Idade das trevas, parte III - Deus Não Dá Risada

Via Lactea de Luís Bunuel

Fernando Arrabal

"A fé salva: logo, ela mente."
Friedrich Nietzsche ( 1844 - 1900)

"O inferno não são os outros, mas os mesmos atrasados de sempre."
Rogério Sganzerla (1946 - 2004)

O Nome da Rosa não possui violência gráfica tão acentuada como os filmes italianos, mas possui momentos de violência explícita, além de um clima leve de surrealismo, com quase todas as cenas preenchidas por barulhos desconfortáveis, principalmente vento - recurso bastante usado nos filmes de Luis Büñuel, Fernando Arrabal, David Lynch, entre outros, para causar uma sensação de estranheza.

Os exemplos mais recentes da utilização deste tipo de clima estão em filmes como Gozu de Takashi Miike ou Donnie Darco, que é sobre um rapaz com dificuldades de se prender à realidade, e que possui um coelho como amigo imaginário. Na Idade Média esse lado sonhador é bastante forte por um lado, já que é muito estreita a ligação entre o mundo espiritual e o mundo terrestre, mas ao mesmo tempo a imaginação é suprimida, fazendo com que por algum tempo os sonhos fossem vistos como nocivos e só privilégio dos reis, nobres e autoridades da Igreja.

"Gozú", de Takashi Miike, na divertida cena do minotauro

Em "Donnie Darko", o protagonista tem como
amigo imaginário esse singelo coelhinho

A figura do demônio era tão crucial quanto a figura de Deus e um praticamente não existiria sem o outro No decorrer de O Nome da Rosa, várias vezes repete-se que o demônio age no mosteiro, parecendo esta explicação mais plausível do que uma ação planejada por mentes humanas. Talvez esta presença constante do demônio sempre pronto para agir e tentar o coração dos mais fracos fosse um dos motivos para que a comédia e o prazer da risada fossem suprimidos da garganta dos mais espirituosos. "Um monge não deve rir. Só os tolos riem à toa!", brada um dos monges em represaria a outros. "O riso é um vento demoníaco que deforma o delineamento do rosto e faz os homens parecerem macacos". De novo a presença do demônio se sobrepondo à razão. Mesmo ao ser desafiado com a afirmação de que o riso é próprio do homem, e macacos não podem rir, o monge mantém sua visão dizendo ser o pecado também uma característica humana. Mas se alegria está ligada ao pecado: qual o sentido da vida se não for pecar à vontade?

A vontade de destruir e agir através de falsas verdades sempre esteve presente nas ações da igreja e da política, não apenas na Idade Média: "O caminho entre a visão elevada e o frenesi pecaminoso é bem curto". Pol Pot do Camboja é um bom exemplo da mistura destas duas características. A figura do demônio no filme é várias vezes comparada à figura da mulher, como um símbolo de tentação e luxúria. "A mulher se apodera da alma do homem". "Mais amargo que a morte é a mulher". Ao se deparar com as sensações angustiantes do amor, Adso (o pupilo Christian Slater) fica sem saber o que fazer e pede conselho a seu mestre que lhe fala de São Tomás de Aquino, do amor a Deus e blá blá blá, mas no fim admite a monotonia de uma vida sem amor.

Tudo em "O nome da rosa" é escuro, com atmosfera sombria, ambientes esfumaçados e miseráveis. Logo no início do filme vemos os monges jogarem montes de restos de comida aos miseráveis, que os devoram com fúria: é quase impossível não fazer uma analogia com o que ocorre, especialmente, no terceiro mundo, onde estas imagens certamente têm uma dimensão diferente e mais próxima da realidade. Em "Santa Sangre" do chileno Alexandro Jodorowsky, um elefante morre e após uma impressionante cerimônia de despedida vemos seu cadáver ser devorado em questão de minutos por centenas de famintos esfarrapados. No filme gaúcho "Ilhas das flores" são mostradas imagens reais de pessoas se alimentando de lixo recusado pelos porcos. Neste elo de ligação entre os três filmes (no caso de Ilha das Flores é mais forte ainda já que se trata de um retrato de verdade e não uma imagem construída poeticamente) fica clara a idéia de que qualquer momento da história poderia ser visto como "Idade das Trevas".

Mas aqueles que trataram de registrar e construir o que conhecemos por "Idade Média", fizeram deste momento em particular uma era de nebulosidade sem paralelos. O protagonista de "O nome da rosa" em determinada cena pergunta a seu pupilo: "Você já conheceu algum lugar onde Deus pudesse se sentir confortável?"

Vivemos numa sociedade baseada unicamente em valores materiais e consumistas, egoísta, excludente e carregada de culpa cristã. Culpa é sinônimo de pecado. Dependendo do contexto social e cultural, o ateísmo não é discriminado, mas que diferença faz? Vive-se com a ilusão de liberdade. Ilusão de democracia. E fartura de conhecimento também ilusória (assim como na Idade Média, um privilégio de poucos). Essa culpa constante foi enraizada durante a Idade Média e a religião cristã mesmo não sendo a prioridade, digamos assim, continua forte como nunca, cultivando a ignorância através dos séculos.

Hoje a escravidão é velada, tudo é disfarçado através da mídia otimista e carola, igreja e políticas diversas. Na Idade Média nada era disfarçado de forma tão hipócrita, a igreja e a realeza dominavam e ponto final. Em Aguirre - a cólera dos deuses de Werner Herzog, vemos espanhóis tentando catequizar os índios e encontrar o El Dorado, um dos personagens afirma: “Deus está do lado mais forte”.

Klaus Kinski sofreu por vários anos da "síndrome de Jesus Cristo".
É um dos atores prediletos de Herzog.

O mais forte...
O "bom" fica a segundo plano e todo aquele que representa uma ameaça ao mais forte precisa ser eliminado. As noções de supremacia do ocidente se criaram e se fortaleceram na Idade Média. Deus se sentiria mais confortável nos tempos de hoje ou na "horrenda" e "cruel" Idade Média? Difícil dizer. É clara a idéia de que qualquer momento da história pode ser visto como "Idade das Trevas", especialmente hoje. Daí vem a eterna rejeição e preconceito para com o Cinema de Horror e independentes em geral: o Horror é o único gênero cinematográfico capaz de expor fraquezas humanas e sociais sem dó nem piedade, sem concessões ou falsas esperanças. O horror fortalece a imagem de Idade das Trevas na Idade Média? Não. Mas fortalece nossa visão crítica para com as trevas que convivemos nos tempos atuais. Os abusos não aconteceram apenas na Idade Média ou com mais intensidade nesse período, eles acontecem agora. O cinema de Horror e de transgressão coloca tudo no celulóide da forma mais crua e simples que pode existir, rasgando as falsas esperanças e mostrando realidades que muitas vezes não estamos preparados pra conhecer. Os filmes de terror sobre Idade Média já nascem como uma forma de consolo, que os próprios realizadores sabem ser falsa, (a maldade e o preconceito são humanos...) de que pode ter havido uma época onde tudo era pior e a ignorância dominava e oprimia, onde monstros disfarçados de padres, santos, sábios e líderes atacavam criancinhas e donzelas indefesas; fazem-nos esquecer, ao menos por duas horas, de que a Idade das Trevas é agora.

- Gurcius Gewdner

LEIA!

BAIESTORF, Petter & SOUZA, César. Manifesto canibal - kanibaru sinema: uma declaração de guerra dos que nada têm e tudo fazem contra os que tudo têm e nada fazem.  Rio de Janeiro: Editora Achiamé, 2003.

BAIESTORF, PETTER. Arghhh. Edições de número 01 ao 31. Palmitos: Canibal Filmes, 1992 - 2002.

CARBONELL, C. Historiografia. Lisboa, Teorema, 1987.

CINE MONSTRO. Edições de número 01 ao 04. Jundiaí: Works Editora, 2003 - 2004.

COLLINGWOOD, R. G. A Idéia de História. 4. ed. Lisboa, Presença, 1978.

FRANCO, H. A Idade Média e o Nascimento do Ocidente. S. Paulo: Brasiliense,1986.

JONES, TERRY. O Livro de Fadas Prensadas de Lady Cottington. Editora: Marco Zero.

LE GOFF, J.,  & SCHMITT, J., COORD.  Dicionário Temático do Ocidente Medieval. Bauru: EDUSC, 2002. 2 v.

MAD. Qualquer edição de qualquer editora. 1952 - 2004.

PERNOUD, R. O Mito da Idade Média. 2.ed. Lisboa, Europa-América, 1977.

PUPPO, EUGENIO & HADDAD, VERA. Cinema marginal e suas fronteiras. São Paulo: Centro cultural do banco do Brasil, 2000.

ASSISTA

Aguirre, a cólera dos deuses. Direção: Werner Herzog. Intérpretes: Klaus Kinski, Ruy Guerra, Helena Rojo e Cecília Riviera. Alemanha, 1972. 95 min. Color. F.J.Lucas/Concorde.

Alucarda. Direção: Juan López Moctezuma. Intérpretes: Cláudio Brook, David Silva, Tina Romero e Susana Kamini. México, 1978. Color. Mondo Macabro.

Black Sabbath, as três máscaras do terror. Direção: Mario bava.Intérpretes: Michele Mercier, Boris Karloff e Jacqueline Pierreux . Itália, 1963. 95 min. Color. London.

Black Sunday, a mascara de satã. Direção: Mario bava.Intérpretes: Bárbara Steele,John Richardson e Andréa Checchi. Itália, 1960. 87 min. Color. London.

Bloody pit of horror. Direção: Massimo Pupilo. Intérpretes: Mickey Hargitay, Walter Brandy e Moa Tahi.USA, 1965.87 min. Color.

Bloodsucking Freaks. Direção: Joel M. Reed. Intérpretes: Seamus O'Brien, VijuKrem e Niles Mcmaster.USA, 1977. 88 min. Color.

Brazil - o filme. Direção: Terry Gilliam. Intérpretes: Jonathan Pryce, Robert De Niro e Ian Holm. Inglaterra, 1985. 131 min. VTI Home Vídeo.

Buquê maldito, El. Direção: Amando De Ossorio. Intérpretes: Maria Perchy e Jack Taylor. Espanha, 1975. 103 min. Color.

Castelo maldito. Direção: Stuart Gordon. Intérpretes: Jeffrey combs, Bárbara Crampton e Jonathan Fuller . EUA, 1995. Color. London.

Caçador de bruxas, O. Direção: Michael Reeves. Intérpretes: Vincent Price, Ian Ogilvy e Robert Russel . Inglaterra, 1968. Color. London.

Donnie Darco. Direção: Richard Kelly. Intérpretes:  Jake Gyllenhaal, Holmes Osborne e Maggie Gyllenhaal . USA, 2001, 113 min.

Fausto. Direção: Friedrich Wilhelm Murnau. Intérpretes: Emil Jannings, Gosta Eckmann e Camilla Horn. Alemanha, 1926. 109 min. P&B. Mudo. Continental.

Gabinete do Dr. Calligari, O . Direção: Robert Wiene. Intérpretes: Werner Kraus eConrad Veidte. Alemanha, 1919. 68 min. P&B. Mudo. Continental.

Gozu. Direção: Takashi Miike. Intérpretes: Hideki Sone e sho Aikawa . Japão, 2003. 130 min.

House of Usher. Direção: Roger Corman. Intérpretes: Vincent price, Mark Damon e Myrna Fahey. USA, 1960. 79 min. Color.

House of wax. Direção: André De toth. Intérpretes: Vincent price, Frank Lovejoy e Charles Bronson. USA, 1953. 90 min. Color.Warner.

Incrível exercito de Brancaleone, O. Direção: Mario Monicelli. Intérpretes: Vittorio Gassman, Catherine Spaak, Gian Maria Volonté e Bárbara Steele. Itália, 1965. 117 min. Color. Hipervídeo.

Ilha das flores Direção: Jorge Furtado. Intérpretes: Julia Barth e Paulo José. Brasil, 1989. 13 min.

Inferno. Direção: Dario Argento. Intérpretes: Leight McCloskey, Irene Miracle e Daria Nicolodi. Itália,1980. 107 min. Color.

Jigoku. Direção: Nobuo Nakagawa. Intérpretes: Shigeru Amachi, Hiroshi Hayashi e Fumiko Miyata. Japão,1960. 100 min. Color.

Life Of Brian. Direção: Terry Gilliam & Terry Jones. Intérpretes: Graham Chapman, John Cleese, Eric Idle, Terry Gilliam e Michael Palim. Inglaterra, 1975. 93 min. VTI Home Vídeo.

Meia noite levarei tua alma, À. Direção: José Mojica Marins. Intérpretes: José Mojica Marins, Magda Mei e Nivaldo Lima. Brasil, 1964. 90 min. P&B. Mundial.

Meaning of Life,The. Direção: Terry Gilliam & Terry Jones. Intérpretes: Graham Chapman, John Cleese, Eric Idle, Terry Gilliam e Michael Palim. Inglaterra, 1983. 107 min.

Monty Python and the Holy Grail. Direção: Terry Gilliam & Terry Jones. Intérpretes: Graham Chapman, John Cleese, Eric Idle, Terry Gilliam e Michael Palim. Inglaterra, 1975. 90 min. VTI Home Vídeo.

Noche de las gaivotas, La. Direção: Amando De Ossorio. Intérpretes: Lone Flemming e Rufino Inglês. Espanha, 1975. 89 min. Color.

Noche del terror ciego, La. Direção: Amando De Ossorio. Intérpretes: Victor Petit eMaria Kosti. Espanha, 1971. 90 min. Color.

Nosferatu. Direção: Friedrich Wilhelm Murnau. Intérpretes: Max Schreck, greta Schroeder e Gustav Von Wangenheim. Alemanha, 1922. 80 min. P&B. Mudo. Continental.

Pit and the pendullum, The. Direção: Roger Corman. Intérpretes: Vincent Price, Barbara Steele e Patrick Westwood. EUA, 1961. 80 min. Color.

Pit and the pendullum, The. Direção: Stuart Gordon.. Intérpretes: Lance Henriksen, Rona DeRicci e Jeffrey Combs. EUA, 1990. 95 min. Color. VTI.

Plague of the zombies, Direção: John Gilling. Intérpretes: André Morell, Diane Clare e Brook Williams. Inglaterra. 1966. 90 min. Color.

Premutos: Lord of the living dead.  Direção: Olaf Ittenbach. Intérpretes: Fidelis Atuma, Anke Fabre, Olaf Ittenbach, Ronald Fuhrmann e Susanne Grüter. Alemanha, 1997. 120 min. Color. Shock-o-rama.

Raven, The. Direção: Roger Corman. Intérpretes: Vincent Price, Boris Karloff, Petter Lorre e Jack Nickolson. USA, 1963. 86 min. Color.

Retorno dos mortos vivos, O. Direção: Amando De Ossorio. Intérpretes: Tony Kendall e Fernando Sancho. Espanha, 1973. 83 min. Color. Visocopy.

Santa Sangre. Direção: Alexandro Jodorowsky. Intérpretes: Axel Jodorowsky, Blanca Guerra e Guy Stockwell. México / Itália, 1989. 123min.

Sétimo selo, O. Direção: Ingmar Bergman. Intérpretes: Max Von Sydow e Gunnar Björnstrand. Suécia, 1957. 102 min. P&B. Continental.

Suspiria. Direção: Dario Argento. Intérpretes: Jéssica Harper, Stefania Casini e Udo Kier. Itália, 1977. 97 min. Color. London.

Tenebrae. Direção: Dario Argento. Intérpretes: Anthony Franciosa, John Saxon e Daria Nicolodi. Itália, 1982. 110min. Color.

Tower of London. Direção: Rowland V. Lee. Intérpretes: Vincent Price, Boris Karloff e Basil Rathbone.. USA, 1939. 92 min. P&B.

Tower of London. Direção: Roger Corman. Intérpretes: Vincent Price, Michael Pate e Joan Freeman.USA, 1962. 79 min. P&B.

Valerie and her weekend of wonders. Direção: Jaromil Jires. Intérpretes: Josef Abrham e Helena Anizova. Tchecoslováquia, 1970. 77 min. Color.

[1] Os massacres de índios capitaneados pelos Cristãos Espanhóis poderiam muito bem colocar a conquista da América como uma época de trevas e horror,e com um teor muito pior do que o da peste.

 

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