John Waters - O Príncipe do Vômito

Chega um momento na vida de alguns apreciadores de cinema - aqueles com um mínimo de senso crítico - em que se reconhecem as fórmulas empregadas pela indústria cinematográfica para a produção de sucessos. Os desfechos se tornam previsíveis, os clichês são facilmente identificáveis e a própria estrutura do roteiro fica evidente. Em momentos como esses, o cinéfilo desiludido pode ser levado a acreditar que as novidades se esgotaram, que tudo já foi feito e que seria melhor dedicar-se a atividades mais construtivas, como reler algum velho clássico da literatura.

Encontrava-me justamente nesse estado de mórbido desânimo, achando que já tinha visto de tudo e que nunca mais me surpreenderia com nada, quando caiu em minhas mãos uma cópia em VHS de 'Pink Flamingos'. Esse filme teve sobre mim um impacto que eu não julgava mais possível; refrescou meu espírito cansado e renovou minhas esperanças - não só no cinema, como também na humanidade. Naturalmente, busquei outros trabalhos do mesmo diretor, e o que vi me maravilhou a ponto de me motivar a dar aqui um testemunho sobre esse encontro maravilhoso que tive com John Waters, o Príncipe do Vômito.

Waters nasceu em abril de 1946, na cidade de Baltimore, Maryland. Segundo seus pais, nunca foi um garoto normal, mostrando desde cedo fascínio e atração pelo bizarro, pela violência, e sobretudo pelos vilões. Ainda no ensino primário, montou uma peça de teatro com fantoches, uma adaptação do clássico “The Tingler” de William Castle – com Vincent Price. A peça foi um sucesso na escola e John conseguiu, inclusive, cobrar ingressos, arrecadando U$ 25, uma quantia considerável para um garoto de dez anos com um teatro de fantoches.

Aos 16 anos ganhou uma câmera de seus pais, e em 1964 filmou seu primeiro curta – em 8mm - ‘Hag in a Black Leather Jacket', que mostra o casamento entre um negro e uma branca. O padre é um membro da Ku-Klux-Klan e o noivo comemora a cerimônia carregando a noiva em uma lata de lixo. Dois anos depois, filmou ‘Roman Candles', um trabalho importante não apenas por ser blasfemo, mas por ser a estréia de Divine no cinema.

John Waters em 1972 e 2004

Nesse ponto é necessário fazer um adendo: não é possível falar de John Waters sem falar de Divine, sua maior estrela e protagonista de seus filmes mais importantes. Não, Divine não é uma cantora negra de soul ou R&B, mas uma drag-queen gorda que fez coisas inacreditáveis diante das câmeras. Harris Glen Milstead – Divine – e John se conheceram na escola, em Baltimore, e logo se tornaram amigos, compartilhando os mesmos gostos pelo inusitado e por Elizabeth Taylor. A personagem Divine apareceria em quase todos os filmes a partir de ‘Roman Candles', conquistando o público com seu enorme carisma e dando uma contribuição inestimável não só à carreira de John Waters, como também à história da arte - e porque não, da humanidade.

Voltando aos curtas, eram todos em preto e branco, filmados em 8 ou 16mm. Nessa época, Waters divulgava seus filmes de forma totalmente independente, através de flyers e cartazes que colava pela cidade, além da poderosa propaganda boca-a-boca. Criou uma produtora fictícia para seus filmes, a ‘Dreamland Pictures', composta basicamente por ele e seus amigos. Apesar dos roteiros simples, da edição tosca e das atuações sofríveis, esses primeiros trabalhos já continham todos os elementos que mais tarde consagrariam o cinema de Waters – humor corrosivo, quebra violenta de tabus, inversão de dilemas morais e mau-gosto premeditado.

'Mondo Trasho', 1969
"Oh, Mary! Mary, oh, Mary! Oh, Holy Trinity, oh Mary, OHH!!!"

'Multiple Maniacs', 1970

O trabalho que imortalizou Waters foi seu primeiro longa: de 1972, o lendário ‘Pink Flamingos' – para muitos, o melhor filme de todos os tempos. É difícil falar sobre ele sem revelar suas surpresas ou ser repetitivo; a protagonista da história – Divine - vive escondida em um trailer sob o nome de Babs Johnson, enquanto goza da fama de ser procurada pela polícia e ostenta o título de “A Pessoa Mais Imunda Viva”. Seus inimigos, um casal de pervertidos invejosos, acham que eles é que deveriam ser considerados os mais imundos, e fazem de tudo para tentar destroná-la. Enquanto se desenrola a trama, acontecem as coisas mais absurdas, que naturalmente não revelarei aqui. Por hora, basta dizer que a cena do “músculo cantor” é uma das mais impressionantes já filmadas, bem como a do “lanchinho” no final. Mais do que isso, não ouso falar.

'Pink Flamingos', 1972 - perversões diversas

Tecnicamente, ‘Pink Flamingos' está longe de ser impecável: a fotografia parece aleatória, a edição é bastante rudimentar e a iluminação nem sempre é tão boa quanto poderia ser. Em compensação, a trilha sonora – escolhida a dedo por Waters, de sua coleção de lados B de bandas obscuras dos anos sessenta – é excelente; o roteiro não tem preço, e os atores são ótimos de tão ruins. Segundo o próprio Waters, “Pink Flamingos é todo sobre maconha. Eu estava chapado quando escrevi o roteiro, os atores estavam chapados quando concordaram em participar, e basicamente todos os envolvidos com a produção do filme estavam chapados durante as filmagens.” O leitor não deve se sentir intimidado por essa declaração. Não é preciso estar chapado para apreciar ‘Pink Flamingos'- basta ter um mínimo de sensibilidade e um senso de humor, digamos, diferenciado. Ademais, não é raro que personalidades ilustres usem as drogas para justificar atos bizarros cometidos na mocidade.

'Pink Flamingos', 1972 - escatologia e canibalismo

‘Pink Flamingos' ainda marcou o ingresso oficial de John Waters na indústria do cinema. Naquela época, os filmes ‘underground' passavam à meia-noite, junto com os pornôs. ‘Pink Flamingos', só com a divulgação boca-a-boca, atraiu multidões para as sessões da meia-noite no cinema, de modo que a indústria não pôde ignorá-lo: logo a New Line se propôs a distribuí-lo, e o caminho estava aberto para produções maiores. Waters afirmou em uma entrevista que nunca faria um outro filme nos moldes de ‘Pink Flamingos', talvez por acreditar ser impossível superá-lo; entretanto, os dois que se seguiram – ‘Female Trouble' e ‘Desperate Living' - quase realizam essa proeza.

'Pink Flamingos', 1972 - Um casal invejoso e sabotador, cabelo vermelho e azul, frases de efeito com rimas... Será coincidência a semelhança entre os vilões de 'Pink Flamingos', Connie & Raymond Marble, e os vilões de 'Pokemón', Jessie & James?

‘Female Trouble', de 1974, conta com o mesmo elenco de ‘Pink Flamingos' para os papéis principais: Divine, Mink Stole, Mary Vivian Pearce, Cookie Mueller, David Lochary e Edith Massey. Com o passar dos anos, esses atores - medíocres tecnicamente - tornaram-se as estrelas da Dreamland Pictures, uma equipe a quem Waters sempre foi muito fiel, chamando-os para trabalhar em todos os seus filmes dali por diante. Infelizmente, dessa genial trupe de atores só dois sobreviveram: as veteranas Mink Stole e Mary Vivian Pearce.

‘Female Trouble' conta a história de Dawn Davenport – Divine -, uma garota rebelde que foge de casa na noite de natal porque seus pais não lhe deram os sapatos de salto que tanto queria. Logo após a fuga, deixa-se engravidar por um estranho – também interpretado por Glen.  Passam-se os anos e Dawn torna-se uma go-go-girl de sucesso, arranja um namorado cabeleireiro e comete pequenos crimes para complementar a renda familiar. No entanto, sua sogra – Edith Massey - conspira contra a relação, inconformada com o fato de o filho ser um heterossexual. Em um de seus momentos mais brilhantes, exclama: “Eu ficaria tão feliz se você arranjasse um bom namorado, a vida de um heterossexual é muito triste e deprimente!” O que Dawn não sabia era que sua vida estava prestes a dar uma guinada, e que em breve se tornaria uma super-modelo do crime.

‘Female Trouble' também marca o início da carreira de Divine como cantora, com a música tema do filme, composta pela dupla Waters/Divine. Anos depois, na década de oitenta, Divine gravou vários álbums de disco music que alcançaram relativo sucesso. Foi também o último filme com o genial David Lochary, que até então vinha participando de todos os trabalhos de Waters, como ator, maquiador e assistente de produção. Lochary morreu em julho de 1977, vítima de uma overdose.

'Female Trouble', 1974

O próximo filme de Waters foi ‘Desperate Living', de 1977. Como o título sugere, a protagonista – Peggy Gravel, interpretada por Mink Stole – é uma mulher muito nervosa, recém saída de um manicômio, que se desespera por qualquer coisa. Com o auxílio de sua enfermeira Grizelda, mata o marido e foge para Mortvill, uma cidade governada com mão de ferro pela impiedosa rainha Carlotta – Edith Massey. Em Mortvill, Peggy e Grizelda descobrem o amor e fazem o possível para escapar dos soldados da rainha. Por alguma razão desconhecida, Divine não atua em ‘Desperate Living', mas isso não diminui o valor do filme. Cenas inesquecíveis, como a da lésbica transexual recém operada se castrando com uma tesoura a pedido da amante, ou como o bar para lésbicas com shows de espancamento de homens, fazem de ‘Desperate Living' um dos melhores filmes de Waters.

'Desperate Living', 1977 - sem Divine, mas ainda assim genial; Edith Massey está imperdível no papel de rainha Carlotta

Após um período de inatividade, Waters retorna com um cinema mais comercial e bem produzido, dando início a uma nova fase em sua carreira. ‘Polyester', de 1981, traz Divine como uma mãe de família lutando para salvar seu casamento e seus filhos. Mas as coisas não são fáceis para a pobre Francine, que logo descobre que seu marido tem um caso com a secretária, que sua filha é ninfomaníaca e seu filho, um maníaco pedólatra. As circunstâncias a levam a cair na bebida e chegar ao fundo do poço. Felizmente, com a ajuda de uma amiga - sua ex-empregada que virou milionária - Francine consegue dar a volta por cima. ‘Polyester' é um drama de família/comédia de humor ameno, com acidez moderada e quase nenhuma escatologia, perfeito para toda a família.

'Polyester', de 1981 - um drama de família

‘Hairspray', de 1988, segue a mesma linha, satirizando os programas de televisão da década de cinqüenta. Divine faz dois papéis: o da mãe da protagonista, e o do proprietário das redes de televisão, mostrando-se bem convincente em um papel masculino, como já o tinha feito em ‘Female Trouble'. ‘Hairspray' é o último filme de John Waters com Divine, que morreu no ano de seu lançamento, vítima de um ataque cardíaco. O mundo perdeu muito com a morte Glen Milstead, um dos mais divertidos atores que o mundo já viu.

Para Waters, a vida continuou, e na década de noventa, escreveu e dirigiu três comédias bem conhecidas: ‘Cry-Baby', de 1990, com Johnny Depp; ‘Serial Mom' (lançado no Brasil como ‘Mamãe é de morte'), de 1994, com Kathleen Turner; e ‘Pecker', de 1988, com Christina Ricci. Os três são bons filmes, mas para quem conhece o trabalho de Waters nas décadas de 70 e 80, são um tanto decepcionantes. Um vestígio do velho humor ácido ainda persiste, mas bastante diluído para as massas. Os três foram lançados no Brasil e são facilmente encontrados em locadoras.

‘Cecil B. DeMented' (no Brasil, ‘Cecil Bem Demente'), de 2000, foi um novo divisor de águas na filmografia de Waters. A diferença está na produção; parte dos recursos vieram de um grupo francês, que por certo impôs menos restrições ao roteiro. O resultado é um ótimo filme, em que Waters parece recuperar parte da velha forma. A protagonista, interpretada por Melanie Griffith, é seqüestrada por um grupo terrorista que luta contra o cinema comercial. Juntos, realizam diversos ataques, com destaque para a invasão dos estúdios onde está sendo filmada a continuação de ‘Forrest Gump' – ‘Gump Again'. ‘Cecil B. Demented' tem momentos hilariantes, como quando o cabeleireiro do grupo entra em crise, envergonhado de sua condição heterossexual. O filme pode ser encontrado em locadoras de todo o Brasil.

Agora, todas as atenções estão voltadas para ó novo filme de Waters, ‘A Dirty Shame', com previsão de lançamento para setembro de 2004. De acordo com Mink Stole, uma das últimas sobreviventes da equipe original da Dreamland, esse será um filme que “a minha mãe não gostaria de ver”. Certamente é com isso que todos os fãs de John Waters sonham: um retorno, mesmo que parcial, ao bons tempos de ‘Pink Flamingos'. No entanto, o trailer parece desmentir a declaração de Mink, dando a impressão de ser um filme família. Espero, entretanto, estar enganado. O elenco inclui Tracy Ullman, Chris Isaak e Johnny Knoxville.

'Dirty Shame', 2004 - expectativas altas

É chegado o momento de fazer um APELO ÀS DISTRIBUIDORAS: os títulos mais importantes da filmografia de John Waters nunca foram lançados no Brasil. Qualquer forma de combate à pirataria é inútil enquanto o público não tiver acesso a diversidade a baixo custo. Além disso, os brasileiros merecem, ao menos, ‘Pink Flamingos' legendado em português. Que tal em DVD, nas bancas, a preços módicos? Outros clássicos, como ‘Female Trouble' e ‘Desperate Living', ou mesmo os primeiros curtas, com certeza também seriam bem recebidos pelo público. Portanto, DISTRIBUIDORAS DO BRASIL, aproveitem essa chance para ganhar dinheiro; se ninguém o fizer, os fãs não tem escolha senão continuar conseguindo os filmes de formas ilícitas e gratuitas. Claro que não pretendo aqui ensinar os pescadores a pescar. (...)

Enfim, John Waters é um dos melhores roteiristas e diretores de comédias de todos os tempos, com uma visão pessoal consistente e estilo marcante e inconfundível. Quebrou todos os tabus que encontrou pelo caminho e influenciou cineastas como Almodóvar e Jim Jarmush. Provou a todo o mundo que sempre é possível ir mais longe e que a polêmica pode ser uma boa amiga. Vida longa ao diretor mais imundo vivo!

Tributo às grandes estrelas da Dreamland
Harris Glen Milstead (Divine), 1945 - 1988

Mink Stole - em 1972 e 1998

David Lochary, 1944 - 1977

Mary Vivian Pearce - em 1972 e 1998

Edith Massey, 1918 - 1984 : nos anos 80, talvez seguindo o exemplo de Divine, Edith tentou a sorte como cantora. Lançou um EP com duas músicas, 'Big Girls don´t Cry' e 'Punks get off the grass'.

- J.W.Kielwagen

 

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