Idade das Trevas, parte I - Noite dos mil anos

Prefácio

A indústria do cinema tem lançado muitas trilogias ultimamente. Antigamente, quando um filme fazia muito sucesso, ele ganhava uma continuação, mas isso não é mais suficiente; faturar o dobro não basta, é preciso triplicar as bilheterias. Para que os leitores não me julguem leviano e totalmente ignorante das estratégias de mercado necessárias para o sucesso, decidi publicar uma trilogia de Cinema Marginal, Idade das Trevas I, II e III, para triplicar o número de acessos.

Os textos são de Gurcius Gewdner, historiador e cineasta independente, e foram escritos especialmente para essa coluna. O tema é a influência da idade média no cinema de horror clássico. O filme mais conhecido de Gewdner é o curta "Nosferatum" que foi muito bem recebido por público e crítica. Há uma grande expectativa em torno de seu novo trabalho, "Mamilos em Chamas", ainda em fase de edição, com previsão de lançamento para os próximos dois anos. (...) Enquanto esperamos, vejamos o que se passa na cabeça desse temperamental e excêntrico diretor:

- J.W.Kielwagen

O Cinema de Horror e a Noite dos Mil Anos

Toda forma de arte tende a retratar e documentar as mentalidades e acontecimentos históricos de seu tempo e de épocas remotas, conscientemente ou não. Literatura, música, cinema e outras formas de arte, são o legado da beleza para o presente, passado e futuro, quando não são os próprios moldes do futuro, a única ligação verdadeira do ser humano com a eternidade. Através da arte aprendemos a amar a beleza não apenas no que já nasce belo; aprendemos a ver beleza no feio, no grotesco e no hediondo. O que a literatura deixava para a imaginação e a pintura mostrava em generosas partes, o cinema escancarou diante do imaginário humano, provando que tudo pode ser retratado. Utilizando-se de qualidades oferecidas pela literatura, pintura e música, desde seu surgimento a sétima arte acompanha a história da humanidade como parte viva e participativa dentro do todo, nunca esquecendo seus papéis enquanto arte e indústria.

Como registro da história contemporânea e como forma de relembrar o passado, o cinema foi desde o começo o instrumento perfeito. É claro que nem sempre da maneira mais fiel, lembrando que tanto indústria quanto arte não têm a obrigação de mostrar com fidelidade histórica o que se passa na tela; entretenimento e contestação são as palavras de ordem para o Cinema-Indústria e o Cinema-Arte, respectivamente. A idade média e seus mitos várias vezes já serviram de pano de fundo ou objeto central para produções de orçamentos grandes e pequenos. Muitas destas obras são filmes sobre o tormento ou de horror. Pode o cinema ter contribuído para o mito de que a Idade Média foi uma longa e dolorosa noite de mil anos? Ou este pensamento já estava plantado no inconsciente coletivo e assim permanecerá eternamente?

A idade média carrega o estigma de ser a época das trevas. No entanto, o surgimento das universidades, o intercâmbio cultural, e a tradução de diversas obras da ciência helenística e da filosofia grega para o ocidente cristão provam que não foi uma era de escuridão total e atraso completo. Mas a mentalidade criada ao longo do tempo e reforçada pelas artes mantém sua vivacidade e não há como não enxergar aspectos macabros na assim chamada "Noite dos Mil Anos".

Expressionismo Alemão

O primeiro gênero cinematográfico a adotar a idade média como cenário de seus dramas, foi o subestimado Cinema de Horror. Mais precisamente com o expressionismo alemão: dois anos depois de perder "a guerra para acabar com todas as guerras", o povo germânico horrorizava novamente o mundo. Mas desta vez com um tipo diferente de arma: O gabinete do doutor Calligari (Robert Wiene,1920) inaugurava o Cinema de Horror e o Expressionismo Alemão. Unindo atmosferas sombrias com a narrativa muda, e feito na esteira da popularidade que a mórbida arte expressionista conquistara após a guerra, com um enredo de pesadelo e os cenários mais bizarros criados até então, Calligari elevou o horror à categoria de arte e abriu as portas para mais filmes geniais que na época ficaram conhecidos como Caligaristas. Os exemplos mais notórios são Nosferatu (1922) e Faust (1926), ambos de F.W. Murnau e de inspiração medieval.

Faust é um exemplo legítimo da inspiração que a "idade das trevas" traria para o cinema com o decorrer das décadas: baseado na obra de Goethe, o filme mostra o filósofo Fausto que, para livrar o povo da peste, oferece a própria alma ao demônio em troca de poder e juventude. Tudo acaba desmoronando quando o próprio povo o rejeita ao descobrir suas ligações com o demônio. A força das imagens de Faust influenciaria até produções de Walt Disney, com a cena de Lúcifer sobre a montanha em Fantasia. Logo de inicio, a peste se tornou um prato cheio para o imaginário cinematográfico; Nosferatu, baseado em Drácula de Bram Stoker, tratava do mesmo tema. Logo após a guerra, o humor na Alemanha não era dos mais agradáveis, e foi na idade média que o cinema encontrou a válvula de escape ideal.

Roger Corman

Logo o cinema americano também abraçaria temas medievais, sendo o diretor e produtor Roger Corman um dos primeiros a abordar o tema em filmes como The pit and the pendullum (1961) e Tower of london (1962). Posteriormente, Roger Corman ficaria conhecido como o "Pai dos filmes B", "Mestre dos Exploitation Movies" e patrono do cinema americano contemporâneo. Revelou para o mundo talentos como Francis F. Coppola, Martim Scorcese, Jonathan Demme, Joe Dante e atores consagrados, como Robert De Niro e Jack Nickolson. Todos foram pupilos de Corman e tiveram sua primeira chance graças a ele. Corman encontrou na Idade Média a fonte de inspiração perfeita para seus Exploitation movies e filmes de terror de baixo orçamento. Tower of london seria apenas mais um dos grandes clássicos de uma longa e lucrativa série de filmes sobre a idade média que teria sua fase mais próspera entre os anos 50 e 60.

 Adaptando com fidelidade diversos contos de Edgar Allan Poe, Corman deu vida, estilo e teatralidade aos horrores da idade média, trazendo um universo de beleza artesanal poucas vezes visto na história do cinema. Sempre trabalhando com orçamentos pequenos, produções como House of Usher, The raven e The pit and the Pendullum se tornaram clássicos absolutos. The pit and the pendullum foi refilmado nos anos oitenta, sem a mesma classe, por Stuart Gordon, um seguidor da escola de Roger Corman que ainda faria mais um filme de horror de base medieval: Castle Freak.

O The pit and the pendullum de Roger Corman não só é superior ao de Stuart Gordon em todos os aspectos, da estilização perfeita ao roteiro muito melhor construído - e assumidamente ligado ao fantástico e ao sobrenatural - como ainda conta com os talentos de Vincent Price e Bárbara Steele. Tanto Bárbara quanto Price se tornaram lendas supremas do horror e conseqüentemente dos filmes de inquisição (Bloodsucking Freaks,U.S.A., 1977)[1], peste (O sétimo selo, Suécia, 1957), bruxaria (Alucarda, México,1978), heresia (A meia noite levarei tua alma, Brasil, 1964), paganismo (Valerie and her weekend of wonders, Tchecoslováquia, 1970), e ressurreição (Plague of the zombies,1966, Inglaterra) quase todos ambientados ou repletos de referências à idade média.

Vincent Price

  Vincent Price por várias vezes encarnou vilões medievais em clássicos de Roger Corman, onde ele era o astro principal em praticamente todas as produções relacionadas a Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft e Idade Média. Em House of wax, Price faz esculturas de Joana D' Arc com cadáveres; em outro clássico intitulado Matthew Hopkins - Witchfinder General (1968), lançado no Brasil recentemente como "O caçador de bruxas", tem Price no papel de um famigerado general, baseado em fatos reais, que cometeu as maiores atrocidades durante o reinado de Oliver Cromwell na puritana Inglaterra do século XVII, executando pessoas por simples suspeita de feitiçaria. Apesar de ser um período já posterior à inquisição, fica clara a relação. A lista de filmes envolvendo Price com os mitos da idade média é imensa.

Barbara Steele

 O mesmo pode ser dito de Bárbara Steele, intitulada como a "Primeira dama do mal" e uma das poucas celebridades femininas do cinema de horror. Sua contribuição para a história do cinema, assim como a de Vincent Price, é indiscutível. Barbara trabalhou com diretores consagrados como Fellini e Cronenberg, e no auge de sua sensualidade estrelou os clássicos do inigualável Mario Bava: Black Sunday (la maschera Del Demônio) e Black Sabbath , além do já citado The pit and the pendullum. Stelle ainda estaria presente em outro clássico ambientado na idade média: "O incrível exército Brancaleone" dirigido pelo incansável Mario Monicceli.

Mario Monicelli

Mario Monicelli é um dos diretores mais produtivos da história do cinema. Com mais de 65 anos de carreira, o diretor permanece em plena atividade com o mesmo vigor de seus primeiros filmes, às vezes escorregando em obras menores como Em busca do paraíso, mas quase sempre produzindo obras-primas e recebendo homenagens em todo o mundo. Ao contrário de outros mestres italianos como Mario Bava (no caso de Bava só em 2003 é que foram lançados filmes seus por aqui, com mais de 40 anos de atraso...) e Dario Argento, que têm alguns de seus grandes clássicos simplesmente ignorados pelas distribuidoras de vídeo brasileiras, vários dos melhores filmes de Monicelli podem ser encontrados em qualquer locadora que se preze.

Especialista do escárnio à igreja & família, formado em história e filosofia, nunca poupou farpas à hipocrisia dos laços familiares e a falsa moral castradora da igreja, assim como sempre fez questão de valorizar e exaltar os laços de amizade entre os personagens. Parente é serpente (premiado com o Oscar em 1995) é um dos exemplos mais críticos em relação à família. Seu desprezo pela igreja é latente em quase todos os seus filmes. Em Os novos monstros, coletânea de curtas não creditados dirigidos por Etore Scolla, Dino Risi e Monicelli, é fácil identificar quais histórias são de autoria do último: basta ver as mais sarcásticas em relação à religião e família. Quinteto irreverente e Caros amigos são apaixonadas odes a amizade.

 Mas uma de suas obras mais citadas, reverenciadas e copiadas, ao lado de seu Os companheiros, é sem dúvida o clássico insubstituível: O incrível exercito de Brancaleone (1965). Mesmo nos dias de hoje, ao dar entrevistas, o diretor é questionado acerca deste filme. Também não é por menos: confessadamente inspirado no Dom Quixote de Cervantes, esta crônica implacável arrasa o mito do herói medieval. Do elenco perfeito ao tema musical, passando por um roteiro inteligente e cheio de reviravoltas, trata de um dos mais felizes e ferozes momentos da comédia italiana.

Os filmes de Monicelli seriam a principal influência de outro clássico sobre a Idade Média: Monty Python and the Holy Grail, que traz o humor ácido e blasfemo do grupo que melhor misturou história e humor em toda a história do cinema, ao lado de Monicelli. Um dos membros do grupo, Terry Jones, que também dirigiu o filme, soube usar seu diploma de historiador como ninguém em quase tudo que o Monty Python produziu: da série de TV até às obras-primas Life Of Brian e The Meaning of Life, onde a igreja é sempre ridicularizada de todos os modos possíveis, assim como a política, cinema e filosofia, e sempre de forma inteligente,  muito imitada porém nunca superada. Mesmo após a dissolução do grupo, eles continuaram produzindo arte de qualidade, e seu legado permanecerá para sempre, seja no trabalho em grupo, como nos filmes do Monty Python, seja em clássicos como Brazil - o filme ou a série de livros infantis "Fadas Esmagadas", ambos de Terry Jones.

 As maiores referências para Brazil - o filme são 1984, de George Orwell, e A Metamorfose, de Franz Kafka. É justamente um clássico de Aristóteles que acaba sendo o centro do caos na superprodução "O nome da rosa". Ao ouvir que o filósofo usou a comédia como instrumento da verdade, assim como o Monty Python faz sua crítica à Igreja Católica em The Meaning of Life cantando "Every sperm is sacred", um monge cego e sem senso de humor perde a calma quase entrando em desespero ao ver o outro monge, interpretado por Sean Connery, contestar as assim chamadas verdades, defendidas com tanto ardor e fúria pelos membros mais arcaicos da igreja, em prol de uma valorização maior do riso. Tal qual o Big Brother de 1984, o monge cego monopoliza a informação, e luta pela formação de indivíduos sem personalidade que aceitem tudo que lhes é dito e que trabalhem apenas para a manutenção do todo.

Em um dos momentos-chave do filme, quando os delegados papais e a Santa Inquisição já se fazem presentes, o monge declara para todo o grupo:

"Quando as piras se acenderem esta noite, que as chamas purifiquem cada um de nós em seu próprio coração. Que nós voltemos ao que foi e deveria ser sempre o oficio deste mosteiro: A preservação do conhecimento. Preservação eu disse... Não perscrutação... Porque não existe progresso na história do conhecimento, apenas uma contínua e sublime recapitulação."

Pensamentos como este moldaram o conceito de "Idade das Trevas" como hiato cultural e retrocesso, que sabemos ser equivocado. Mas é realmente assustador saber que esse pensamento era quase universal para os membros da Santa Igreja e, por conseqüência, da Santa Inquisição. A inquisição parou de matar, mas a luta pela preservação de conhecimento sem a perscrutação de progresso, permanece ainda, como um ideal forte da igreja que a cada dia perde mais a sua força, graças a Deus.

Em um dos momentos mais emocionantes de Brancaleone, quando morre um dos personagens, o sentimento geral daqueles que ficam é de inveja, porque se acabava ali toda uma vida de dor e sofrimento e se iniciava uma nova era de festa e alegria para o falecido. Fartura, bebedeira e festas sem fim eram o que esperava o sofrido homem da Idade Média. A bebida não era vista como pecado e o paraíso era a recompensa de toda uma vida sem sorrisos. Esse tão sonhado paraíso materialista é bem diferente da visão de paraíso do homem contemporâneo. É irônico que seja justo uma comédia - já que grande parte dos filmes sobre idade média são carregados e sombrios - o melhor exemplo do que era, para o homem da idade média, uma vida santa e em comunhão com Cristo, e porque valeria a pena se sacrificar por uma vida após a morte.

 A fidelidade aos temas medievais em Brancaleone beira a perfeição; o filme é objeto de estudo e referência desde a época de seu lançamento. Monicelli conseguiu retratar em sua comédia todos os costumes, dilemas e conflitos da época. Nunca o Cristianismo foi abordado tão a fundo. Na jornada do grupo em busca da posse de seu tão sonhado feudo, nota-se o quanto o homem medieval se colocava a mercê das forças, colocando toda sua confiança em Deus. Essa confiança é realçada na cena de morte já citada aqui: a morte não importa já que o que vem depois é muito melhor. Habacuc, o judeu do grupo, se refere a seus companheiros sempre como "cristãozinhos" e não menos notável é a cena do batismo cristão forçado a Habacuc, após uma desgraça afligir o grupo. A seqüência do batismo faz parte de um dos melhores momentos do filme, que é quando Brancacaleone e seus asseclas se juntam ao grupo do profeta Zenão (conhecido por realizar uma das maiores cruzadas populares da história), um dos personagens mais insanos e divertidos de toda a filmografia de Monicelli.

O incrível exército de Brancaleone serviu de exemplo para toda uma geração de cineastas em todas as partes do mundo, chamando a atenção por seu humor crítico e inteligente. O filme vai além de simples momentos de entretenimento, é uma aula de cinema e de história, que poucos além de Monicelli conseguem realizar com destreza e maestria.

Na próximo capítulo  desta trilogia, veremos alguns clássicos splatter como exemplos da cegueira cristã. Não perca tempo assistindo a bomba intitulada Chateação de Cristo ou Felação do Mel Gibson, tanto faz, dá na mesma e corra atrás desses clássicos da santidade cinematográfica com a fúria de um guerreiro medieval! ...ou veja Coração Valente pela milésima vez, na sessão da tarde.

Continua....

- G.Gewdner

 

 

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