Russ Meyer - Mamilos em chamas

Entre os admiradores do cinema erótico, não são raras as expressões de descontentamento diante da monotonia que há décadas paira sobre o estilo. As produtoras especializadas no gênero não parecem ligar para a criatividade, subestimando completamente o público: mostre-lhes umas bundas, tetas e genitálias, belas modelos rolando em camas felpudas e sussurrando intimidades, isso é tudo que eles querem ver. Essa situação é no mínimo intrigante, visto que a sexualidade, como o eixo central da personalidade, constitui um campo vasto e riquíssimo para a exploração artística.

Talvez esteja aí a raiz do problema: tanto as produtoras quanto boa parte do público não consideram o cinema erótico como forma legítima de arte, mas apenas como um mero auxílio na satisfação de certas necessidades fisiológicas(...). Daí a falta de inventividade, os ângulos ginecológicos e posições que obedecem uma sequência rígida e inalterável. O leitor pode até duvidar, mas cinema erótico pode ser muito mais do que o é hoje em dia, como provam os filmes do norte-americano Russ Meyer.

Nascido em 21 de março de 1922, em San Leandro, Califórnia, filho de um policial e uma enfermeira (curiosamente, duas figuras estereotipadas, uniformizadas e devidamente erotizadas pelo cinema), fez seus primeiros filmes na adolescência com a câmera de seus pais. Aos quinze anos de idade recebeu seu primeiro prêmio, por um filme sobre um homem-máquina que fazia sucesso entre as mulheres. Na época da segunda guerra, foi contratado pelo exército americando e passou a integrar o "166th Signal Photographic Corps", um grupo de fotógrafos e filmmakers que registraram a vitória das tropas comandadas pelo general George Patton. De volta aos EUA e à vida civil, tornou-se fotógrafo profissional, realizando alguns dos primeiros ensaios fotográficos da Playboy.

 Seu primeiro filme de sucesso foi "The Immoral Mr. Teas", de 1959. Trata-se da história de um homem (Mr. Teas) que tem olhos de raio-x e consegue enxergar através das roupas das mulheres. Onde quer que vá - vagando sem destino por florestas, praias e montanhas - sempre encontra, milagrosamente, mulheres jovens e lindíssimas brincando na água, tomando sol, correndo, ou simplesmente dançando. Escondido em moitas, ou atrás de árvores, Mr. Teas dá uma boa olhada e segue adiante, para encontrar mais mulheres deslumbrantes logo à frente. Nunca interage com as garotas, limitando-se a espiar de longe, com uma expressão de prazer no rosto.

"Mondo Topless", de 1966, é ainda mais inusitado, com mulheres lindas e nuas nas mais diversas situações: dançando na floresta, tocando guitarra, dirigindo perigosamente, etc. As cenas são acompanhadas por narrações que falam sobre tudo, menos sobre o que está sendo mostrado - enquanto as moças nuas dançam, o narrador fala da importância de San Francisco como pólo turísico e industrial e descreve com detalhes a riqueza da bacia hidrográfica da região, etc.

O leitor pode estar se perguntando no que isso é diferente dos filmes eróticos tradicionais. Em primeiro lugar, Meyer definiu um estilo, que mais tarde viria a ser exaustivamente imitado e devidamente diluído. Além disso seus filmes tem uma qualidade técnica impressionante, o que se deve em parte à sua experiência com fotografia. Seu estilo é facilmente reconhecível pelos enquadramentos simétricos e fechados em pontos críticos, como os seios balançando e os rostos sorridentes das moças. O resultado é agradável e divertido, mesmo para quem não está interessado no estímulo erótico. Outra questão intrigante é a do humor: os filmes são engraçadíssimos, mas será que eram pra ser? Decida você mesmo.

 Meyer chegou ao ápice em 1976, com o clássico "Up!". O filme conta com uma narradora nua de seios enormes que dança, geme e sobe em árvores. Logo no início, vê-se um sósia de Hitler sendo sodomizado e gritando coisas em alemão que não posso nem devo repetir aqui. Há também cenas inesquecíveis e ultra-gore de lutas com machados e moto-serras, mas no final é a narradora que acaba roubando toda a cena. Muitos acadêmicos costumam se referir à narração como um problema, algo a ser evitado tanto no cinema quanto na literatura, mas no caso de Meyer - bem como no de muitos outros - a narração funciona muito bem, conferindo a seus filmes boas doses de ironia e acidez.

A obsessão do diretor por mulheres com seios enormes - em movimento, de preferência - tornou-se uma obsessão nacional nos EUA. Meyer inaugurou uma categoria chamada "sexploitation" - filmes que não tentam disfarçar que a história é só um pretexto para as cenas eróticas. Hollywood ainda tenta - sem sucesso, claro. No caso da rede Globo, é melhor nem falar nada.

Meyer ainda vive, mas devido à idade avançada, não trabalha mais. Felizmente, o que ele produziu nas décadas de 60 e 70 são o suficiente para cativar gerações e gerações de fãs, retratando uma sem-vergonhice honesta e saudável que faz muita falta nos dias de hoje. Alguns de seus filmes foram lançados no Brasil, mas é quase impossível encontrá-los. O leitor interessado pode importá-los via amazon.com, e alguns títulos estão disponíveis para download em softwares p2p como Emule ou Kazaa. Quem tiver oportunidade ($) ou uma conexão rápida, não deve ignorar o trabalho desse diretor genial, que conseguiu redimir o gênero erótico no cinema.

Filmografia:
Pandora Peaks (2001) - Beneath the Valley of the Ultra-Vixens (1979) - Up! (1976) - Supervixens (1975) - Blacksnake! (1973) - Seven Minutes, The (1971) - Beyond the Valley of the Dolls (1970) - Cherry, Harry & Raquel! (1970) - Vixen! (1968) - Finders Keepers, Lovers Weepers! (1968) - Good Morning... and Goodbye! (1967) - Common Law Cabin (1967) - Mondo Topless (1966) - Motor Psycho (1965) - Faster, Pussycat! Kill! Kill! (1965) - Mudhoney (1965) - Fanny Hill (1964) - Lorna (1964) - Heavenly Bodies! (1963) - Europe in the Raw (1963) - Wild Gals of the Naked West (1962) - Erotica (1961) - Eve and the Handyman (1961) - Naked Camera, The (1961) - Immoral Mr. Teas, The (1959) - French Peep Show, The (1950)

- J.W.Kielwagen

 

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