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As
pessoas tendem a confundir as coisas: quando se lhes
pergunta o que mais gostam em cinema, respondem com
nomes de atores famosos de Hollywood. Gostam do Tom
Hanks, da Julia Roberts ou do Brad Pitt. Mas o cinema,
a forma de arte mais completa e abrangente, sequer
precisa de atores. Não ouso menosprezar a importância
da tradição teatral e seu potencial
dramático, mas arrisco afirmar que atores não
são imprescindíveis para o cinema: a
atuação é apenas uma de suas
muitas dimensões. O bom cinema pode se bastar
valendo-se de outros elementos e formas de expressão,
como a animação.
Há o desenho
animado tradicional, ou colorido por computador, e
a animação stop-motion, que saiu de
moda com o advento da computação gráfica.
Quem em sua infância assistiu "Glub-Glub" na
TVE, por certo se lembra com carinho daqueles curtos
episódios de animação em stop-motion
com massinhas, geralmente mudos. Tais técnicas
caíram em desuso, mas ainda são utilizadas
por uns poucos obstinados, como os produtores do excelente
"A Fuga das Galinhas".
Hoje, a tradição
do stop-motion sobrevive principalmente no Leste Europeu,
em países como República Tcheca e Rússia.
A animação do Leste Europeu nasceu na
Rússia, em 1912, quando o cinegrafista Vladislav
Starevich filmou Beauty Lukanida - um curta sobre
insetos. Durante o regime comunista soviético,
a produção cinematográfica dos
países daquela região, além de
fortemente censurada pelo próprio regime, era
quase desconhecida no ocidente e sofria pouca influência
do cinema norte-americano. A distância e a Guerra
Fria afastaram ainda mais as culturas desses países
da ocidental; por essas razões, a tradição
de animação do leste europeu se diferenciou
muito do sistema Walt Disney de produção.
Inúmeros cineastas consagrados daquela região
utilizaram o stop-motion em seu trabalho, como o célebre
Jiri Trnka, considerado por muitos críticos
como o melhor animador de bonecos do mundo.
O diretor que dá o nome a essa coluna
não é tão conhecido, mas é
digno de nota pelo seu estilo peculiar e, principalmente,
seu apreço pelo surrealismo: Jan Svankmajer,
dono de um estilo único de narrativa, que ás
vezes é comparado ao do chileno Jodorowsky.
Nasceu no ano de 1934, em Praga - capital da antiga
Tchecoslováquia, atual República Tcheca.
No período entre 1950 e 1954, estudou no Colégio
de Artes Aplicadas de Praga, onde entrou em contato
com o surrealismo e suas vertentes. Entre 1954 e 1958,
estudou na Academia de Artes Performáticas
de Praga, onde se especializou em marionetes, direção
e cenografia.
De 1964 a 1983 trabalhou
exclusivamente com curtas, a maioria em stop-motion,
utilizando os mais diversos materiais e, ocasionalmente,
atores humanos. Seus primeiros trabalhos eram experimentos
predominantemente abstratos, antecipando o que hoje
em dia é exibido em galerias como "vídeo-arte".
O curta 'Johann Sebastian Bach: Fantasia G-moll',
de 1965, é um bom exemplo disso: ao som da
referida composição de Bach, manchas
negras e buracos em muros e paredes parecem ganhar
vida. Embora seja simples e despretensioso, esse filme
já mostra a habilidade de Svankmajer com edição
e casamento entre imagem e som.
Com o passar dos anos,
a técnica de animação de Svankmajer
tornou-se mais sofisticada, bem como seus roteiros.
Um de seus curtas mais célebres é 'Moznosti
dialogu' (Dimensões do diálogo), de
1982, dividido em três partes - dimensões
- que tratam da comunicação humana.
A primeira, 'Discussão Exaustiva', mostra três
cabeças animadas compostas por diferentes materiais
- frutas e legumes, utensílios de cozinha e
de escritório, respectivamente - devorando
umas às outras e se refinando mutuamente. Na
segunda parte, 'Discurso Passional', um casal de argila
- virtuosamente modelado - se entrega ao intercurso
carnal; a união gera um fruto indesejado com
o qual o casal terá de lidar. Por fim, a terceira
parte, 'Conversação Fatual', mostra
duas cabeças de argila que conversam entre
si, a princípio amigavelmente, depois, nem
tanto, terminando em acirrada discussão. 'Moznosti
dialogu' é um exemplo ótimo não
só do talento de Svankmajer como roteirista
e animador, mas também de sua habilidade com
efeitos sonoros, com os quais brinca livremente, criando
combinações inusitadas.
Em 1983 lançou
'Kyvadlo, jáma a nadeje' (o poço, o
pêndulo e a esperança), uma adaptação
do clássico conto de Edgar Allan Poe 'O poço
e o pêndulo'. Filmado em primeira pessoa, recria
com grande fidelidade a atmosfera opressiva e suspense
presentes no texto original. Esse não foi o
único conto de Poe adaptado por Svankmajer;
outro exemplo é 'Zánik domu Usheru'
(A queda da casa de Usher) de 1981.
Em 1988, realizou o
sonho de filmar um longa: 'Neco z Alenky', sua versão
para o clássico 'Alice no país das maravilhas'
de Lewis Carroll. Essa história já foi
transformada muitas vezes em filmes e seriados, mas
nenhuma adaptação é tão
bizarra quanto à de Svankmajer. O filme conta
com uma única atriz humana - Kristyna Kohoutová
- no papel de Alice; os demais são bonecos
animados, feitos de ossos e partes de animais. Escuro
e perturbador, 'Neco z Alenky', foi apenas o primeiro
de uma série de adaptações que
se seguiriam.
Mesmo com a possibilidade
de filmar longas, Svankmajer não parou de trabalhar
com o formato curta. Ainda em 1988 filmou 'Muzné
hry' (Jogos viris), sobre a paixão pelo futebol,
com algumas cenas reais de turbas descontroladas de
torcedores que, apesar de distantes, lembram muito
as do Brasil. O filme mostra um homem assistindo a
um jogo televisão, que consiste em passes coreográficos
e faltas/mutilações criativas. No ano
seguinte lançou outro curta bastante peculiar:
'Meat Love', um romance entre bifes, com final trágico.
'Jídlo' (Comida),
de 1992, segue o mesmo padrão, misturando atores
humanos com animações stop-motion em
massa de modelar. Um detalhe interessante é
que mesmo os atores humanos são animados em
stop-motion, como se fossem bonecos, ganhando um movimento
artificial. O filme é dividido em três
partes: café da manhã, almoço
e jantar, cada qual com situações mais
absurdas envolvendo canibalismo.
Em 1994 Svankmajer filmou
sua versão do clásico Fausto, de Goethe,
intitulada 'Faust'. A tradicional história
do homem que faz um pacto com o diabo ganha novas
cores nas mãos de Svankmajer, com destaque
para o demônio, um boneco de madeira que rouba
todas as cenas dos atores humanos.
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| Faust |
O trabalho mais recente de Svankmajer é
o longa 'Otesánek', de 2000, conhecido internacionalmente
como 'Little Otik' ou 'Greedy Guts'. Baseado em uma
história do folclore Tcheco, o filme conta
como um casal que não podia ter filhos acaba
por conseguir um - de uma forma nada convencional.
O marido escava no quintal uma raiz que se parece
com um bebê, e sua esposa decide cuidar dela
como se fosse um bebê. Após nove meses
de amor e carinho, a raiz ganha vida, para a alegria
da mãe. Entretanto, a estranha criança
acaba desenvolvendo um apetite maior do que o normal
por carne vermelha. Apesar do tema indigesto - canibalismo
- 'Otesánek' é um dos filmes mais comerciais
- e menos instigantes visualmente - de Svankmajer.
Ainda assim, um ótimo filme, com muito humor
e situações pra lá de surreais.

Infelizmente,
para quem quer ver esses filmes, Jan Svankmajer é
praticamente desconhecido no Brasil e seus filmes
têm de ser importados, ou obtidos de formas
ilícitas. Enquanto nenhuma distribuidora resolve
lançá-los por aqui - e com certeza seriam
bem recebidos em DVD, nas bancas - o jeito é
ficar de olho nas programações de festivais
de cinema alternativo e de canais a cabo.
Para saber mais:
- Uma
entrevista com Jan Svankmajer
- Sobre animação no leste europeu
J.W.
Kielwagen
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