A Cegueira Cristã dos Tempos de Brancaleone

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"O riso mata o temor". Assim diz um dos monges em O nome da rosa antes de queimar séculos de conhecimento. E continua: "... e sem temor, não pode haver fé. Porque se não se teme ao demônio não há mais necessidade de Deus. O riso continua sendo a recreação comum do homem. Mas o que acontecerá, se por causa de um livro, homens eruditos declararem permissível rir de tudo? Podemos rir de Deus? O mundo voltaria a cair no caos..." Qual o significado do riso para o homem medieval? E qual a função do Demônio para a preservação das sagradas escrituras da Igreja?  

A comédia, assim como a tragédia, sugere a possibilidade de libertação parcial da condição de queda, e de alívio provisório do estado de tormento em que se encontram os homens neste mundo. Em uma comédia, a queda do protagonista e o abalo do mundo que ele habita, bem como a esperança de um triunfo do homem sobre o mundo, exorcizam o telespectador e de certa forma também matam o demônio; os demônios interiores e os demônios da construção da história.

O riso satírico do Monty Python não é maniqueísta, porque debocha tanto da tragédia quanto da comédia, distorce e caricatura, e assinala com convicção que o mundo envelheceu. Prepara a consciência para o repúdio de todas as conceptualizações rebuscadas do mundo, e prevê o retorno da percepção mítica do mundo e seus processos. O homem não perdeu o medo do riso e o demônio ainda é usado para modelar o medo de Deus. Mas nos tempos de hoje, como o monge de "O nome da rosa" previu, o homem pode rir de tudo, de Deus e do Demônio se ele quiser. Se a natureza de auto-destruição do homem permanece intocada com o passar dos tempos, pelo menos agora existe a possibilidade de uma diversidade maior de escolha sobre o que fazer com o próprio destino.

Mario Bava

A narrativa e estética de "O nome da rosa" tem como principal base o cinema do mestre italiano Mario Bava, que dispensa apresentações. Bava surgiu como um contestador e criador de imagens violentas, eróticas e de terror numa época em que muitos queriam um cinema moralizador, nos moldes que a Igreja encontrou para controlar indivíduos e suprimir idéias: a valorização hipócrita de temas como o amor, família e amizade, sendo que na verdade o que importava era - e ainda é - o lucro e a massificação de pensamentos.

Com uma influência gótica e um toque extremamente pessoal, filmes como La Maschera del Demônio (sobre uma bruxa queimada pela Santa Inquisição que retorna do mundo dos mortos), Black Sabbath e Baron Blood foram algumas das primeiras obras cinematográficas a tratar da Inquisição, uma das obsessões do diretor. Com suas filmagens feitas com muito estilo, e ênfase em métodos sádicos de assassinato e tortura, seus filmes foram pioneiros em um gênero que depois ficaria conhecido como Giallo[1]. Sua influência foi crucial em tudo que foi feito depois em matéria de cinema de suspense, um estilo único de filmar que depois seria aprimorado pelo gênio também italiano Dario Argento, em obras como Suspiria e Inferno. Bava serviu de base para muitos filmes de produção americana como Aliens de Ridley Scott, o universo visual de Tim Burton e a banalização do Giallo em Sexta feira 13. O Nome da Rosa segue a mesma escola. As cenas dos monges perdidos no labirinto lembram muito a clássica cena onde um cego é morto pelo próprio cachorro em Suspiria de Dario Argento, assim como outros momentos do filme que fazem referência a obras de Argento ou Bava. A riqueza visual dos filmes de Bava serviria de base para os filmes da produtora inglesa Hammer Films.

Hammer Filmes

Para qualquer um que tenha crescido assistindo filmes de terror nos anos 60 e 70, o nome Hammer é simplesmente mágico. Este estúdio inglês, a partir de 1957, produziu uma longa série de filmes de horror e ficção cientifica, inicialmente reciclando os monstros clássicos da Universal (Drácula, Frankenstein e Lobisomen). Os filmes da Hammer foram um estrondoso sucesso porque adicionaram cor ao gênero, um maior esmero técnico, pitadas de erotismo e elaboradas partituras musicais; e o principal: praticamente todos os filmes da Hammer se passam na Idade Média, mostrando o quão forte é o estigma de trevas que acompanha os tempos medievais.

Jess Franco

Amando D' OssórioNos anos 70 seria a vez de outro agente macabro da era medieval ilustrar as telas do cinema de horror: Os templários, com fama de estudiosos das ciências ocultas e adeptos de feitiçaria, acompanhada freqüentemente por sacrifícios humanos. A secular e violenta estória dos cavaleiros templários foi a inspiração pela qual o cineasta espanhol Amando de Ossorio teve reconhecido e celebrado o seu nome no seio dos amantes do cinema de horror. Esta série de quatro obras, independentes entre si embora utilizando pressupostos idênticos, introduzia um novo tipo de "monstro" que no celulóide ameaçava a vida dos personagens. Estas criaturas, os "mortos sem olhos", eram na verdade cadáveres mumificados, outrora vigorosos e sangrentos cavaleiros da milícia cristã conhecida como a Ordem dos templários, que, por uma ou outra razão, regressavam agora ao mundo dos vivos para perseguir novas vítimas, assassiná-las de forma brutal, e beber o seu sangue, de forma a poderem prolongar o seu estado de reanimação.

O que torna esta série um perfeito exemplo do cinema gótico europeu, promovido e ilustrado por outros cineastas como Jean Rollin ou Jess Franco, são as suas características sombrias e folclóricas, baseando a origem dos monstros em lendas e fatos, geralmente ignorados pelo publico leigo, que ilustraram a história da Europa medieval. Introduz elementos por si só inquietantes como o ocultismo, as torturas sádicas infligidas pelos templários e o arrepiante aspecto dos mortos-vivos, esqueletos encapuzados montados em cavalos fantasmagóricos, com faces vazias, inexpressivas e ossudas. Um retrato horrendo de um pesadelo. 

Exploitation Movies

Não só de horror estilizado são feitos os filmes sobre a idade média, mas também da mais brutal violência explícita. Bloody pit of horror (1968) é um exemplo típico dos Exploitation movies: filmes feitos com baixo orçamento visando lucro imediato e explorando até a exaustão temas como sexo, drogas, violência e estereótipos. A santa inquisição se tornou um prato cheio para os diretores dos filmes de exploração, que além dos aspectos já citados, tinham como característica a propagando apelativa e muito senso de humor dominando toda a narrativa[2].

O gênero depois se dividiria em subgêneros como Blackexploitation (filmes de terror, eróticos ou de ação estrelados exclusivamente por atores negros), Sexploitation (o nome já diz tudo) e outros mais. Os filmes de exploração teriam seu auge nas décadas de 60 e 70. Mas voltando a Bloody pit: modelos fotográficas invadem antigo castelo medieval e são torturadas exaustiva e detalhadamente diante das câmeras pelo espírito reencarnado do Marquês de Sade(!), as doses de sadismo e gritaria são fartas nas cenas de tortura com instrumentos da inquisição.

Splatter Movies

Em exemplo mais recente, que segue a escola dos Splatter Movies[3]: o filme alemão Premutos (1997) mostra um guerreiro / demônio medieval que espalha destruição por todas as épocas da história, numa realização tecnicamente impecável para uma produção independente que prima pelos excessos, num dos filmes mais ultrajantes do gênero e que estabelece um novo parâmetro nas obras baseadas em idade média: tripa, tripa e mais tripa. Um clássico pra fazer o diretor italiano e mestre em filmes escatológicos de zumbis, Lucio Fulci, levantar orgulhoso e feliz do túmulo.

 

O purgatório, que é um conceito criado durante a idade média para perdoar usurários, é retratado de forma magistral no precursor dos filmes Splatter: Jigoku (Japão, 1960). O filme mostra a visão mais completa do mito do purgatório e inferno já realizada no cinema. Mesclando de forma tipicamente nipônica as lendas cristãs e budistas, o filme, com sua narrativa caótica e fragmentada, é uma viagem a todos os círculos do inferno representando diferentes níveis de tempo. É uma visão do inferno que foi posteriormente imitada em produções cinematográficas do mundo todo, especialmente em superproduções americanas, que há décadas pecam pela total e absoluta falta de originalidade.

Mitos

Esta avalanche de exemplos fílmicos acerca da idade média é apenas uma parcela mínima da quantidade incomensurável de filmes baseados nos "horrores" da noite dos mil anos. Avaliando apenas uma parte dos filmes de terror produzidos sobre o período, a lista já se torna enorme. Para melhor análise do problema, decidi ignorar as super produções ou filmes sobre Idade Média não relacionados ao cinema de horror, com exceção de O Nome da Rosa, que serviu de coluna vertebral para todo o texto e alguns clássicos indiscutíveis como, por exemplo, O incrível exército Brancaleone que é indicado a qualquer fã do cinema fantástico ou de horror, pela riqueza de seu roteiro e humor ácido, além de perfeita reconstituição da época e a direção sempre perfeita de Monicelli, cheia de momentos Gore[4].

Um dos filmes mais notáveis e assustadores de Dario Argento se chama Tenebrae, baseado nas referências que o italiano Francesco Petrarca (1304-1374) já fazia ao período anterior. Qualquer pessoa que se aprofundar minimamente acerca da Idade Média vai perceber que não foi um tempo de completo hiato e retrocesso como os Renascentistas e Iluministas quiseram deixar registrado, mas também não foram tempos da mais extrema alegria. Porque a literatura e especialmente o cinema realçam tanto as facetas negativas deste período?  

O livro Dicionário temático do ocidente medieval fala um pouco sobre as visões negativas acerca da Idade Média:

A aparição de um conceito desvalorizante de "Idade Média", quer dizer, literalmente, de época intermediária, é conseqüência de um duplo fenômeno cultural e religioso. Resulta da vontade manifesta dos humanistas italianos, desde os séculos XIV, de retornar as fontes da antiguidade clássica em sua pureza e autenticidade filológicas, livres das escórias e das alterações lingüísticas provocadas pelas glosas posteriores aos "Sorbonards".

Mas essa visão de retrocesso em relação aos tempos medievais aos poucos seria substituída pela mentalidade que se compartilha nos tempos contemporâneos pelos mais eruditos. Logo, ficariam reconhecidas as bases da sociedade ocidental, localizadas nada mais, nada menos do que na Idade Média, como comprova o texto de Franco Jr. Hilário:

Os quatro movimentos que se convencionou considerar inauguradores da modernidade - Renascimento, Protestantismo, Descobrimentos, Centralização - são de fato medievais. O primeiro deles, o Renascimento dos séculos XV-XVI recorreu a modelos culturais clássicos, que a idade média também reconhecera e amara. Aliás, foi em grande parte através que os renascentistas tomaram contato com a antiguidade. As características básicas do movimento (Individualismo, Racionalismo, Empirismo, Neoplatonismo, Humanismo) estavam presentes na cultura ocidental pelo menos desde princípios do século XII. Ou seja, como já se disse muito bem, "embora o Renascimento só invoque a antiguidade, é, realmente, filho ingrato da Idade Média".

E Franco continua:

No entanto, se olharmos para o esqueleto e não apenas para a nova face e as novas roupagens do ocidente dos séculos XIX-XX, outra vez, encontraremos muito da Idade Média. Basta observar que as características que a civilização ocidental atualmente se atribui - democracia no plano político-social, racionalismo no econômico - científico, universalismo no mental-cultural - têm origens medievais. É verdade que há tendência a se creditar àqueles caracteres a outros momentos históricos (Grécia clássica, Modernidade), mas tal se deve ao enraizamento do preconceito em relação à Idade Média...  

 ... A superioridade tecnológica, científica e econômica que o mundo ocidental ostenta claramente, desde o século XVII é resultante de diversos fatores, a maioria dos quais de origem medieval.

Deus

Graças a essa superioridade tecnológica com suas raízes na Idade Média, que podemos desfrutar do prazer de ir ao cinema, por exemplo, e assistir a algum grande clássico dos filmes sobre inquisição e empalação. Mas se foi toda essa maravilha, qual a razão da Santa Inquisição? Um dos motivos para tantos olhares reprovadores envolvendo a Idade Média. Jacques Le Goff & Jean Claude Schmitt resumem a visão do homem medieval de forma fiel:

Se há uma noção que resume toda a concepção de mundo dos homens da Idade Média, é a de Deus. Não há idéia mais englobante, mais universal, que essa. Deus compreende, ou melhor, excede todo o campo concebível da experiência, tudo é observável na natureza, incluindo os homens, tudo o que é pensável, a começar pela própria idéia de Deus. Ele é todo poderoso, eterno, onipresente. Escapa ao entendimento e a todas as tentativas de figuração.

R. G. Collingwood  defende basicamente o mesmo pensamento, em seu livro A idéia de historia:

Todo o agente humano sabe o que quer e procura atingir o seu objetivo, mas não sabe por que razão o quer: a razão porque o quer está no fato de Deus o ter levado a querê-lo, a fim de fazer avançar o processo de concretização de Seus desígnios. Em certo sentido, o homem é o único agente da história, porque tudo o que acontece a sua volta acontece por sua vontade; noutro sentido, Deus é o único agente, porque é através da atuação da providencia divina que o exercício da vontade humano, num dado momento, conduz a esse resultado e não a um resultado diferente. Noutro sentido ainda, o homem é o fim por causa da qual se verificam os acontecimentos históricos, pois o objeto de Deus é o bem estar do homem; num outro sentido, o homem existe apenas como um meio de concretização das finalidades divinas porque Deus criou-o apenas para realizar os Seus desígnios em termos de vida humana.

Não existiam ateus na idade média, não havia como alguém excluir Deus. Então, o que eram os heréticos? Mais uma vez é preciso perguntar: qual era a função da Santa Inquisição?  Jean Claude Schmit e Le Goff podem ter a resposta:

Nos séculos seguintes, Deus, o senhor por excelência, será pensado e figurado, sobretudo com os traços do soberano medieval, o imperador ou o rei, ainda mais que ambos são sagrados pela igreja. Deus é rei dos reis e, inversamente, os reis terrestres reinam por "graça de Deus" (gracia Dei), como se começa a afirmar partir da época carolíngia. É evidente o paralelo entre reis e Deus nas formas de invocação (por exemplo, na Chanson de Rolland: "Deus glorioso", "Deus, rei do mundo", "Deus de majestade", etc.) e mais ainda na iconografia, na qual ambos são entronizados de frente, hieráticos, em majestade, a justaposição de suas imagens reforçando o simbolismo real de um e o simbolismo divino do outro.

São numerosos na idade média os heréticos que, recriminando o excessivo compromisso da igreja com a sociedade terrestre, o dinheiro e o poder, pretendem falar e agir em nome do espírito santo. Querem devolver ao cristianismo a dimensão carismática que São Paulo evocou, mas que colide com o status material e político da igreja na sociedade. Em seu ensinamento a igreja insiste, por exemplo, sobre os sete dons do espírito santo, mas desconfia daqueles que, fora da hierarquia e das ordens eclesiásticas, pretendem agir em nome do espírito.

A Santa Inquisição não existiu para corrigir o ateísmo, que não havia na Idade Média, mas sim em prol do fortalecimento do poder. Para aqueles que têm o controle do poder, em especial a igreja, a idade média nunca poderá ser vista como uma época nebulosa. As bases de poder do ocidente estão enraizadas.

Continua...                                                                   

- Gurcius Gewdner


[1] Giallo, em italiano, significa amarelo, e se refere à cor da capa de livros de suspense que eram muito populares na Itália, com histórias que geralmente incluíam Serial Kilers misteriosos envoltos em aspectos bizarros.
[2] Avaliando do ponto de que qualquer troca de relações é uma relação de exploração mútua, qualquer filme pode ser visto como Exploitation, mas estes filmes em especial, tinham características que faziam deles merecedores do título de Exploitation.
[3] Versão mais acentuada dos Exploitation, com uma atenção redobrada a violência, escatologia, desmenbramentos e outras formas de se destroçar carne...
[4] Equivalente aos filmes Splatter, mas de acordo com os especialistas, com um ênfase ainda mais forte na violência e evisceração. Ou seria o contrário?

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