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Uma
das maiores dificuldades em se produzir cinema é
o alto custo das produções. O cineasta
não pode realizar todo o filme sozinho, sendo
obrigado a procurar o apoio de uma estrutura que custa
dinheiro. Os produtores normalmente esperam que o
filme seja um sucesso comercial, de modo que possam
recuperar seu investimento. Isso no caso de uma indústria
do cinema, como Hollywood; como não existe
nada semelhante no Brasil, nossos filmes são
feitos com dinheiro do estado, o que acaba impondo
às produções outro tipo de limitação.
De uma forma ou de outra o cineasta tem que fazer
uma série de concessões que comprometem
a qualidade de seu trabalho. Será possível
driblar esse tipo de problema?
Sim, é possível
fazer bons filmes sem ficar puxando o saco dos outros;
assim o provam os gêmeos Kuchar. Nascidos em
Manhattan em 1942, George e Mike se mudaram para o
Bronx ainda crianças. George, oprimido pela
hostilidade do clima excessivamente urbano de NY,
refugiava-se em parques arborizados, onde dava longas
caminhadas nas áreas mais remotas, em busca
de nascentes e cataratas. Tornou-se obcecado pela
natureza e seus fenômenos. "Como nasci
em uma cidade e vivi em uma cidade, New York, minha
vida toda, eu adorava a natureza e as tempestades
– qualquer coisa que perturbasse a cidade de
uma ‘forma natural’.“ Tornados foram
uma fascinação especial, que estariam
presentes em seu cinema anos mais tarde. “Acho
que nos anos 50 um grande tornado passou por Worchester
e Massachusetts, e se falava dele em NY. Era a notícia,
e por alguma razão isso me excitou: a grande
tempestade esmagando cidades e assoprando as vidas
das pessoas, mudando-as.”
O gosto do pai para
literatura também teria um efeito profundo
sobre George: “Em NY havia muitos romances horríveis
nas prateleiras, e meu pai lia esses romances horríveis.
As novelas eram excitantes para mim – as ilustrações
das capas. Aquilo inspirou muitas imagens na minha
cabeça. Eu adorava o tipo de sordidez que era,
evidentemente, ser um adulto. Ele também tinha
alguns livros pornográficos no fundo da gaveta,
e quando eu era um garotinho eu costumava encontrá-las,
e ficava fascinado e ria... o mundo dos adultos.”
George continua: “E as revistas em quadrinhos,
acho que elas também me perverteram. Lembro
de ficar realmente perturbado quando os heróis
eram capturados, e chicoteados... e espancados, e...”
Antes de ingressarem
na carreira cinematográfica, por volta de 1970,
George começou a desenhar uma revista em quadrinhos.
Seu irmão Mike também era bom desenhista
e eventualmente passou a colaborar com o trabalho,
fazendo ilustrações de inspiração
mística/clássica. O ápice de
Mike como um pintor foi uma série de retratos
em óleo evocando erotismo satânico, com
duendes musculosos em cores brilhantes.
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| Mike
& George Kuchar, nos anos 60 e 90 |
Quando os irmãos
fizeram 12 anos, ganharam de presente um câmera
DeJur 8mm. Eles imediatamente começaram a produzir,
inspirados pelos épicos que tinham assitido
na telona. George descreve um desses primeiros trabalhos
da seguinte maneira: “Quando tinha 12 anos,
fiz um filme de travestis no telhado e apanhei muito
da minha mãe por tê-la desonrado e também
por arruinar sua camisola. Ela não percebia
o quão difícil era para um garoto de
12 anos conseguir garotas de verdade para seus filmes.
Mas esse infeliz incidente não acabou com nossos
figurinos épicos. Um mês depois, Mike
e eu filmamos um espetáculo egípcio
no mesmo telhado com as antenas das televisões
como público. Nossa carreira tinha começado.”
George e Mike podem
ser considerados os mais imaginativos cineastas de
baixo-orçamento do cinema norte-americano,
tendo alcançado o reconhecimento na década
de 1960, quando eram os grandes nomes do underground.
Foram pioneiros no uso da estética “camp”,
que influenciaria praticamente todo mundo que veio
depois, desde Warhol até Waters e Lynch. Seus
cenários eram as casas onde moraram, as vizinhanças
e arredores de NY. As trilhas sonoras – quase
todas roubadas de superproduções de
Hollywood – conferem forte dramaticidade às
histórias, que vão da ficção
científica ao cotidiano de um cachorro. Os
protagonistas são quase sempre interpretados
por George.
Poucos trabalharam tão
bem dentro de suas limitações. Dentre
os mais de sessenta curtas produzidos pelos Kuchar,
um dos mais notórios é ‘Sins of
the Fleshapoids’, de 1965, uma ficção
científica sobre um futuro pós-nuclear
onde a humanidade tem robôs como servos. Um
robô fugitivo se esconde na casa de uma mulher,
por quem começa a nutrir sentimentos. Mas eles
jamais poderão ficar juntos...
‘Hold me while
i´m naked’, de 1966, retrata a triste
rotina de um nerd, interpretado por George –
“que passa todo o tempo em casa, enquanto lá
fora todos se divertem e tomam banho juntos”,
explica.
‘Forever and Always’,
de 1978, é um dos mais dramáticos filmes
dos gêmeos; conta a trágica história
de um divórcio seguido de atropelamento. Todos
os elementos que consagraram o estilo Kuchar estão
presentes: música retumbante, tempestades e
fenômenos climáticos, cinzeiros em forma
de mulheres nuas, e muita criatividade para adaptar
as idéias ao orçamento limitado.
Os peculiares curtas
dos irmãos Kuchar são muito difíceis
de se encontrar por serem absolutamente anti-comerciais.
O leitor certamente não os encontrará
na locadora ou cinema mais próximos de sua
casa - as únicas alternativas para os famintos
são esperar por alguma editora especializada,
ou tentar importar.
- J.W.Kielwagen
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