuais ...
“Quem faz cinema sem dinheiro
tem mais que ir pra puta que pariu mesmo.”
Não espere de A Curtição do avacalho
um vídeo trash nos moldes dos trabalhos anteriores
de Baiestorf. Aqui, ele usa e abusa da metalinguagem,
característica observada nos filmes de Alejandro
Jodorowksy, uma das suas várias influências.
Embora assuma a inspiração, Petter Baiestorf
vocifera que A Curtição do avacalho
está voltado mais para o cinema nacional de
realizadores como Júlio Bressane e Rogério
Sganzerla. Por várias vezes, o foco de desloca
da cena principal e vai atingir toda a equipe de produção,
que não mostra papas na língua na hora
de questionar valores morais, sociais e – por
que não ? – profissionais.
O espectador – este pobre coitado ! –
que tire suas próprias conclusões, ao
ver cenas como a que o personagem Juanito, também
conhecido como Santeria (César Souza), agoniza
após levar um tiro na barriga; ferido mortalmente,
ele despeja, no lugar das tripas, rolos e mais rolos
de VHS.
Outra
cena de destaque é aquela em que o próprio
Baiestorf mastiga DVDs de filmes blockbusters, enquanto
Souza recita o poema 2005 foi outro ano ruim:
Se
masturbando com inocência virginal,
Ejaculando pensando em arte experimental,
Em promessas quebradas pela industria artesanal
transformada em jorros de merda industrial.
Cuspir
palavras ao vento
Pelo simples prazer de cuspi-las.
Juras de amor à arte
Ditas sem a importância da sinceridade.
E
proibiram a criatividade!!!
E aniquilaram a ousadia!!!
Não pensar para melhor consumir!!!
Salve
salve os produtos descartáveis!!!
salve salve os produtos descartáveis!!!
salve salve os produtos descartáveis!!!
Salve salve os produtos descartáveis!!!
As
intervenções metalingüísticas
não param por aqui. Pontuando todo o vídeo,
estas dão novos contornos à narrativa,
abordando a morte do cinema, a dificuldade de se pensar
artisticamente em terra brasilis e até mesmo
avacalhando com o espectador. A Curtição
do avacalho é uma piada que deu certo; ria
junto com Baiestorf e sua trupe, mesmo que seja um
risinho amarelado.
Ou você prefere ter sua carne derretida ?
...por
JORGE ROCHA...

A
Curtição Do Avacalho: A Nova Piada De
Petter Baiestorf!
Tudo
o que já foi dito sobre a "Canibal Filmes"
e Petter Baiestorf é verdade! Todas as mais
de 100 produções totalmente artesanais
e undergrounds em conceito, conteúdo e forma,
existem! O livro "Manifesto Canibal" também
existe, esse que é o verdadeiro grito de revolta
dos videastas experimentais tupiniquins! O espírito
do faça você mesmo ainda existe, o punk
no cinema, ou melhor: os canibais continuam fazendo
"Sinema", sim sim sim ... KANIBARU SINEMA!
Antes
de se aventurar à assistir este novo capítulo
na saga do vídeo udigrudi "Made In Palmitos"
eu preciso te alertar, esqueça "O Monstro
Legume do Espaço", "Eles Comem Sua
Carne", "Raiva" ou "Zombio"!
O que se esperava do tal "remake" do clássico
absoluto do cinema (de bom gosto) anos 70 de fantástico,
gore, trash (ou seja lá o que for) "The
Incredible Melting Man/O Incrível Homem Que
Derreteu", foi totalmente derretido aqui! Ai
é que reside todo o barato, após anos
vendo e re-vendo todos os filmes possíveis
da Canibal, eu esperava algo totalmente direcionado
ao gore vagabundo e divertido mas quebrei a cara!
Petter
Baiestorf passou por uma verdadeira metamorfose (ou
metástase, se preferir) desde seu primeiro
fanzine "Arghhh" e seu inacreditavelmente
tôsco e primitivo "Criaturas Hediondas"
(1993)! Tudo o que era proposto desde o início
se encontra em "A Curtição do Avacalho"
sim ... mas o problema é exatamente esse, afinal
de contas o que foi proposto no início??????????
NADA !!! TUDO !!! E principalmente, fazer o que for
possível, com a equipe existente e com todo
o (pouquíssimo) dinheiro disponível!
Junte amigos, cervejas e muita (boa) vontade e disposição
pra se fazer filminhos em vhs podrão, é
isso que é a "Canibal Filmes"!
No início as influências de "mestres"
como Ed. Wood Jr. eram gritantes! Os filminhos classe
"Z" anos 50 estavam ali (elevados à
milésima potência), com suas calotas
de automóveis como discos voadores, penduradas
em fios de linha de anzol! Existia o espírito
quase que "inocente" e puramente juvenil!
Mas a falta de satisfação com o sistema
estava presente, nem que apenas no epílogo,
mas estava lá, pra justificar tudo!
Bem,
como a cada dia que passamos vamos mudando como pessoas
e nossa visão de mundo vai se modificando também,
eis que uma virada acontece! Ai o discurso anarquista
toma conta de "O Monstro Legume do Espaço"
(1995)! Somente os mais relapsos e desapercebidos
não param pra refletir nas muitas vezes sábias
palavras do vegetal alienígena! Como esperar
maior senso de racionalidade de alguém??? Mas
ai é que reside o problema, quanto mais se
sabe menos se acredita, e o tal do monstro se vê
obrigado à exterminar tudo e todos, é
ai que o festival de gore debochado e absurdo toma
conta do filme!
Seguem-se
os anos, muito sangue e tripas (falsos), deboche (verdadeiro)
e rock puramente underground e de garagem! Entra e
sai de "astros" e uma nova fase chega, é
a tal fase dos "sexploitaitions kanibarus",
filmes como "Bondage" (1996/97), "S.B.A.F"
(1998) e "G.G.G" (1998) fazem qualquer mortal
torcer o nariz ou vibrar de euforia! É amar
ou odiar!
Mas
como todos precisam pagar suas contas, uma "retomada"
ao velho espírito juvenil se revela em "Zombio"
(1990), "Raiva" (2001) e até mesmo
em "Cerveja Atômica" (2003), apesar
de que NENHUM destes filmes (ou de qualquer outro)
ter dado retorno algum! Talvez daqui uns 30 anos os
garotos de 2036 estejam estudando os filmes do Baiestorf
em universidades pois é típico do ser
humano esse tipo de atitude!
Mas
qual o motivo de você estar tendo de ler tudo
isso pois afinal todos já sabem esta história
de cor né verdade??? Muito simples!!! Se você
não conhecer e entender esta história
toda você vai ficar completamente perdido no
meio de "A Curtição do Avacalho"
(2005/2006), o filme mais "baiestorfiano"
de Petter Baistorf!
O
filme começa mesmo como uma versão primitiva
do "Melting Man", mas esqueça isso!
Já era ... ! O que se vê aqui esta mais
fácil de ser encontrado em "Super Chacrinha",
"Vai Tomá No Orifício Pomposo",
"Não Há Encenação
Hoje", "Frade Fraude vs O Olho Da Razão"
e por ai vai ... misture todo o lado debochado, cínico,
marginal e experimental destas produções
e todo o discurso do "Manifesto Canibal"
que chegamos nesse "A Curtição
do Avacalho"!
Aqui
não existe estética, não existe
linearidade (coisa que praticamente nenhum filme do
Petter tem)! O que existe é muita provocação
à tua consciência de ser humano, brasileiro,
"Séc. XXI onista" cara! Afinal de
contas, se você pensa você precisa discutir
com o mundo as tuas idéias! Se você tem
algo à dizer diga! Se em meio à 100
pessoas UMA te escutar e entender a tua mensagem a
revolução já esta começando!
Mas que revolução é essa? Não
é essa merda de pegar armas e sair às
ruas matando gente, a verdadeira revolução
é a revolução do pensamento,
a quebra dos velhos conceitos e julgamentos! Como
é dito no filme: "para que o ser humano
possa ser realmente livre precisamos começar
destruindo todos os relógios e queimando todos
os calendários" ... claro que isso é
uma metáfora, mas há muita profundidade
nisso! Zumbis estão presentes por todos os
73 minutos do filme, mas NÃO são os
zumbis do "Zombio", são os "zumbis-povo",
zumbis que sentam à mesa, que pegam a roupa
no varal, ou seja, zumbis como eu e você, zumbis
como eu e você somos e vamos continuar sendo
se não pararmos para repensar nossas vidas!
A
parte técnica "sofreu" uma melhora
considerável (ponto pro Gurcius Gewdner, que
fez a bela, artesanal e caseira edição
em computador do filme)! Após anos de espera
a Canibal estréia no formato digital, com direito
até aos tais extras! Sim, você vai poder
ver esta tralha em seu aparelho de DVD, e quem sabe
assim você o empreste ao teu visinho no meio
de seus dvds da Hammer quando ele te pedir algum filme
de terror emprestado?!?!?!
As
"participações" são
as mesmas de sempre, Coffin Souza, Elio Copini, Ivan
Pohl, Everson Schutz, C.B. Rot e o próprio
Baiestorf (os seis canibais que estão mantendo
a produtora ainda viva após treze anos)! Temos
também a presença mais que bem vinda
de "Kika"! Pra quem viu ela no "Cerveja
Atômica" e já tinha se encantado
pela moça, espera só até ver
a participação dela neste aqui! Em relação
às songs, particularmente eu curti muito o
som de Johnny Cash, The 5,6,7,8's e The Animals, mas
a trilha está bem eclética desta vez,
tem sons pra todo tipo de gosto roqueiro (hehehehe)!
Bom,
acho q já falei demais! Então resumindo,
é a mesma piada outra vez, contada de forma
diferente, digitalmente e com mais calos nos fotogramas
do velho vhs podrão! Mas você precisa
ver isso, nem que seja pra chegar na última
cena e entender o que realmente pretendia ser dito
com esse filme ... a cena final diz tanto quanto os
outros 73 minutos anteriores! Veja logo, pegue em
DVD (o endereço está aqui no site),
empreste ao teu vizinho e tente conhecer outros tipos
de filmes! Continue alugando filmes na locadora do
bairro, mas também tente ver filmes feitos
em épocas, lugares e estilos diferentes (não
fique somente na seção dos lançamentos)!
O cinema não é só Spielberg e
Hollywood! O cinema é a magia de se "guardar
imagens em movimento" ... o resto, bem, o resto
é apenas uma questão de gosto pessoal!
Longa
vida ao Kanibaru Sinema!
...por
JONAS COSTA...

Sinema
Canibal: Entrevistamos
Petter Baiestorf, o guru do cinema underground nacional
.
Entrevista originalmente publicada no site Open
Head
Sim,
existe cinema underground no Brasil e, acredite se
quiser, ele está em franca expansão
com o aparecimento de novas produtoras independentes
que realizam filmes inovadores com baixíssimo
orçamento.
Um
dos grandes responsáveis pela propagação
desse cinema marginal e subversivo é o catarinense
Petter Baiestorf, que em seu currículo tem
mais de cem produções em catorze anos
de carreira. Sua produtora, a Canibal Filmes, é
pioneira na arte dos filmes gore e está em
atividade desde 1992, tendo no catálogo clássicos
alternativos nacionais, como O Monstro Legume Do Espaço,
Vai tomar no Orifício Pomposo I e 2, entre
outros.
Baiestorf também é responsável
pelo livro Manifesto Canibal, um guia para novatos
que desejem se arriscar no underground cinematográfico
e prepara-se para lançar mais um longa-metragem
intitulado A Curtição do Avacalho que
tem previsão para sair ainda esse ano.
Em entrevista ao Portal Open Head,
Baiestorf falou sobre seus novos projetos, o cenário
do cinema alternativo hoje no país, entre outras
coisas. O espírito do faça você
mesmo ainda existe, o punk no cinema, ou melhor: os
canibais continuam fazendo Sinema, Kanibaru Sinema!
Para muitos você é considerado
o guru do “Gore” nacional, tendo na carreira
produções lendárias como “Gore
Gore Gays”, o polêmico "Deus (O Matador
de Sementinhas)" e “Raiva”. Quando
começou a se interessar por esse gênero?
Desde
sempre. Sempre gostei apenas de horror ou ficção
cientifica com sangue denso, com pedaços de
tripas e melecas carregadas no deboche. Suspense do
tipo católico ou espírita eu nunca tive
saco para agüentar. Estou me referindo as porcarias
como “O Exorcista” e essas drogas recentes
do tipo “O Chamado” versão “japa”
ou americana. Mas isso é um gosto pessoal,
quem curtir essas drogas deve assisti-las e se sentir
feliz com os clichês e ponto final. Mas deixo
bem claro que filmes inteligentes são o que
me atraem. Hitchcock, por exemplo, sempre realizou
suspenses maravilhosos. Apesar que gosto sempre de
deixar bem claro que me interesso mesmo é por
cinema/vídeo feito com poucos ou nenhum recurso.
Conte
um pouco sobre a história da Canibal Filmes.
Como surgiu essa produtora pioneira do cinema underground
nacional?
Surgiu
porque era hora de surgir, alguém tinha que
ser o primeiro e, acho, foi a gente... Mas como eu
já estou de saco cheio de contar essa história,
quem realmente quiser saber como tudo começou,
deve ler essa
matéria escrita pelo Roberto
Caresia que entende muito dos nossos filmes. Me desculpem,
mas cada ano que passa tenho menos vontade de falar,
eu quero é filmar.
Como
é produzir cinema “lado b” no Brasil?
Há ainda muitas idéias pré-concebidas
contra esse tipo de produção feita com
baixíssimo orçamento?
Não sinto mais preconceito
nenhum contra meus filmes, parei de me preocupar com
isso. Sigo uma máxima: Quem quer assistir que
assista, eu mesmo não encho mais o saco de
ninguém... Filme é tudo bobagem mesmo
(risos).
A
verba para os filmes sai do seu próprio bolso?
Quanto você gasta em média para fazer
um filme?
Sim,
a grana toda investida na produção dos
meus filmes sai do meu próprio bolso, a vida
é muito curta para ficar a maior parte do tempo
explicando pros outros o que tu quer fazer, então
eu simplesmente faço. Meus dois últimos
filmes, “Palhaço Triste” e “A
Curtição Do Avacalho”, foram editados
com os equipamentos da Bulhorgia Produções
o que ajudou a baratear ainda mais as produções
já que eu e o Gurcius nos tornamos uma espécie
de sócios informais. Tenho como editar no meu
computador, mas como o Gurcius é muito melhor
editor do que eu. Deixo isso na mão dele. Meus
orçamentos geralmente são em torno de
zero, poucas vezes gastei mais de 2 mil reais num
longa. É claro que eu gostaria de produzir
um filme com mais grana, mas isso só vai acontecer
quando eu tiver grana para isso, até lá
vai continuar sendo essas porcarias sem dinheiro algum.
Sou punk demais para aceitar caridade.
Nos
últimos três anos tem ocorrido um crescimento
da cultura underground no país, com o surgimento
de novas bandas, busca por um estilo de vida alternativo,
etc. Você acha que isso se repercute na divulgação
do cinema dito “trash”? Seus filmes têm
sido mais procurados?
Meus filmes sempre venderam bem e
olha que eu sempre fui meu próprio distribuidor.
Na real eu não gosto de ninguém dando
idéias nas minhas coisas e o risco disso talvez
seja o de ficar à margem de tudo sempre, mas
quem se importa? Os produtores brasileiros estarão
com uma produção grande e mais bem acabada
daqui mais uns dez anos, independente de qualquer
política do governo brasileiro, a gente é
muito mais forte do que qualquer governo porque somos
livres. Por enquanto tudo ainda está se estruturando.
"Lixo
Cerebral Vindo de Outro Espaço", seu primeiro
filme, ficou inacabado. Você não tem
vontade de terminá-lo?
Na verdade ele foi acabado em 1993
e se chama “Criaturas Hediondas”, é
um longa com um ritmo irregular, lá por 2008
vou lançá-lo em DVD com material extra
e outras coisas. Foi bom realizá-lo na época,
serviu para aprender que se eu quero algo eu tenho
que me virar, as coisas não aparecem na tua
frente de graça.
Até
sete anos atrás poucos eram os que se arriscavam
em produções independentes no Brasil.
Faltava interesse e informação. Qual
o panorama do cinema underground no país hoje?
Hoje em dia só não faz
um filme quem não quer. É barato e os
equipamentos são de fácil acesso, não
tem desculpa não. Mas lógico, como diria
Maurice Blanchot, “A técnica é,
pois, a penúria do ser tornada poder do homem,
signo decisivo da cultura ocidental”. E digo
eu: “Sua mensagem é o que importa, qualidade
é coisa de cara reprimido!”. Vai ter
cada vez mais guri produzindo seus filmes e cada filminho
que sai dos quintais brasileiros é uma “peidada”
na cara desses “putinhos” que fazem cinema
de milhões no Brasil.
Seu
livro “Manifesto Canibal” tem encorajado
outras pessoas a se aventurarem pelo cinema alternativo?
Felizmente muitos caras que leram
o livro entenderam ele e se sentiram inspirados. O
livro vende bem, é uma leitura divertida e,
como falo numa parte dele, não pretendemos
ser a voz de ninguém, aquilo escrito lá
não deve ser seguido como guia, deve ser interpretado
e transformado de acordo com sua própria realidade
e que façam filmes, escrevam livrinhos, produzam
fanzines, poesias, novas bandas, tudo serve de canal
para atacar esses sistema cultural, político
e religioso sonolento aqui da Terra Brasilis. O resto
é discussão “pra” boi intelectual
dormir.
Qual
dos seus mais de 100 filmes lançados foi o
maior “sucesso de vendas” pela Canibal?
Meus filmes vendem bem e se pagam.
Os longas “O Monstro Legume do Espaço”
(1995), “Eles Comem Sua Carne” (1996),
“Blerghhh!!!” (1996), “Zombio”
(1999) e “Raiva” (2001) venderam bem demais,
todos esses renderam umas cinco vezes mais o orçamento
gasto na produção. E isso só
em VHS já que todos estes títulos aí
continuam inéditos em DVD, vou lançá-los
no formato DVD daqui a alguns meses apenas. Estou
com uma parceria com a Bulhorgia Produções
para lançar 20 DVDs com toda minha filmografia,
serão todos DVDs com extras e mais de 90 minutos
de filmes. Acabamos de lançar o “A Curtição
do Avacalho” neste esquema e já está
tendo ótimas vendas, bem acima do que a gente
esperava.
Você
já disse certa vez que não aprecia filmes
lineares. Qual o tipo de cinema que te atrai?
Eu gosto de filme bom, gosto de cinema
que tenha algo à dizer. Vou citar exemplos,
mas gostaria que as pessoas que estão lendo
essa entrevista não ficassem presas a estes
títulos. Todos do Jodorowsky, todos do Fernando
Arrabal, quase todos do Dusan Makavejev, os antigos
do John Waters, as experiências visuais do Shuji
Terayama, para citar alguns diretores que considero
comerciais. Sim, sou radical ao extremo. Mas me divirto
mesmo é vendo os filmes do George Kuchar, Mike
Kuchar, Tony Conrad, Tohjiro, Ted V. Mikels, Ken Jacobs,
Ron Rice, Breer, Brakhage, Jack Smith, Stan Vanderbeek,
Kurt Kren, Otto Muehl, Shozin Fukui, Koji Wakamatsu,
Robbe-Grillet, Guy Maddin, entre outros mais obscuros.
Que
autores influenciam seu trabalho?
Sou influenciado pelos trabalhos iniciais
do John Waters. “Mondo Trasho” é
uma grande inspiração para mim. George
Kuchar e Jack Smith eu descobri depois e sempre foram
influencias inconscientes. Jesus Franco, Joe D’Amato,
Lloyd Kaufman são outros cineastas que me influenciavam
no início. Otto Muehl fez vários filmes
que eu gostaria de ter feito, mas agora é tarde,
eles já foram feitos. Ivan Cardoso também
teve influencia no início. Wakamatsu idem.
Jean Rollin. Ozualdo Candeias. Mas acho que a influencia
mesmo fica na trindade bebuns debochados: Jack Smith,
George Kuchar e Waters (dos curtas até o “desperate
Living”).
Mostras
como o CineEsquemaNovo e o Sinema Transgressor e Experimental
em Debate colaboram para a divulgação
do cinema independente no país ou ficam restritas
apenas para quem já é do meio?
Essas
mostras não atraem um público muito
grande. Fica muito restrito ao pessoal que já
é do meio. Cine Esquema Novo tem público
toda noite, mas é composto quase que exclusivamente
de pessoal já ligado ao cinema e o Sinema Transgressor
sempre foi um fracasso completo de público.
Vou dizer uma coisa, quer divulgar teu filminho vagabundo
direito? Então arma uma mostra independente
num boteco com bandas undergrounds tocando e enche
a cara do pessoal que vai assistir, mesmo porque é
“pra” eles comprar os filmes e verem em
casa prestando atenção, entende? Sempre
que fiz isso coloquei mais de 400 a 500 pessoas assistindo,
um número bem superior ao que estes festivais
conseguem reunir. Mas é importante continuar
existindo esses festivais, eles são importantes,
principalmente por serem bastante abertos a todo tipo
de filmes feitos aqui no Brasil.

Você
está com algum projeto em andamento?
Agora estou divulgando meus dois últimos
filmes e filmando um novo longa, “O Monstro
Legume do Espaço 2”). Este ano vou filmar
4 longas, pelo menos é o plano. Um eu já
lancei, que é o “A Curtição
do Avacalho”. Vamos re-lançar meus filmes,
um título a cada três meses. O próximo
deve ser “O Monstro Legume do Espaço”
(1995) para ganhar grana com a segunda parte, entende?
Também deve sair a quadrinização
do primeiro “Monstro Legume” que todo
mundo pede. A marca “Monstro Legume” vende
bem e isso 11 anos depois de ter sido criado. Agora
resolvi explora-lo comercialmente de uma maneira mais
lúcida. A grana que eu conseguir com a marca
“Monstro Legume” vira filme experimental
ou filme de putaria. Depois devo dirigir uns dois
ou três clips para bandas gore grind e punks,
ainda não sei certo como será isso já
que tudo está sendo acertado com o Gurcius.
E mais pro final do ano, eu e Gurcius, vamos sair
em turnê por varias cidades brasileiras exibindo
“A Curtição do Avacalho”
e o “Dia de Ano”, curta do Gurcius Gewdner.
Vai ser uma festa.

...por
Ronzi Zacchi....
VOLTAR
|