Pier Paolo Pasolini - A Genitália na Itália

Na Antiga Roma, um homem casado era livre para ter relações sexuais com escravas, prostitutas, divorciadas e viúvas; apenas as virgens e casadas lhes eram negadas. As casadas, entretanto, se registravam como prostitutas para escapar da proibição, de modo que, mesmo se fossem apanhadas no ato, não eram punidas. Na noite de núpcias e na lua-de-mel, o noivo fazia apenas sexo anal com sua esposa, em respeito à sua timidez e virgindade; só depois de acostumados um ao outro é que ele a desvirginava. Mais tarde, em 1490, as prostitutas andavam livremente pelas ruas de Roma, geralmente em companhia de sacerdotes. Não, eles não estavam seguindo o exemplo de Jesus; acontecia que a cidade, que era habitada essencialmente por homens, tinha cerca de sete mil mulheres públicas. Elas se alojavam em casas pertencentes a mosteiros e igrejas - onde teoricamente não seriam molestadas - e acabavam ficando amigas dos padres da cidade eterna. Um dos berços de nossa civilização, a cultura italiana parece marcada por um despudor ancestral. Isso explica porque o cinema italiano já exibia genitálias em 1960, enquanto que em outros países, como no Japão, tais partes do corpo são rigorosamente censuradas até hoje.

Em se tratando de cinema italiano, por alguma razão que não cabe a mim julgar, os intelectuais preferem Fellini. Entretanto, quem quer que tenha um mínimo de senso de humor provavelmente considerará Pasolini para o primeiro lugar. Além de mais engraçado, Pasolini também é mais fiel à raiz da cultura italiana, que é a da antiga Roma. Indo um pouco mais além, sob essa perspectiva pode-se afirmar que Pasolini, devido à essa fidelidade histórica, tem a vantagem de lidar mais profundamente com a natureza humana do que seu arqui-rival Fellini. Naturalmente, não é minha intenção incitar polêmicas ou discussões acerca de quem seria o melhor diretor italiano; isso é tarefa para os intelectuais de plantão... deixemos que eles pensem e discutam entre si, e enquanto isso, falemos um pouco mais sobre Pasolini.

Pier Paolo Pasolini e sua mãe

Pier Paolo Pasolini nasceu em 1922, na cidade italiana de Bologna. Aos dez anos de idade já escrevia poesia e, muito antes de dirigir seu primeiro filme, já era amplamente reconhecido como escritor e poeta. Publicou inúmeros ensaios teóricos e históricos, além de romances. Ainda jovem, afiliou-se ao partido comunista da Itália, e logo o seu trabalho passou a ter enfoque mais político e ideológico, chegando a se engajar em causas sociais. No entanto, sua natureza subversiva e questionadora não tardou em lhe causar problemas: em 1949 foi expulso do partido, devido, dizem, à sua despudorada homossexualidade. Apesar disso, Pasolini continuou se declarando comunista até o fim de sua vida.

Seu primeiro filme foi 'Accattone', de 1961, que conta a história de um cafetão tentando sobreviver nos subúrbios de Roma. O roteiro foi baseado em um de seus romances, 'A Violent Life'. No ano seguinte dirigiu 'Mamma Roma', um filme leve sobre uma prostituta que resolve mudar de vida vendendo frutas. Esses primeiros trabalhos refletem a visão ainda otimista do diretor para com o mundo, mas essa perspectiva logo mudaria.

'Ro.Go.Pa.G', de 1963, é uma coleção de quatro curtas dirigidos por Roberto Rossellini, Ugo Gregoretti, Pasolini e Godard. O curta de Pasolini, intitulado 'La Ricotta' lhe rendeu uma pena de quatro meses de prisão por desacato e blasfêmia, que depois acabou sendo cancelada. O filme conta a história de um diretor de cinema (Orson Welles), tentando dirigir um filme sobre a vida de Cristo em um bairro pobre. Segundo o próprio Pasolini, 'La Ricotta' deveria ser um ataque à vulgarização da espiritualidade, mas foi considerado pelas autoridades como "uma tentativa de denegrir a religião do estado". Por certo, não foi por coincidência que o próximo filme de Pasolini trataria de temas bíblicos: 'O Evangelho segundo São Mateus', de 1964. Contrariando todas as expectativas, esse filme foi aclamado pela igreja como uma das mais fiéis adaptações do evangelho para o cinema.

'La Ricotta'

A partir daí, seus filmes foram ficando cada vez mais subversivos. 'Teorema', de 1968, é considerado por muitos como a obra prima de Pasolini. Embora isso seja discutível, o filme sem dúvida é excepcional; uma família burguesa tem suas bases abaladas pela visita de um misterioso sedutor, interpretado por Terence Stamp. Quando o visitante decide partir, toda a família - desde o filho até a empregada - entra em colapso,e cada um toma um rumo diferente ao lidar com a destruição de suas posições sociais e com a perda do amor, com um desfecho surreal. O filme conta com alguns monólogos geniais: "...ninguém deve saber que o artista é um idiota, um incapaz. Cada ato, mesmo falho, deve se apresentar como perfeito." A edição de 'Teorema' é acidentada, com uma trilha sonora aparentemente casual. Já é possível ouvir o silêncio ensurdecedor que, mais tarde, tornaria-se uma das características mais marcantes do cinema de Pasolini. Pode-se observar também os closes gratuitos em genitálias - predominantemente masculinas - que parecem ter a única função de escandalizar e/ou embaraçar o público.

'Teorema'

Em 1968 filmou 'Pocilga', uma bela história de amor entre um homem e seus porcos, com um final trágico e surpreendente que não posso nem devo revelar. Basta dizer que, assim como 'Teorema', 'Pocilga' é um filme em que tudo acontece, mas nada aparece. Grande parte da sordidez fica a cargo da imaginação do espectador, o que não diminui - pelo contrário, ressalta - o sadismo do diretor. Pasolini parecia se divertir procurando novas formas de escândalo, utilizando-se de se humor insolente e descarado. Uma das cenas mais divertidas de 'Pocilga' é a em que dois sujeitos elegantes conversam educadamente enquanto tocam harpa:
"- Sobre o que vamos falar hoje? Judeus, ou... porcos?!"
"- Porcos. É bem melhor..."
Naturalmente, Pasolini foi acusado de anti-semitismo por adversário ingênuos que não perceberam nem o humor, nem a verdadeira mensagem do filme.

'Pocilga'

'Decameron', de 1971, é uma adaptação para o cinema de uma obra clássica do escritor italiano Giovanni Boccaccio (1313-1375). Trata-se de nove pequenas histórias envolvendo sexo, traição, e perversões perpetradas por padres e freiras. O filme tem momentos brilhantes, como as cenas em que todas as freiras de um convento se aproveitam de um suposto surdo-mudo para aliviar suas tensões eclesiásticas, ou quando um padre promete transformar uma mulher em égua usando uma magia nada ortodoxa. Genitálias nuas abundam. 'Decameron' ainda conta com a participação do próprio Pasolini no papel do pintor Giotto, e com belas cenas retratando o céu e o inferno.

close de genitália

padres
notem que a mulher pode ficar coberta, mas não o rapaz
Pasolini no papel de Giotto
sequência que mostra céu & inferno

O sadismo de Pasolini só aumentou com o tempo, atingindo o ápice em seu último filme: o divertidíssimo 'Saló', lançado em 1976. Essa sim é a verdadeira obra-prima do diretor, obrigatória para os fãs de cinema italiano, europeu, ou qualquer outro. Também conhecido como 'Os 120 dias de Sodoma', o filme retrata a degradação do espírito humano sob o jugo da autoridade: quatro líderes nazi-fascistas seqüestram, entre o próprio povo, oito moças e oito rapazes, que usarão para realizar suas fantasias mais extremas. O começo é leve, com prostitutas velhas contando histórias eróticas ao som de belas melodias. Gradualmente, o nível de morbidez vai aumentando, passando por humilhações, estupros e coprofagia - cena apoteótica em que os militares, vestidos de noivas, realizam um banquete de fezes, onde todos são obrigados a limpar o prato. Entre as sessões de tortura, os militares - senhores mui refinados - contam piadas e discutem poesia e filosofia. Naturalmente, 'Saló' é escandaloso e foi banido por muitos anos em vários países. Nas raras ocasiões em que é exibido nos cinemas, pode-se observar que ao final das sessões quase a metade do público foi embora, indignado com tamanha pouca-vergonha.

velha prostituta contando uma história
concurso promovido pelos fascitas:
"quem tem o melhor rabo?"
estupros e torturas diversas

Mal terminou de filmar 'Saló', Pasolini foi brutalmente assassinado. No dia 2 de novembro de 1975, foi espancado violentamente, apanhou com paus e pedras e foi atropelado várias vezes pelo próprio carro. Um garoto de programa foi acusado e preso como responsável pelo crime, que teria sido passional. É sabido que Pasolini freqüentava os bairros pobres de Bologna e Roma, donde recolhia belos ragazzos com quem tinha momentos de intimidade genital - muitos desses amantes acabavam nas telas, atuando em seus filmes. Entretanto, há muitas controvérsias acerca do crime; alguns alegam que uma pessoa sozinha não seria capaz de inflingir tamanho martírio em um homem, e que outros devem ter participado do ato. Outros sugerem que o amante homossexual não passa de bode expiatório, e que as verdadeiras razões para o assassinato são de ordem política. Pasolini disse à imprensa que 'Saló' seria o primeiro filme de uma trilogia. Considerando a abundância de blasfêmias, cenas ofensivas e ataques diretos à partidos e ideologias políticas então influentes, não seria nenhuma surpresa se quisessem silenciá-lo antes que concluísse sua obra.

Quem será capaz de imaginar como seria a seqüência de 'Saló'? Provavelmente iria mais longe, talvez fosse ainda mais ultrajante e agressivo. Nunca saberemos - teremos de nos contentar com o que ele pôde filmar antes que o matassem. Felizmente, sua filmografia é ampla, e no Brasil vários títulos são distribuídos em VHS e DVD, bastando ir até a locadora mais próxima para, com sorte, encontrá-los.

 

 

 

J.W. Kielwagen

 

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