| O surrealismo
é fascinante porque remete a um mundo de sonho,
onde situações aparentemente sem sentido
falam diretamente ao inconsciente. Embora tenha alcançado
certa popularidade nas artes plásticas, na
obra de Salvador Dalí, no cinema o surrealismo
passa desapercebido, não por falta de cineastas,
mas por falta de interesse por parte da indústria.
Para
apresentar ao leitor o precursor do surrealismo no
cinema, Luis Buñuel, ninguém melhor
do que alguém como meu amigo Marcos Alexandre...
-
J.W.Kielwagen
"Somente
aos 65 anos de idade compreendi a inocência
da imaginação. Precisei de todo este
tempo para admitir que o que se passava na minha cabeça
não eram maus pensamentos." Esta frase foi
dita pelo cineasta espanhol Luis Buñuel, o
fundador do movimento surrealista no cinema e um dos
mais originais e ousados cineastas do mundo.
Luis Buñuel nasceu em 1900 no interior da Espanha.
Em sua carreira, foi considerado maldito, pervertido
e genial. De família rica, aos 17 anos tornou-se
amigo de Salvador Dalí no colégio interno
em que ambos estudavam. Doze anos depois, os dois
realizam uma das obras-primas mais polêmicas
do cinema: o filme surrealista Um Cão Andaluz,
um curta-metragem de 17 minutos cuja cena mais famosa
é a de uma lâmina fatiando o olho de
uma mulher catatônica.
Em
1931, eles lançam em Londres seu segundo filme:
A Idade do Ouro. Logo em seguida, Dalí resolve
se dedicar à pintura e Buñuel vai morar
nos Estados Unidos a convite da Metro-Goldwyn Meyer.
Em menos de quatro meses é demitido do estúdio
e volta para Espanha, onde tornando-se participante
ativo da 'Associação de Escritores e
Artistas Revolucionários'. No ano seguinte
Buñuel foi duramente censurado por seu documentário
Las Hurdes, considerado ofensivo ao seu país.
Além
da célebre parceria com Salvador Dalí
no início da carreira, Buñuel contou
com um grande colaborador em seus filmes: o roteirista
francês Jean-Claude Carrière, editor
da mais famosa revista de cinema do mundo, a Cahiers
du Cinemá. Buñuel e Carrière
escreveram seis filmes e foram indicados ao Oscar
de melhor roteiro original por O Discreto Charme da
Burguesia, a primeira produção que assinaram
em conjunto. A polêmica dupla também
escreveu A Bela da Tarde, em que Catherine Deneuve
interpreta Severine, uma entediada dona de casa que
resolve se prostituir com homens sadomasoquistas.
Em O Fantasma da Liberdade Buñuel e Carrière
mostram seqüências de situações
surreais que vão desde ciclistas fantasmas
até crianças desaparecidas, passando
por uma sessão de fotografias perversas e uma
memorável cena escatológica em que um
casal burguês recebe convidados para que juntos
todos façam cocô à mesa de jantar.
Três anos depois, Buñuel e Carrière
realizam Este Obscuro Objeto do Desejo, que seria
o último filme rodado pelo cineasta. O filme
mostra uma relação amorosa conturbada
e confusa. O fato de a protagonista ser interpretada
por duas atrizes diferentes nas mesmas cenas não
ajuda em nada a compreensão de mais esta trama
surreal. Os filmes de Buñuel trazem crimes,
corrupção e terrorismo misturados com
incesto e outras perversões sexuais, sempre
mostrando militares e membros da igreja em situações
nada agradáveis.
Situações absurdas também fazem parte
do universo terrivelmente sedutor de Buñuel.
Em O Anjo Exterminador, por exemplo, um grupo de amigos
burgueses regride a um comportamento troglodita quando
todos ficam presos em uma sala de jantar. Nada de
surreal nisto? Pois a sala não tem portas nem
janelas trancadas, e a prisão é inexplicável.
E a cena das ovelhas na igreja é uma das melhores
já produzidas pelo cinema não-comercial.
Ao
longo de sua carreira, Buñuel realizou 42 filmes
e retrucava as críticas da igreja dizendo que
"sexo sem religião é como um ovo sem
sal". Ele também costumava dizer que "na vida
real, não posso entrar em um sonho e modificá-lo.
Esta é uma limitação ridícula.
E no cinema, ela não existe." Buñuel
morreu em 1983. Um ano antes, publicou Meu Último
Suspiro, memórias ditadas a Jean-Claude Carrière.
No livro, Buñuel diz que gostaria de poder
sair do túmulo a cada dez anos para tomar um
café e ler o jornal para saber das novidades.
-
Marcos Alexandre
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