Ana Carolina - Aula particular de coito

Amélia

A presença feminina certamente faz falta no cinema. Boas atrizes não são tão difíceis de se encontrar, assim como na música temos muitas boas intérpretes. Entretanto, diretoras ou roteiristas no cinema, bem como compositoras na música, são mais raras. Porque isso acontece? Será possível que a mulher seja desprovida de gênio criativo? Ou, talvez, nossa cultura tenha certa resistência a aceitar mulheres em posições de comando, como se a autoridade fosse estranha à natureza feminina? Há até quem diga que são elas que não se interessam muito por essas coisas: numa cultura onde o machismo é regra, não é nenhuma surpresa que as próprias mulheres sejam machistas. Ora, está em Colossenses 3:18: "Mulheres, sede submissas aos vossos maridos, como convém ao Senhor" e em I Pedro 3:1:  "As mulheres tem de ser submissas aos vossos maridos". Para que fazer arte, quando se pode cozinhar e lavas as roupas do marido?

Felizmente, a cultura é questão meramente circunstancial. Há cinco mil anos o matriarcado era comum na Índia, mas como naquela época não existia celulóide, o único legado que nos restou foi a agricultura. (...) Após alguns milênios de falocentrismo e cultos solares - entre os quais se enquadra o próprio cristianismo - a mulher recupera lentamente seu espaço. Apesar de todos os progressos do século passado, mulheres ainda são minoria nas artes, ciências e política (embora sejam maioria em capas de revistas e comerciais de carros). No Brasil, temos vários nomes femininos no cinema: Gilda de Abreu, Suzana Amaral, Lucia Murat, Carmen Santos, Tizuka Yamasaki, Norma Bengell, Sandra Werneck, Rosane Svartman, entre outras. Temos até duas premiadas, Laís Bodansky por Bicho de Sete Cabeças e Anna Muylaert por Durval Discos.

Como tema para essa coluna, ninguém melhor que Ana Carolina, cineasta vigorosa e radicalmente autoral, com uma trilogia que apresenta várias questões femininas. Paulista de 1949, tem formação em medicina - com especialização em paralisia cerebral - e ciências sociais. Em 1966/67 estudou na Escola de Cinema São Luiz em São Paulo, onde entrou em uma equipe para trabalhar como continuísta no longa de Walter Hugo Kury, As Amorosas. Assim, deu início à sua carreira cinematográfica. Logo depois, ganhou um concurso da Secretaria de Cultura, que lhe permitiu dirigir seu primeiro curta, um documentário de cunho social. Em 1974, dirigiu seu primeiro longa, um documentário chamado Getúlio Vargas, sobre o próprio, e em 1977, escreveu e dirigiu o primeiro longa de ficção, Mar de Rosas.

Cristina Pereira em Xuxa Abracadabra

Mar de Rosas tem momentos em que parece uma sátira ao casamento burguês, e outros em que parece apenas um bando de loucos em um sanatório. O roteiro é bastante intimista, cheio de falas e momentos aparentemente banais ou desconexos, mas que aos poucos criam um clima tenso e opressor. Uma mulher infeliz, chamada Felicidade, tenta matar o marido e foge com a filha. A loucura e o desvario histérico vão se acentuando gradativamente na medida em que a história se desenvolve. Os Loucos são conhecidos atores da Globo, na época em início de carreira: Otávio Augusto, Norma Bengell, Hugo Carvana, Ary Fontoura, Myrian Muniz e a singular Cristina Pereira no papel da irritante filha Betinha. Cristina trabalhou no legendário TV Pirata e atuou recentemente em Xuxa Abracadabra.

Seu trabalho seguinte foi Das Tripas Coração, de 1982. Conta a história de um colégio só para meninas que está para fechar, devido a uma intervenção estadual. O interventor designado para encerrar as atividades da escola - Antônio Fagundes - chega antes da hora marcada e, enquanto espera, adormece e sonha que é um dos professores. O elenco conta com Nair Belo, Othon Bastos, Cristina Pereira novamente, e ninguém menos que Ney Latorraca, impagável no papel de um padre que urina pelos cantos da escola. Mais tarde, fica furioso quando uma aluna resolve satisfazer suas necessidades na igreja, em frente ao altar e em plena missa, bem no meio do sermão, sob os aplausos e gritos das colegas. A heroína mais tarde ganha uma faixa de "mijona". As safadas alunas, incontroláveis, masturbam-se coletivamente e comemoram cada orgasmo como se fosse um gol. O filme naturalmente descamba para a insanidade e o desvario frenético, com cenas vulgares e surreais, e surpreendentemente, profundidade psicológica quase no mesmo nível do de Clarice Lispector. Das Tripas Coração é um filme bastante perturbador e digno de nota, sendo até hoje o filme mais conhecido de Ana Carolina.

Oh, meu Deus! Uma cobra!
Meus Deus, uma cobra, oh!
Cristina Pereira recebe uma aula particular de coito
Antônio Fagundes em sua melhor fase
"ás vezes você não se sente como se estivesse nua?"

O Mestre: Ney Latorraca

O padre Ney tem um acesso de tosse em plena missa...
...mais tarde, ensina uma menina que pensa ser homem a jogar bola
Uma das alunas satifaz suas necessidades na igreja, durante a missa.
Que desrespeito!
As meninas se masturbam e berram
Até Jesus se manifesta diante de tanta lascívia
A global Nair Belo
diálogos geniais: "solteironas são como aspargos"

Ney Matogrosso

Em 1987, apresentou Sonho De Valsa, sobre Tereza, uma mulher na faixa dos trinta que sente-se abandonada e deseja o amor. Os homens também desejam Tereza: um ex-namorado, um pretendente, um amigo do pai, até o irmão. O leitor não terá dificuldade em antever o desenrolar da trama. (...) O elenco conta com Xuxa Lopes, Daniel Dantas e Ney Matogrosso, numa rara aparição no cinema. Os três filmes - Mar de Rosas, Das Tripas Coração e Sonho de Valsa - compõem uma densa trilogia sobre a alma feminina, abordando principalmente temas como sexo e poder.

Nos anos noventa houve um longo hiato, que, segundo a própria Ana Carolina, se deve ao fato do então presidente Collor ter destruído todos os mecanismos de produção e exibição. Só a partir de 1995 as leis de incentivo à cultura começaram a se aperfeiçoar, tornando o cinema viável novamente. Em 2000 lançou Amélia, uma fantasia cômico-dramática sobre a visita da atriz francesa Sarah Bernhardt ao Brasil, no início do século passado. Conta com Marília Pêra, no papel de Amélia, e a francesa Béatrice Agenin no papel de Sarah Bernhardt. Já em 2003, a diretora lançou Gregório de Mattos, sobre a vida de um poeta baiano que viveu no século XVII, com a participação da jornalista Marília Gabriela.

Os filmes de Ana Carolina são relativamente fáceis de se encontrar em locadoras, especialmente os recentes, que são mais comerciais. Os antigos também estão lá, mofando injustamente nas prateleiras.

Enrevistas com a diretora:
http://chat.terra.com.br:9781/anacarolina.htm
http://www.cineclick.com.br/cinebrasil/atual/gregoriodemattos.html

Filmografia: Lavra Dor (1968) - Indústria (1969) - Getúlio Vargas (1974) - Mar de Rosas (1977) - Das Tripas Coração (1982) - Sonho de Valsa (1987) - Amélia (2000) - Gregório de Mattos (2003)

- J. W. Kielwagen

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